Capítulo 41

Um lágrima cai do meu rosto e observo minha Maria Scarlet aproximar-se de mim com seu vestido negro, e seu olhar amarelo, igual ao da coruja que por vezes me encontra nos arredores da minha solidão, que desprende minha alma para poder fazer-me livre, em um vôo infinito para dentro de mim mesma… 

17 de Setembro de 2011, sábado

Acordo três dias depois da fatídica conversa com o Jota com uma ressaca moral e emocional. Estou exausta psicologicamente e não consigo parar de pensar na minha vida com a Heidi; quero muito que ela me aceite de volta, mesmo sabendo que as chances disso acontecer são remotas…

Espero o Jota sair para buscar a Rebeca (para ir à praia), e ligo para a Heidi. O celular está desligado e lembro-me que em finais de semana alternados a Heidi ia para a casa do avô, a famosa “Casa da Colina”. Busco o número fixo da casa e, depois de uns vintes minutos encontro meu caderninho de anotações, ainda com a letra da Heidi.

– Mansão Vlaar, pois não? – contesta a chamada um homem com voz suave, provavelmente a de algum mordomo ou algo do tipo… sim, ainda existem lugares na Europa com essa cultura…

– Eh… por favor, gostaria de falar com a Heidi. 

– Quem gostaria de falar com ela, por gentileza?

– É a Anna Lara. – Um nó na minha garganta quase me impede de continuar a falar, mas fico firme na linha aguardando pela minha amada.

– Um momento, senhora.

Um tempo depois um homem com voz grossa vem ao telefone, nitidamente irritado.

– Senhora Anna Lara, boa tarde. Quem fala aqui é o avô da Heidi, Sr. Vladmir Vlaar. Em que posso ajudá-la?

– Olá Sr. Vladmir, eh… boa tarde para o senhor também… – não sei o que dizer para ele, sinto-me tão, tão constrangida… as poucas vezes em que estive com ele foram tão estranhas, como se tivesse uma parede de gelo dividindo a nossa presença, me sentia sempre tão mal que optei por não ir mais na Casa da Colina…

– Anna Lara, o que a senhora deseja, por favor?

– Eu quero falar com a Heidi, Sr. Vladmir, como já falei para a pessoa que atendeu a ligação. – Levanto um pouco meu tom de voz, demonstrando controle dos meus atos e exigindo respeito. Afinal, não sou nenhuma criança e fui casada durante quatro anos com a neta dele!!!

– Ah…. Anna Lara, por favor, não me leve a mal. Eu realmente não simpatizo com a senhora, mas isso não vem ao caso. O que ocorre é que minha neta passou por muitos problemas desde que a senhora a trocou pelo seu ex-companheiro. Agora ela está bem, se recuperou totalmente de toda dor que você deixou em seu coração. Hoje, inclusive, ela está com sua nova namorada, recebendo algumas amigas para uma pequena confraternização.

Escuto vozes de algumas mulheres e um choro de bebê ao longe e acho bem estranho…

– Desculpe Sr. Vladmir, mas acho que este assunto deve ser tratado por mim e pela sua neta! 

– Anna Lara, a senhora está escutando esse choro de bebê?

– Sim…

– Então, é a filha da namorada da Heidi, que está aqui também. Você acha mesmo que sua presença neste momento é oportuna? De verdade? Por que, se você realmente quiser falar com a minha neta eu não vou impedir, mas gostaria que avaliasse as suas atitudes antes de causar mais sofrimento para minha família!

Não tenho como negar que este senhor está coberto de razão! Não posso mais insistir com algo que eu fiz, cuja culpa recai em mim novamente. Sou eu, a culpada pelas dores de todos as minha volta e só eu devo arcar com o preço da tristeza e da desilusão que cerca minha vida…

Desligo o telefone com a promessa de que não mais irei interferir na vida dela, não quero prejudicar quem me fez tão feliz! Preciso deixá-la ir, assim como preciso deixar que a Caroline siga seu caminho… e eu preciso seguir o meu.

Um lágrima cai do meu rosto e observo minha Maria Scarlet aproximar-se de mim com seu vestido negro, e seu olhar amarelo, igual ao da coruja que por vezes me encontra nos arredores da minha solidão, que desprende minha alma para poder fazer-me livre, em um vôo infinito para dentro de mim mesma… 

De repente, entro em um sonho profundo, no qual estou correndo pelos campos gelados da França…

História da Maria Scarlet:

Maria Eugênia fugiu para a floresta e tentou se esconder dos amigos de Lorenzo que iriam buscá-la para vingar a morte do viril algoz. Caminhou descalça até a cabana de Florença, sua companheira de caminhadas e desfortúnios, se alimentou e se aqueceu antes que o padre da cidade, convocado pelo companheiro de Florença, chegasse com sua oratória sobre o pecado da carne, o despudor escancarado e a lascívia que havia assolado o pequeno povoado rural, nas redondezas de Marselha. 

Antes da chegada do padre, que residia em Marselha e demoraria dois dias para chegar, Maria Eugênia sofreu um estupro coletivo onde todos os homens de bem do povoado a brindaram com seus espermas fedidos e leitosos, a machucaram, a espancaram, a fustigaram. Entraram por todas as cavidades que puderam, arrancaram-lhe parte dos cabelos e a fizeram beber suas urinas. Trataram-na como a maior rameira de todos os tempos, fazendo-a banquete de homens e animais, mulher de vários, instrumento de permissividade e luxúria. Havia perdido a conta de quantos coabitaram seu sexo, de quantas horas estava servindo a seus órgãos já arroxeados de tanto os espremerem contra a vagina já devastada da pobre moça branca de cabelos cor de ébano. 

Quando o padre chegou e viu a cena devasta na qual a mulher havia sido submetida, ficou absorto com o tamanho da crueldade sexual e decidiu abrandar a pena de morte que havia previamente escolhido para Maria Eugênia. Decidiu ajudá-la e para tanto, a condenou a uma vida de obrigações em um dos Convento das “Filhas de Maria Madalena” na cidade de Nice. As “Madelonnettes” (em tradução livre “Madalenazinhas”) eram formadas pela generosa reunião de pecadoras que escolhiam livremente o caminho da redenção; depois de algum tempo a entidade evoluiu insidiosamente para um estabelecimento mais clássico onde eram encerradas por ordem do rei, dos juízes ou simplesmente por solicitação de suas famílias, qualquer mulher ou moça suspeita de má conduta.

A luxúria a que seu corpo havia sido submetido até aquele momento era demasiada suja para os padrões de vida que Maria Eugênia gostaria de seguir, mas com certeza, submeter seu corpo ao encarceramento eterno para encarcerar sua alma era um caminho demasiado penoso para uma pecadora que já se acostumara com o júbilo do prazer regozijante e fugaz. 

Aceitou entrar na carruagem que a levaria direto para o convento, onde prestaria serviços braçais além das obrigações para com a salvação da sua atormentada alma. Já nos arredores da cidade de Nice, Maria Eugênia esperou que o cocheiro parasse para dormir por algumas horas para fugir em passos largos para o desconhecido caminho que lhe aguardava à espreita. Foi mais veloz que um puma, mais esperta que uma raposa e mais viva que uma coruja. Sabia que o tempo que dispunha era pouco e que a salvação de toda a luxúria a que estava acostumada dependia da sua força. Seguiu em frente e foi além das suas expectativas. 

Só parou quando avistou uma fazenda com um grande galpão à sua esquerda. Entrou sorrateira e se escondeu nos montes de feno que serviam de comida para os porcos que ali habitavam.

“Acordou em meio ao feno e às folhas de hortaliças. Estava em um galpão velho, com alguns cavalos em suas baias. O local era sujo e úmido, e era possível escutar alguns pequenos roedores à espreita. Suas roupas haviam sido retiradas e Maria Eugênia estava nua, somente coberta por uma manta velha, de cor vermelha escura. Um líquido saía de dentro de si em direção às suas coxas. Não lhe importava que tivesse sido usada. Tantas vezes fora usada de forma consciente, que desta vez, inconsciente, este fato não lhe causava caso nem revolta. Era mais uma prova de sua incompetência moral e desvirtuosa. Um porco teria mais sorte por ser, um dia, devorado com gosto e desejo. Ela, um pedaço de carne já sem gosto algum para os paladares mais exigentes, e sem pudor aparente das suas partes devastadas, não poderia pleitear tamanho deleite de ser degustada, aos poucos, e deliciada em toda a sua profusão. Seu pensamento era um constante ponto de interrogação sobre seu desesperançoso futuro: “Serei eu, mais uma puta a ser atirada na fogueira do inferno por não ter vergonha?”

De repente ouviu o ranger das ferragens envelhecidas das grandes portas de madeira pesada, que guardavam o grande celeiro, abrirem-se. Ouviu o bater das asas dos pássaros, que se refugiavam nas extremidades superiores do galpão, e o ronco dos porcos, que já se desesperavam por temer o corte do próximo escolhido para a ceia. Mas a escolhida desta vez, e de novo, seria ela, Maria Eugênia Vasquez de Bragança, espanhola de 16 anos de idade, nascida em uma família de fé católica ortodoxa, expulsa de casa aos 14 anos, depois de abortar seu filho, fruto de um sexo promiscuo com seu próprio tio…

Ela sentiu medo, muito medo. Medo de ser machucada de novo. Encolheu-se em seu rincão esperando pelo pior. Para ela, ser estuprada já não lhe causava ardor, em vista do medo de ficar marcada para sempre, desfalecendo o único bem que ainda lhe restava nesta vida: sua juventude resplandecente em incrível e inexorável beleza delicada. Sua mistura de árabe e austríaca proporcionavam-lhe exótica beleza, com traços finos e marcantes, pele excepcionalmente branca, cabelos bem negros fazendo conjunto com seus enormes cílios, que ressaltavam seus enigmáticos olhos amarelos.

O homem aproximou-se e, apesar da pouca luz que emanava das frestas do celeiro, ela pôde observar por alguns segundos que não se tratava de um homem, mas sim de dois jovens rapazes, que não deviam ultrapassar a barreira dos seus 14 anos… Ambos os rapazes se aproximaram de Maria Eugênia e, abaixaram suas calças já com suficiente “entusiasmo” para, em seguida, começarem a penetrá-la. O rapaz com aparência mais jovial foi o primeiro a penetrá-la, com intensidade desproporcional à sua frágil aparência. Extasiado de tamanho tesão, começou a sufocar Maria Eugênia que, em desespero, começou a gritar com o que restava de sua voz, implorando por sua vida. 

Depois de penetrarem a vergonha de Maria Eugênia com toda a força possível, os rapazes viris não se contentaram simplesmente com gozo alentador, preferiram algo mais viceral. A dor em Maria a faria mais atrativa para cortejo de imprestáveis criaturas que não se importavam com a fartura de um banquete, se este não viesse acompanhado do deleite da aflição. Sentiram desejo de machucá-la. E machucaram. Penetraram-na por trás inúmeras vezes, tantas quanto conseguiram. Beijaram seu rabo com vontade, ao mesmo tempo em que insistiam em feri-lo com impetuosidade. Foram cruéis ao colocá-la sobre o mar de lama fétida que esvaía dos porcos. Mais cruéis ainda se tornaram quando ofereceram seu banquete ao animal de quatro patas que ali assistia ao espetáculo bárbaro, contorcendo-se com igual avidez que os exemplares da raça humana.

Foi ela, banquete de monstros e de animais. Não contentes com tamanha libidinagem, acabaram com o ato escravizando Maria a uma vida de miséria. Retiraram-lhe o vintém que lhe restara ao cortarem com uma lâmina afiada seu precioso rosto aveludado. Deram-lhe um golpe certeiro que lhe sacou parte de tão preciosa beleza, e também toda a sua virtuosa comoção ao ato sexual. Tornou-se pervertida puta de braços frios e pernas quentes. Não servia mais para amar, somente para odiar aqueles que, com satisfação, ofereciam o gozo amargo para guardar em seu corpo sujo. Nunca cicatrizou a ferida que lhe machucara a alma. Mais do que qualquer ardor, aquele foi o que devastou Maria Eugênia. 

Com seus olhos marejados pelo horror que recém vivenciara implorou pela morte. A morte mais lhe serviria do que uma vida sem beleza. Estar presa a esse mundo com a aparência de uma serva explorada parecia-lhe a pior forma de escravidão possível. Os jovens perversos se contentaram em deixá-la com os estrumes fétidos e as sobras das vestes rasgadas e seguiram seu caminho para a vila mais próxima. Entre sangue, excrementos e gozo, Maria Eugênia arrastou-se para fora do celeiro até a margem de um rio. Lá chegando, abaixou-se e verificou o estrago de seu rosto. Quando olhou para o seu reflexo no rio, não conseguiu ver sua face descomposta, mas viu a sombra de uma outra mulher. Viu a imagem de sua avó cigana. Viu as cartas da sua vida girando em cima das águas cristalinas desse rio. As cartas passavam por si com a mesma sequência que sua avó retirara no dia em que lhe abriu o tabuleiro sagrado. A primeira foi a carta da morte, que envolveria toda a vida de Maria Eugênia. A morte para a vida e o renascimento, representado pela carta seguinte. Finalmente reconheceu a carta da Imperatriz escura, que governa pela dor. Viu-se forte o suficiente para continuar a seguir sua estrada…” ***

* trecho retirado do primeiro volume

Seguiu o curso do Rio até encontrar uma camponesa de sorriso largo e cabelos compridos da cor de mel. A moça ajudou-a e tratou de curar suas feridas, ao menos, as que estavam expostas. Era uma curandeira, tratava das enfermidades físicas e também cuidada da alma machucada dos que passavam por seu caminho. Se chamava Heidi Deshayes, descendente direta de Catherine Deshayes, famosa bruxa condenada à morte na fogueira em Paris, em 1680.

Heidi abrigou Maria Eugênia em sua cabana e a ajudou a cicatrizar a ferida exposta em sua face que, quase como mágica, se ligou novamente, desinchando e clareando a medida em que os dias avançavam. Cuidou dela como seu fosse uma irmã, não pediu nada em troca e apenas exigia que a pequena mulher magra e humilhada, no alto dos seus míseros 1,60 m de altura, seguisse suas ordens para poder se recuperar.

A cabana de Heidi, apesar de muito simples, era muito arrumada e todos os dias a bruxa da floresta fazia uma faxina completa, removendo a poeira que insistia em pousar em suas poções mágicas e amuletos poderosos. Os pés de galinha secos que pairavam acima das cabeças de ambas serviam como adorno para Maria Eugênia, que encontrava beleza na tragédia trazida pela morte. Outros objetos ainda mais estranhos não causavam incômodo ou embaraço para a pequena-puta que havia visto de tudo um pouco; mas, um dia, ao encontrar pedaços de cordões umbilicais guardados em uma caixa velha de madeira se deparou com o verdadeiro sentido da vida e da morte. Era nova demais para ter tantas mortes desenhadas em suas entranhas. Era pequena e demasiada humana para transcender à uma vida mais plena, mais elevada e mais divina. Era puta e filha de puta. Era apenas mais uma Maria que vagava por esta vida à espera de um pouco de conforto…

Próxima Leitura -> Capítulo 42

***

Trilha Sonora: Have You Ever Seen The Rain – Rod Stewart

Deixe uma resposta