Capítulo 40

Termino meu devaneio e volto para o Jota, que continua a justificar sua relação sexual, como se esta relação precisasse ser justificada; como se o tesão fosse propriedade de um alguém específico ou de alguma instituição. Se é algo que flui, que tem vida própria por sua natureza pungente e devastadora, o tesão não pode ser domado ou controlado, nem ao menos explicado. O tesão só pode ser conduzido ao ápice do gozo, que é para ele a sua mais tenra e devota existência: para o orgasmo libertador, seja ele ordinário ou não.

Ainda no apartamento, logo depois do beijo…

Ricardo me empurra levemente, tentando se afastar do meu corpo desnudo. Sinto um misto de vergonha com arrependimento por ter beijado meu amigo querido, por quem, inclusive, não sinto nada a não ser pura e simples amizade.

– Anna Lara, o que você está fazendo??

– Desculpe Ricardo… eu achei… você me trouxe um buquê de flores, então…

– Eu não trouxe essas flores, elas estavam lá na portaria, para você, e eu só subi com elas, a pedido do porteiro! 

– Ah… desculpe! Nossa… que constrangimento…

Ele se vira e busca uma toalha de mesa branca para cobrir meu corpo enquanto conversamos, e volta a me questionar:

– Anna Lara, o que aconteceu aqui nessa festa? O que você está fazendo?

– Nada! Eu só vim comemorar meu aniversário de trinta anos! Porquê? Não posso curtir a vida ao lado dos meus amigos? E você está falando o quê? Nem veio no meu aniversário!

– Anna Lara, a Sofia estava com febre, fiquei cuidando dela com a Michele. Não podia largar minha filha e minha mulher para vir para uma festa me drogar e fazer orgia!

Nesse momento percebo toda a razão que acompanha as palavras que saem de sua boca e fico atônita, sem ter o que dizer.  Sinto uma vergonha enorme de mim, do papel que estou fazendo ali, nua, enrolada em uma toalha de mesa, com meu marido dormindo abraçado a um estranho, que inclusive penetrou meu corpo em todos os buracos possíveis, durante horas, não sei…

– Ricardo… me desculpe! Eu estou tão envergonhada… não sei nem o que te dizer!

– Anna Lara, vamos embora daqui! A Méli me ligou hoje cedo e me pediu para te buscar, e é o que eu vim fazer. Vamos para a sua casa. Você precisa tomar um banho, comer e dormir.

– A Méli estava aqui ontem? Não consegui encontrá-la…

– Você a encontrou sim, Anna Lara. Encontrou e fez muita coisa…

– O que eu fiz, Ricardo? 

– Vamos para casa e depois conversamos sobre o que você fez, Anna Lara. 

Aceito a forma como Ricardo está conduzindo a situação e não o questiono mais. Vou até o quarto buscar minhas coisas e percebo que o Jota está discutindo com o Caio. Não quero me intrometer na relação dos dois e prefiro o silêncio a ter que dizer qualquer coisa… já não reconheço mais o meu marido, aliás, não reconheço mais a mim mesma há muito tempo…

Ao sair do quarto escuto a voz do Caio dizer que a noite foi muito “gostosa”… Jota grita para que ele cale a boca e diz que vai me levar para a casa. Prefiro omitir que o Ricardo está me esperando na parte de cima da cobertura e digo que vou de táxi.

No caminho para casa, Ricardo me conta que eu beijei a Nicole, namorada da Méli. Disse também que a polícia chegou na festa e que foi prontamente subornada pelos amigos ricos do Jota, falou que o chefe do tráfico da Rocinha apareceu na festa perguntando por seu “amigo” Jota e que coisas sexuais muito pesadas aconteceram nessa festa.

Eu digo que devo ter sido drogada com algo muito forte, pois não me lembrava de absolutamente nada do que havia acontecido na festa. E ele disse: “Ainda bem que não se lembra. Pelo visto teve até show com “cachorros adestrados”. Assusto-me com esta frase e prefiro manter-me calada até o caminho de casa…

À noite…

Jota chega em casa às 19 horas. Pergunto o que aconteceu e ele desconversa. Vai para o banho e fica por lá por cerca de uma hora.

 Ao sair do banho sentamos na mesa da sala e conversamos por horas sobre tudo que envolve a nossa vida. Começamos pelo ponto mais crítico, que é o aparecimento do Caio na nossa relação. Para minha surpresa, descubro que o Caio existe desde a época da Mariana, que é um amigo dela, da época de faculdade. Ele é radiologista e ex-namorado dela. Parece que a relação acabou porque ele se descobriu homossexual enquanto ainda namorava a Mariana.

Certa vez, o Jota estava com a Mariana em um bar e o Caio chegou. Ficaram conversando por horas até decidirem ir para o apartamento deles na época, uma cobertura na João Lira, no bairro do Leblon. Acabaram transando os três dentro da piscina e o Caio acabou se apaixonando pelo Jota.

Tempos depois, o Caio começou a procurar o Jota para encontros casuais, até que o que era casual virou uma relação e esta, por sua vez, acabou virando uma obsessão. Hoje o caio é um grande problema na vida do Jota, pois ameaça contar tudo para a mídia se o Jota não quiser mais nada com ele. Ele tem fotos e vídeos do Jota e, pelo visto, agora também tem um amplo material meu também…

Jota está tratando deste problema com sua equipe de crise da Trevon TV e parece que eles têm uma proposta financeira boa para tirar o Caio do circuito, por isto a demora para o Jota chegar em casa…

Ele me pergunta se o meu tesão por ele diminuiu por conta desta notícia e eu digo que não, mas a verdade é que sim, um pouco do que eu sentia pelo Jota morreu junto com a cena do Caio comendo seu rabo… a posição sexual tem grande impacto sobre a minha percepção de tesão e isso é um fato! Ser subserviente a alguém me excita e estar na posição de quatro ou de joelhos chupando esse alguém me estimula a entregar minha sexualidade de forma “servil”; esta forma é o que me atrai no Jota, o poder de manipular-me e de fazer comigo o que ele bem entendesse era o que mais me mantinha “presa” ao seu domínio sexual. Agora, diante de todas as novidades que me são apresentadas, não tenho mais nada a fazer a não ser repensar a forma que sinto atração por ele. Preciso experimentar o Jota desta outra forma, entendendo que ele é tão “macho alfa” quanto “macho passivo”, que o estereótipo de machão não sobrevive mais de forma unânime e que existem outros Jotas e outras formas dele se excitar e de gozar.

Lembro-me da Heidi e percebo o quanto era livre quando estava com ela… penso em como era nosso sexo e de como eu me sentia todas as vezes em que ia para a cama com ela. Éramos duas mulheres dividindo o mesmo espaço, atuando no mesmo lugar de prazer, sem que nenhuma se sobrepujasse à outra, sem comandante e comandado, sem nada disso… 

Esse deveria ser o sexo correto, o sexo bom, livre… Acho que todas as mulheres deveriam ser lésbicas para poderem experimentar o orgasmo de forma “direta e horizontal”, sim, todas deveriam experimentar, ao menos uma vez, o prazer de mamar em um seio que não fosse da sua própria mãe e que não fosse por sobrevivência, mas por puro e simples prazer. E todo esse papo me fez lembrar-me do peito rosa da minha Heidi, da pele branca com suas várias veias azuladas ressaltadas ligeiramente na pele quase transparente, com a auréola rosa no meio do seio, parecendo uma flor recém desabrochada, com o bico do seio despontando duro no meio das pétalas cor de salmão claro, em uma superfície levemente arenosa, lembrando um quartzo rosa sem polimento, com suas terminações em perfeita sintonia com o limite esférico do desenho mais lindo do mundo…

Termino meu devaneio e volto para o Jota, que continua a justificar sua relação sexual, como se esta relação precisasse ser justificada; como se o tesão fosse propriedade de um alguém específico ou de alguma instituição. Se é algo que flui, que tem vida própria por sua natureza pungente e devastadora, o tesão não pode ser domado ou controlado, nem ao menos explicado. O tesão só pode ser conduzido ao ápice do gozo, que é para ele a sua mais tenra e devota existência: para o orgasmo libertador, seja ele ordinário ou não.

– Jota, está tudo certo! Você não precisa me justificar os caminhos que te levaram a querer explorar o corpo do Caio, ou o por que do tesão que você sentiu ou sente por ele… eu não quero saber! É um assunto que diz respeito a você e eu agora consigo entender isso…. Consigo entender até mesmo o tesão que você teve pela Mariana, por incrível que pareça!

– Ah… então você quer dizer que finalmente resolveu perdoar a minha traição com a Mariana?

– Não, Jota, isso eu nunca vou perdoar. Mas estou dizendo que hoje consigo entender os motivos que te levaram para essa traição.

– E quais são, Anna Lara?

– O fato de você se sentir intrigado com uma mulher poderosa, uma mulher mais inteligente que você, uma que conseguiu ser bem-sucedida pela sua própria capacidade, diferente de você, que sempre conseguiu tudo de mão beijada do seu pai, por quem você tem adoração e ódio.

Vejo lágrimas escorrerem certeiras de seu rosto cansado e percebo que excedi o limite entre verdade e agressão. Tem certas coisas na vida que não precisamos falar assim, de forma tão clara e evidente, mas a tentação de pontuar o que há muito estava entalado na minha garganta foi enorme.

– E então, Anna Lara? O que você pretende fazer agora?

– Jota, “agora” eu não pretendo fazer nada com você. Eu espero que você resolva esse caso das fotos que esse cara tirou de você ou vídeos, não sei… espero que você fique bem. Espero que seja um bom pai para os seus filhos e que consiga ter disposição para trabalhar e fazer o que tiver que fazer… 

– E quanto a você? 

– Eu? Eu quero voltar a me exercitar, quero lagar o cigarro, as drogas, quero dar um tempo de “trepar” com tanta gente… quero começar a fazer ioga, quero ligar para a Méli e resolver essa situação da Nicole… quero ajudar minha tia Amélia, que acabou de descobrir um câncer e que precisa de mim. Quero viver a minha vida de uma forma melhor Jota! 

– Entendi… – Ele baixa a cabeça como um gesto de concordância com tudo que estou dizendo.

– E tem mais, Jota. 

– Mais o quê, Anna Lara?

– Quero resolver a minha situação com a Heidi. Quero entender o que eu sinto por ela e quero voltar para ela, se assim meu corpo pedir…

– Você vai terminar comigo para ficar com ela? – Lágrimas urgentes brotam do seu olhar triste e vejo o desespero do meu Jota com a possibilidade de nos afastarmos de novo.

– Não sei qual vai ser o meu destino ou o seu Jota… só sei que do jeito que está não está bom para ninguém. Temos várias feridas que não cicatrizam e acabamos provocando outras, mesmo de forma involuntária… temos que crescer como pessoas!

– Sim, meu amor. Você está certa.

– Eu sei que estou, Jota. Eu sei que estou…

Vejo lágrimas escorrerem certeiras de seu rosto cansado e percebo que excedi o limite entre verdade e agressão. Tem certas coisas na vida que não precisamos falar assim, de forma tão clara e evidente, mas a tentação de pontuar o que há muito estava entalado na minha garganta foi enorme.

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Trilha sonora: One and Only – Adele

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