Capítulo 38

Escutou as fagulhas do fogo que se aproximava para venerá-la. Os estilhaços da madeira que começavam a queimar atingiram seus pés calejados. Cerrou os olhos e encontrou com a Deusa da Morte com sua roupa mais bonita, era uma longa saia preta e um véu de renda também na cor preta. Seus seios estavam cobertos pelas tatuagens com as flores de Hambal, seus olhos maquiados estavam com a cor amarela e seu sorriso entregava a felicidade que havia recebido ao ser presenteada pelo fogo. Eram as partituras escondidas que ecoavam do fogo, as partituras das Ghawasee, da energia do sexo, do ritual, da redenção. 

Khaicerya, avó de Maria Scarlet

Dias depois…

Decidi parar com essa ideia de destruir a ruiva satânica com rituais do de magia negra vindas do passado da minha família… percebi que minha alma não poderia se misturar com esse tipo de “coisa”. Desisti de ser um alguém que eu não conseguia reconhecer e preferi ater-me às maldades que eu conseguiria me perdoar por fazer. Além disso, tive medo que algo de ruim pudesse acontecer com o Davi. Esse menino loirinho e doce, que havia conquistado meu coração e trazido à tona a parte mais suave do meu ser machucado e doído…

Engoli meu orgulho e fui até o Jota pedir perdão por tanto descontrole e intolerância com ele e com as pessoas que faziam parte da vida dele. Queria, de verdade, ser uma boa madrasta para a Rebeca, por mais difícil que isso pudesse ser para mim… queria tentar gostar da menina com cara de japonesa, que frequentava a minha casa como se dela fosse, que abraçava meu marido e o chamava de pai, que tinha recaídas por conta do acidente que sofrera, e que fazia o mundo parar ao seu redor. Queria fingir que eu a amava, mais do que a odiava. Queria, ao menos, tentar gostar dela…

Queria estar perto do Davi, vê-lo crescer, falar suas primeiras palavras, me abraçar apertado a cada encontro de final de semana. Queria ter a minha família feliz, mesmo sabendo que algumas partes de mim estavam mortas; queria poder resgatar algo de bom nesta vida fútil que tive até o momento.

Jota me abraçou e chorou quando eu pedi que reconsiderasse seu afastamento. Ele me trouxe de volta para a vida que prometera, para os tons coloridos dos diversos sabores de danoninhos espalhados pela nossa cozinha gourmet. Fomos felizes no limite da verdade que conseguíamos alcançar. 

Eu sorria e respirava aliviada até o momento em que ia me deitar com ele. Transávamos sem muita vontade e eu aguardava o momento em que ele fechasse seus olhos para que eu pudesse, em fim, gozar pensando nela, na minha mulher que eu havia abandonado em Amsterdã… 

Certa noite, depois de fumar três cigarros e um baseado, vi a Caroline sentada na poltrona do Jota. Ela estava nua, com o cabelo bagunçado e sangue entre as pernas; quando me aproximei da poltrona ela apontou para o macacão jeans que estava no canto da varanda, também sujo de sangue. Tentei agarrar o macacão antes que desaparecesse, mas ele, assim como minha irmã, viraram fumaça e sumiram da minha frente.

Fecho os olhos e volto a dormir, como se já estivesse dormindo e só houvesse acordado para presenciar um pouco da morte me sondando novamente…

História da Maria Scarlet:

Após a morte de Miguel, Khaicerya deixou o livro das magias sob os cuidados de Maria Eugênia. Pediu que a menina seguisse seus passos e fosse livre através da magia que acompanhava a trajetória das Ghawasees, explicou que o livro era importante, mas que existiam muito mais kineses do que as expostas por São Cipriano. As próprias Ghawasee haviam aprimorado uma Kinese própria, com o culto do corpo e a movimentação do chacra sexual para seduzir e prender seus homens. Era através do culto sexual que conquistavam fama e riqueza, sugando toda a energia vital de seus parceiros e transformando-os em escravos sexuais para toda a eternidade. 

Ensinou sua técnica enquanto ainda tinha sangue correndo por suas já cansadas veias. Sabia que seu fim estava próximo e não poderia esperar a recuperação de sua neta para passar a sabedoria que ela detinha, como última Ghawasee originária de Aswan e detentora da magia sexual, da kinese escondida, a décima terceira magia…

A técnica era a fomentação do tesão, a transformação da excitação sexual em energia pura para abertura de portais. Cada gozo não contemplado era uma chave para abertura dos portais. Quanto mais escravos angariados, mais portais do inferno eram abertos, e mais Ghawasees voltavam à terra para transbordar de prazer um exército de parasitas em busca do êxtase sexual, do estremecimento e relaxamento corporal, do néctar da vida, embalsamado por pitadas de enervações involuntárias e extasiantes.

Antes do gozo masculino, portanto, era papel da Ghawasee segurar toda a energia sexual para dentro de si, não deixando transbordar a falência do órgão que se amoleceria após a ejaculação obrigatória. Tirava seu corpo no momento do coito, especialmente para impedir que ele encontrasse o prazer carnal.

As posições das Ghawasees por cima facilitavam esse trabalho, quando, em continuidade ao ritual, de modo a absorver toda a energia sexual, absorvia a energia sexual bebendo um pouco do sangue do homem recém-cortado com um punhal de madrepérolas. Ao final do ritual era ofertado à Deusa Nefertite a energia sexual apreendida e conservada assim, a perpetuação das Ghawasee de Aswan.

Os homens, embora enfurecidos com a falta do coito sexual e com a ferida aberta em seus corpos, não reagiam devido ao encanto do ritual. Ficavam paralisados enquanto seus corpos eram escravizados pela eternidade pelas bruxas da beleza e do sexo. Não prestavam queixa, não comentavam o que havia acontecido. Em mais de 500 anos da existência das Ghawasee de Aswan havia casos em que o ritual não funcionou. Em alguns deles a Ghawasee, inexperiente, não percebia que o homem havia alcançado o gozo e retirava-se em momento posterior ao coito, fazendo com que o encanto não funcionasse e, levando a cigana à morte pelas mãos do seu varão. Em outros casos, a beleza e o encanto das Ghawasee eram tão fortes que as ciganas acabavam tendo romances entre elas, o que desvalia completamente a lógica da energia sexual para o rital, que necessitava de energias opostas, a feminina e a masculina. Em uma relação com duas energias femininas o ritual não funcionava e acabava levando as ciganas à morte simultânea.

Khaicerya havia se apaixonado por uma Ghawasee originária de Baris, uma descendência rival das Ghawasee de Aswan.  O nome da cigana com cabelos cor de cobre e olhos verdes era Hambal, o mesmo nome que anos depois deu para a sua única filha. Seu amor por Hambal era forte e verdadeiro, capaz de romper as barreiras culturais e as diferenças dos seus povos. Tentaram fugir mas foram impedidas pelo irmão de Khaicerya, que assassinou sua Hambal com seu próprio punhal de madrepérolas. Antes de ultrapassar os portais do inferno, porém, Hambal disse à sua amada que a esperaria do lado de lá, embalsamada com as tatuagens de flores que levava em todo corpo e com o néctar da vida eterna, para compartilharem em um mundo onde seu amor fosse livre.

Khaicerya contou tudo o que sabia para Maria Eugênia. Disse que ela só poderia usar a magia das Ghawasee quando fosse extremamente necessário. Por hora eram as magias puras de São Cipriano que a levariam para a estrada aberta. Disse para a menina não temer a morte, que ela é só uma passagem, mas que não atentasse contra a própria vida, apesar de ter outra vida à sua espera, já que os gatos, os guardiões do inferno, são amigos das Ghawasee e geralmente cedem gentilmente uma vida para as suas donas. Maria Eugênia quis saber onde estava seu gato; “ele está aí, ao seu lado, embora você ainda não consiga vê-lo”, disse a velha cigana, se preparando para a sua morte quente.

Antes, porém, havia feito um ritual em Miguel, o marcando com o sinal da estrela em suas costas. Era o sinal do carma, do pedido de redenção ao astral, da volta dele como humano ao seio da mesma família em gerações consecutivas, em um outro corpo com o mesmo propósito e com o mesmo sexo masculino e mesmo nome.

E no dia seguinte em que foi obrigada a assassinar seu neto, a cigana velha foi conduzida à fogueira, conduzida por seu próprio filho. Era acusada de bruxaria, de ter assassinado seu outro filho e de ter jogado um feitiço em seu marido.  Vestia seu habitual chapéu de veludo preto, em formato masculino, um hábito que adquiriu de seu falecido pai, seu mestre na arte de enganar e ludibriar. Era um tanto masculina com seu adorno singular que se destacava do conjunto feminino e floral das vestimentas que ostentava. 

Entregou seu chapéu para sua pequena Mareu, pediu que cuidasse do seu precioso bem, que era mais uma herança que deixaria, juntamente com o cavalinho de porcelana, o livro das magias e todo o conhecimento que lhe havia passado. Os segredos do seu povo, que estariam seguros no conhecimento da nova Ghawasee que se formava com o sofrimento genuíno a que estava sendo submetida. Era através da dor que ela cresceria e se tornaria plena. A velha cigana disse que seu nome carregava os tons do seu sofrimento e que deveria mudar de nome para se fortalecer, para poder renascer no momento oportuno. E que, a partir do seu renascimento, deveria governar um pedaço do mundo cruel que lhe tirou a vida feliz que jamais pôde usufruir…

Viu os olhos sedentos por justiça, de um povo que não sabia nem ao certo o que significava essa palavra. Viu essa mesma raiva transformar a expressão de mulheres e crianças inocentes; viu seu nome seu nome ser gritado com fúria, viu os homens que antes a cortejavam cuspirem em suas vestes vermelhas, viu o sangue escorrer pelo seu rosto após receber uma pedrada de uma criança loira que assistia ávida à sua morte na fogueira. 

Escutou as fagulhas do fogo que se aproximava para venerá-la. Os estilhaços da madeira que começavam a queimar atingiram seus pés calejados. Cerrou os olhos e encontrou com a Deusa da Morte com sua roupa mais bonita, era uma longa saia preta e um véu de renda também na cor preta. Seus seios estavam cobertos pelas tatuagens com as flores de Hambal, seus olhos maquiados estavam com a cor amarela e seu sorriso entregava a felicidade que havia recebido ao ser presenteada pelo fogo. Eram as partituras escondidas que ecoavam do fogo, as partituras das Ghawasee, da energia do sexo, do ritual, da redenção. 

A bruxa estava voltando para casa e sua canção não pararia de tocar até que a carne do seu primogênito fosse cortada nessa e em todas as suas encarnações. Era seu último feitiço que estava lançando. O pior deles, aquele que não deixaria descansar a alma dele e que faria com que todas as suas descendentes trabalhassem na energia do sexo, até o encontrarem e o cortarem. E até o momento em que o sangue jorrasse do seu corpo de seu primogênito e seu neto conseguisse renascer em segurança renascesse, até que esta profecia fosse cumprida, nenhuma descendente de sua linhagem estaria livre…

E assim, a Bruxa Ghawasee, a cigana velha, a feiticeira Khaicerya seguiu seu caminho até o local onde a esperava sua Hambal e seus filhos mortos.

Próxima leitura -> Capítulo 39

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Trilha Sonora: Milion Years Ago – Cover feat. Scarlett Cherry and Jason Yang

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