Capítulo 37

O rosto de todos resplandece o terror de uma despedida triste e arrebatadora. Percebo o clima de tensão e resolvo parar para admirar um pouco da tristeza alheia, para saborear o gosto amargo que é degustado pelos que também sentem dor.

No dia seguinte…

Vou ao supermercado comprar um pedaço de carne vermelha. Me sinto uma serial killer… olho todos os pedaços de morte, plastificados junto aos pratos de isopor preto, que sustentam o sulco e o sangue lavado do animal assassinado. Começo a sentir um nó na garganta e uma vontade enorme de vomitar domina meu corpo. Vou até uma gôndola mais vazia e me agacho na tentativa de buscar um pouco de ar. Não sou eu essa pessoa que busca um pedaço de carne podre para fazer um ritual satânico. Eu sou muito melhor do que isso! Definitivamente essa versão não combina comigo!

Saio correndo do supermercado e entro em um táxi. O motorista me pergunta para onde ir e eu não sei o que dizer. Em um impulso eu peço para que me leve para o cemitério São João Batista, onde eu deveria fazer o ritual. Vou sem a carne, sem o sapo, sem o pote… levo nas mãos um maço de cigarros e uma garrafa de whisky Green Label, do estoque elegante do Jota, da cristaleira chinesa adornada com pequenos ossos de animais assassinados…

O táxi me deixa em frente ao portão principal e entro no grande complexo de túmulos cercados por morte em todos os lados. Caminho com minha saia longa com estampa dos anos 70 nas cores vinho e branca em um fundo bege. Estou com uma pequena bolsa marrom traspassada e um top branco colado ao corpo. Pela primeira vez em muito tempo não estou vestindo roupas de marca e também não estou vestida com a cor preta, a minha favorita… 

O tempo está nublado com nuvens pesadas se formando acima da minha cabeça. Típico das tardes de março, após o final do quente verão de 2011…

Vejo um cortejo fúnebre ao redor de um mausoléu de mármore com imagens de anjos incrustados na pedra fria. O rosto de todos resplandece o terror de uma despedida triste e arrebatadora. Percebo o clima de tensão e resolvo parar para admirar um pouco da tristeza alheia, para saborear o gosto amargo que é degustado pelos que também sentem dor.

De repente uma voz rouca e jovem se aproxima do meu ouvido e diz:

– O que você está olhando? Sua curiosa! – Viro-me imediatamente e vejo seu rosto jovem e lindo. É um rapaz com uns vinte e poucos anos, com um enorme sorriso e lábios grossos. Seu rosto quadrado parece ter sido desenhado por algum pintor da renascença e seus cabelos, levemente cacheados emolduram o conjunto da obra, que é lindo demais… 

– Ah… não. Quero dizer, sim eu estava olhando, mas não queria me intrometer. Me desculpe… – Baixo a cabeça totalmente envergonhada.

– Não se preocupe… o cara que está sendo enterrado já não ligava para a sua vida. Ele quis ir embora, então o fato de ter conseguido deveria ser motivo de aplausos e não de lágrimas.

– Ele quis ir embora? Você quer dizer…

– Sim, ele se matou. Simples assim. Parou de curtir essa vida e foi buscar consolo em outros lados.

– Consolo?

– Consolo para as suas dores… você sabe, viver é difícil pra “carai”… – E quando termina de falar o quase palavrão ele abre esse sorriso lindo de novo. Rimos juntos por alguns segundos até ele parar de repente, me encarar e dizer:

– Olha, eu sei que não nos conhecemos, sei que parece estranho, mas eu preciso que você me escute com atenção. Me pediram para te mandar uma mensagem e vou mandar agora, valeu?

– Sim, mas quem te pediu para me mandar uma mensagem? Não estou entendendo…

– Cara, você é tipo… muito “foda”! Não precisa dessa merda… você é melhor que isso, não é? Pra quê você vai se afundar nesse lance de magia negra se você tem tanta luz aí dentro? Isso é que nem uma droga, não para nunca e você vai se viciar cada vez mais… “Isso” não termina nunca, vai ficar em looping por toda a eternidade… vai ficar em looping. Looping. Looping… até você tirar a sua própria vida também. Porque eles cobram, Anna Lara. Eles cobram o preço do trabalho… e ninguém trabalha de graça, não é?

– Quando você fala “tirar a própria vida”, você está falando da Caroline? – Uma nuvem de lágrimas se apodera da minha visão. Ele sorri pela última vez e me diz:

– Estou falando de mim… – E ele me mostra a ferida aberta no seu pulso esquerdo; a ferida que possibilitou que esse menino lindo, com sorriso largo e sincero deixasse que a vida se esvaísse do seu corpo em doses cavalares de sangue vivo e pulsante; em doses cavalares de desespero e sofrimento. Sinto uma pena enorme dele, de saber que estou conversando com seu perispírito e não com sua matéria. Um nó na minha garganta me impede de falar qualquer coisa para ele.

–  Adeus minha amiga de funeral! Nos vemos daqui há muitos anos. 

– Espera! Antes que você vá embora preciso que você me fale sobre a Caroline! Por favor… – Ele já havia se virado de costas e para no momento em que eu faço a pergunta. Ele movimenta a cabeça para o lado como se estivesse olhando para alguém e diz: 

– Não posso falar da Caroline com você. Só posso dizer que ela precisa da sua ajuda para sair de onde está… desculpa! Só posso te dizer isso, valeu? Adeus Anna-curiosa-Lara…

E ele se mistura aos vivos que choram sua morte catastrófica, até desaparecer entre eles. 

Espero as pessoas saírem para me aproximar do túmulo do meu amigo recém–morto. Vejo seu retrato sorrindo e seu nome: “Augusto Jonas de Figueiredo Prado”. Meu Deus! É o filho do “Figueiredo Prado”, o dono da maior empreiteira do Brasil. Por que será que ele se matou? 

Penso sobre isso durante algum tempo em frente ao lugar que guarda seu caixão. Não consigo encontrar uma resposta, mas penso que qualquer resposta será insuficiente para dirimir a minha dúvida sobre o porquê uma pessoa resolve se matar. Até hoje não entendo o que motivou a morte da Caroline, não acredito que ela tenha se irritado com o novo casamento do papai com a Rebecca, não acredito que ela tivesse algum problema tão sério que não pudesse ser resolvido como uma pessoa adulta, mesmo sabendo que na época ela não era adulta. E mesmo sabendo que eu hoje, já sendo adulta, ainda não consigo resolver os meus problemas…

No trajeto até o túmulo da Vó Lia vejo uma coruja me observando atentamente, do alto de uma das árvores. Nunca tive medo de aves ou de qualquer animal, mas essa coruja me dá arrepios… ela parece me observar como se eu fosse uma presa, um rato pronto para ser abatido. Resolvo encará-la e percebo que seus enormes olhos amarelos são iguais aos da “Moça”, aqueles olhos amarelos, da mesma cor, observando-me com a mesma intensidade…

Sigo meu caminho até a cova da Vó Lia. Sento-me sobre seu túmulo e abro a garrafa de whisky. Começo a beber o líquido do pecado ao mesmo tempo em que fumo metade da cartela de cigarros. Penso sobre a minha vida, sobre o Jota e a Heidi. Peço ajuda a minha vó, minha amiga de tantas caminhadas, de tantas risadas e de tanta cumplicidade. Tento rever os pedaços da minha história que estão soltos na minha mente, mas não consigo conectá-los. Alguma parte está perdida e quando tento me aproximar dela só aparece a música da moça na minha mente… essas partituras que não existem em lugar algum, somente dentro de mim e que parecem estar em… looping! Meu Deus! O passado está e repetindo! Talvez, se eu conseguir acessá-lo, eu consiga entender o que aconteceu comigo e porque cheguei aqui desta forma, completamente “despedaçada”.

De repente, a coruja se aproxima de mim e pousa no túmulo da Vó Lia. Não fico com medo e não tenho reação alguma, apenas contemplo sua beleza e fecho meus olhos. Aos poucos, começo a ouvir mas partituras da moça e sou levada até sua história, de novo…


Próxima leitura -> Capítulo 38

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Trilha Sonora: Riders on The Storm – The Doors

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