Capítulo 36

Essa paz eu só encontrei ao lado do meu Jota… meu Jota sujo e vulgar, que me faz as mais absurdas propostas, que acaba com a minha autoestima e que ao mesmo tempo me entorpece de prazer. Ele é quem faz com que eu me sinta livre, mesmo estando tão presa aos seus comandos… 

27 de junho de 2011 – Segunda-feira

O final de semana passou devagar, como se o tempo parasse para me dizer o quanto meu Jota é importante para mim. Tentei falar com ele várias vezes pelo celular, mas ele o desligou e foi impossível descobrir onde ele se enfiou!

Vou até a sede da Trevon TV procurar por ele, e sua secretária me diz que ele ainda não chegou. Resolvo aguardar na antessala e espero por umas duas horas, apenas vasculhando o celular enquanto ele não chega. Para minha mais absoluta surpresa vejo uma foto do Jota no Facebook da Joana, a japonesa mãe da Rebeca. Ela está na lancha com o marido corno, a filha, o Jota e o Davi… Meu Deus! Então o Jota foi para Angra, na casa da Joana. E a ruiva satânica deve ter ido junto, já que ela e a Joana se tornaram melhores amigas nos últimos anos!

A raiva me consome e me faz enxergar tudo com menos brilho e menos vida. Sinto uma vontade incontrolável de apertar o pescoço dessa diaba com cabelos vermelhos até vê-la sufocar… ela viajou com o meu Jota para Angra dos Reis neste final de semana e, aos poucos, ela está conseguindo tudo o que quer, usando o filho e a enteada para se reaproximar do meu marido!

Resolvo ir embora da sede da empresa e no caminho tenho uma ideia maligna, mas perfeita para acabar com o meu sofrimento: vou acabar com a Mariana através das magias que estão no meu livro de família! Se eu não posso competir com ela neste plano, vou para o subterrâneo, para o vale das sombras onde a manipuladora será eu!

Começo a fazer uma imersão no livro de descubro que as kinesis são técnicas psíquicas para causar o movimento de qualquer tipo de coisa, inclusive a água, o fogo ou o trovão. Sigo buscando até encontrar a magia que eu preciso… 

Lunarkinesis! Essa é a magia que vou usar com a Mariana; vou arrastá-la até o abismo da escuridão de onde sua alma jamais sairá. É o inferno que vou retratar com os portões feitos por Rodin, em um empréstimo da minha escultura preferida: “A Porta do Inferno”. Vou abrir essa porta e levar a minha maior inimiga, aquela que me roubou tudo que eu tinha de mais precioso: o meu Jota…

Volto para meu apartamento e, com todas as velas acesas, leio atentamente o significado de cada magia até encontrar a magia que eu preciso nesta kinese da morte. Encontro uma que me parece bem mais amena que as outras, cuja descrição diz: “para afastar pessoa ingrata do seu amor”. É essa mesmo! 

Antes de começar o ritual, minha mãe me liga. Não existe hora pior para ela me procurar, mas é sempre assim: quando estou prestes a entrar em um precipício moral, físico ou psicológico ela chega. 

– O que foi mãe?

– Filha, queria saber se você está bem… queria conversar. O que você está fazendo agora?

– Por quê você está perguntando isso? – Sinto um frio na espinha, como se estivesse sendo observada pela pessoa mais religiosa de todas, minha mãe!

– Não sei… tive um sonho ruim com você e resolvi te ligar.

– Um sonho? Como foi?

– Você estava levando uma mulher até a beira de um penhasco e, no momento de empurrá-la você caía com ela desse penhasco!

– Ai… que horror! Mas não se preocupe, mãe. Se eu levar alguém até a beira de um penhasco eu não vou cair. Não mais… te prometo!

– Anna Lara… vamos parar de brincadeiras e falar sério. O que você está fazendo agora?

– Estou tentando relaxar um pouco, mas você não está me deixando!

– Você quer ir conosco a um culto? Acho que vai te fazer bem… Vamos?

– Mãe, para de ficar insistindo para que eu frequente o culto do Marco Aurélio… não é a minha religião. Não sou evangélica!

– Anna Lara, qual é a sua religião, então? É a mesma da sua tia Amélia? Aquela que toca tambores e mata animais? 

– A religião da tia Amélia é a Umbanda e eu não sou dessa religião também. Não sou de religião nenhuma, mãe. E para sua informação: na Umbanda não se matam animais! É na religião que a vovó frequentava que havia essas coisas….

– Não importa! Só acho que talvez por isso você seja tão infeliz, minha filha. Você não tem um rumo porque escolheu virar as costas para Jesus, o único salvador…

Desligo o telefone com a minha mãe irritada e ao mesmo tempo contemplativa… Me afastei de Jesus, dos Santos e Orixás… não tenho nenhuma prática religiosa e o meu único acesso ao mundo espiritual é um livro de magia passado por gerações e que agora será usado com um propósito macabro… 

Tenho que confessar meus pecados, purificar minha alma enquanto posso… preciso de ajuda, mas não sei onde procurar. Penso em todas as religiões a que fui submetida, mas nenhuma me deu o conforto que minha alma precisa… nenhuma alimentou meu espírito com a força necessária; nenhuma me deu a paz que tanto busco.

Essa paz eu só encontrei ao lado do meu Jota… meu Jota sujo e vulgar, que me faz as mais absurdas propostas, que acaba com a minha autoestima e que ao mesmo tempo me entorpece de prazer. Ele, que me faz sentir livre, mesmo estando tão presa aos seus comandos… 

Resolvo ler a descrição completa da magia e me arrepio quando percebo o que terei que buscar para fazer o feitiço:

– Um fio de cabelo da pessoa que será amaldiçoada;

– Um punhado de cal para limitar o espaço em que a energia ficará presa;

– Um vidro grande com tampa (nunca usado);

– Algum objeto pessoal dessa pessoa;

– Um sapo grande;

– Uma garrafa de bebida alcóolica (aqui dizia vinho ou similar).

O objeto pessoal deve ser colocado juntamente com o fio de cabelo e o nome completo dela dentro da boca de um sapo grande, ainda vivo, dentro do pote, que deve ser fechado e enterrado em uma cova de cemitério, com muita cachaça ao redor dele e a cal delimitando o espaço da magia. 

Sinto uma aflição enorme em fazer esse ritual, é como se eu tivesse em uma espécie de transe, sem controle, sem conseguir parar. O ódio me impulsiona a seguir nessa estrada amaldiçoada, da qual não tenho forças para sair…

Penso na Priscilla, a bruxa de cabelos brancos e percebo que ela é a única que pode me ajudar a fazer esse feitiço… resolvo ir à sua casa, mesmo sendo já tarde da noite, e peço permissão para falar a sós com ela, sem seu marido, o “cão-guia”, ao lado. 

Pergunto sobre a minha vida ao lado do Jota, e peço respostas que ela se recusa a me dar. Encontro mais indagações do que revelações, mas noto que ela está serena com o meu plano para destruir a diaba ruiva.

– Você vai passar pelo que precisar passar até encontrar as respostas que busca. Eu não posso interferir no seu livre-arbítrio, mas posso te alertar que esse caminho que você planeja seguir é muito duro. Na espiritualidade tudo o que fazemos volta para nós, de uma forma ou de outra, mas volta. Não duvide da justiça divina, Anna Lara…

– Que justiça é essa que me faz perder meu útero e ver meu homem se encantar por uma criança gerada em outro útero? Que me faz seguir os conselhos de uma mulher sem escrúpulos e depois me faz perder o amor da minha vida para ela? Não… não posso ficar sentada esperando essa tal de “justiça divina” enquanto vejo minha vida desmoronar. Não posso ficar presa a uma prece que nunca é atendida! Tenho que agir, e vim aqui pedir a sua ajuda.

– Ok, Anna Lara. E como eu posso te ajudar?

– Primeiro tem esse ritual que eu não consigo fazer… eu não consigo maltratar um animal… muito menos matá-lo. Eu queria que você fizesse isso para mim.

– Eu não coloco as minhas mãos na esfera da morte Anna Lara; não as sujo de sangue, jamais. É algo que só você poderá fazer. Carmas serão contraídos, uma história de dor e sofrimento será iniciada a partir de um ritual de sangue. Não posso prejudicar a minha evolução por conta do seu ódio, ou fetiche… 

– Mas eu quero fazer esse ritual! E se você não puder me ajudar, ok. Eu vou fazer sozinha! Só não sei como eu vou conseguir um sapo grande…

– Esse não é o problema, Anna Lara. Você pode “trocar” o animal por um pedaço de carne morta. Não será exatamente o rito exigido, mas um pouco de licença poética não fará mal… afinal, magia trata de pensamento, fé, energia. O ritual é só uma mera representação no plano material para poder direcionar essa energia que você estará movimentando. 

– Entendi… então eu compro um pedaço de carne e faço todo o ritual com ele, certo? Qualquer carne?

– A carne mais bonita, a mais vermelha e reluzente. Compre aquele pedaço que vai chamar a sua atenção no supermercado.

– Ok… então você não vai mesmo comigo?

– Não posso, Anna Lara. Não entro em cemitérios, não cultuo carne podre. Eu me comunico com os espíritos, os liberto dos carmas desse plano. 

Seu rosto resplandece todo o horror que seu pensamento elabora enquanto me observa atentamente sem dizer mais nenhuma palavra. Sinto um calor invadir meu corpo e, mais uma vez, sinto vergonha de mim. Entendo que minhas intenções são as piores e que meu pedido chega a ser constrangedor. Estou assassinando minha inimiga da forma mais cruel e mesquinha. A estou esfaqueando pelas costas, com a ajuda de entidades do mal… conseguirei superar a maldade que ela fez comigo revidando da pior forma: sendo covarde.

Fui embora com uma sensação estranha, por um lado me sentia envergonhada pelo que estava tramando, mas por outro, não conseguia deixar de me sentir poderosa, como uma Bruxa de verdade… como a cigana “Khaicerya”.

Próxima leitura -> Capítulo 37

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Trilha Sonora: Family Portrait – Pink

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NOTA: Teoricamente, todas as variedades de kineses são uma derivação da telecinese, que por sua vez é uma derivação da psicocinese, que compreende toda e qualquer habilidade paranormal.

Com o uso das kineses seria possível controlar qualquer tipo de energia. As treze kineses existentes, são: Aerokinesis, Biokinesis, Criokinesis, Chorokinesis, Electrokinesis, Geokinesis, Hidrokinesis, Luminokinese, Pyrokinese, Psicokinese, Lunarkinese, Atmokinese e Telecinese.

– 1. Aerokinesis:
Controle do ar, das brisas, do vento, dos redemoinhos, dos furacões e dos tornados;


– 2. Biokinesis:
O poder da cura e da vida. Os cinco sentidos apurados, a o corpo que não envelhece, as células que não morrem. A cura de todas as doenças. Mudar o comprimento do cabelo, a cor dos olhos, o tamanho… o DNA. Alterar a própria genética para fazer de si algo imortal;

– 3. Chorokinesis:
Controle da relatividade do tempo, podendo transformar os 5 minutos em 5 horas, e vice-versa;

– 4. Criokinesis:
A habilidade de controlar o gelo e as baixas temperaturas; 


– 5. Electrokinesis:
Controle da eletricidade e do magnetismo;


– 6. Geokinesis:
Controle da terra, das pedras e das rochas; 


– 7. Hidrokinesis:
Controle das águas, mares, rios, lagos; 


– 8. Luminokinese:
O controle da luz, e, consequentemente, da visão. Além de criar luz, teoricamente um Luminokinetico pode criar ilusões quase perfeitas, e até ficar invisível;

– 9. Pyrokinese:
O controle das chamas e das altas temperaturas.

– 10. Psicokinese:
Controle da mente. Psicokinese compreende todas as outras kinesis, além de outras habilidades como Telepatia, Psi Ball, Projeção Astral, Estado Vibracional, entre outras coisas;

– 11. Telecinese:
Controle da matéria em geral. Telekinese é causar o movimento de um corpo usando a mente.

– 12. Lunarkinesis:
Manipulação de sombras, a escuridão e energia negativa. É um dos mais mortais kinesis, se usado corretamente.

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