Capítulo 35

Observo as ondas do mar quebrarem fortes na areia fofa que as acomoda com compaixão e presteza. Penso nesse infinito negro que toca a superfície com toda a força que lhe urge e entendo ser mais importante o chão que se forma a partir deste toque extremo. Entendo que para onde quer que eu olhe só vou enxergar desespero e tristeza, porque sou feita disso: de tudo o que é vil e profano.

Voltando à Anna Lara – (Ainda na Festa do Agnaldo…)

De repente, vejo um carro se aproximar do edifício. É o carro do Jota! Ele estaciona de qualquer forma e entra rápido no prédio. Desço correndo as escadas para encontrá-lo e saber, finalmente, o que aconteceu com ele.

À medida em que me aproximo dele, sinto um perfume diferente. Tento disfarçar para não deixar que perceba meu incômodo e o beijo suavemente no rosto.

– Oi, minha linda!

– Oi, Jota! Onde você estava? Por quê demorou tanto?

– Eu… eu estava com a Rebeca. Ela não estava se sentindo muito bem e pediu para me ver…

– E você foi na casa da Joana (mãe da Rebeca)?

– Ah, para Anna Lara! O que importa onde eu estava? Vai me controlar agora?

– Jota, onde, exatamente, você estava? – Nesse momento a tia Amélia interrompe a nossa conversa e cumprimenta o Jota:

– Oi Jota! Tudo bem? Como você está? 

– Bem, Amélia. Obrigado. Cadê o Agnaldo? Trouxe uma garrafa de whisky pra ele…

– Ah, obrigada! Ele está ali, na sala de TV. Vai lá…

– Sim, vou lá… com licença.

Ele está mentindo! Agora tenho certeza! Nunca vi o Jota tão educado nem tão preocupado em cumprimentar o Agnaldo!

Passados alguns minutos que pareceram eternos, eu o chamo para fumar um cigarro na rua e novamente  insisto em saber onde ele estava e o que aconteceu.

– Jota, agora me fala. Onde você estava?

– Já te disse, Anna Lara! Estava com a minha filha!

– Onde?

– Na casa da Mariana! Porra!

– O quê? – Meu mundo desmorona mais um pouco em direção ao precipício em que minha alma insiste em seguir. – Jota… como você pôde???

– Anna Lara, eu fui ver minha filha, ok? Ela está sempre na casa da Mariana… o que eu podia fazer? Se você fosse uma madrasta mais carinhosa… se você se importasse mais com a Rebeca, talvez ela frequentasse mais a nossa casa. Mas a verdade é que … 

– Para! Para, Jota! Agora a culpa de você se encontrar com a Mariana, aliás, de você passar o dia inteiro com a Mariana é minha?

– Não, Anna Lara… olha, eu sei que não devia ter ido lá, mas…

– Jota, o que rolou entre vocês?

– Nada! Absolutamente nada! Eu juro!

Por que não acredito em uma palavra do que ele diz? O que há de errado conosco? Será que nos tornamos um casal tão comum que agora até crise de ciúmes eu tenho e ele, será que ele está me traindo com a ex? Existe coisa mais “clichê” do que isso? Meu Deus! E pensar que eu larguei a Heidi por… “isso”!!!

Aproximo-me dele e arranco a chave do Land Rover do seu bolso de trás da calça jeans. Entro no carro muito rápido e consigo trancá-lo antes que ele entre. Saio em disparada para o condomínio da ruiva satânica para confrontá-la com os fatos que tenho. 

Mariana mora em um pedaço do paraíso no final da Barra da Tijuca; é a casa do demônio escondida em meio à várias mansões. Lá chegando, o porteiro não permite a minha entrada. Peço para ser anunciada e espero o sinal para que eu entre. Para minha surpresa, o porteiro me diz que a bruxa não permitiu a minha entrada. Absurdo!

Em alguns minutos, vejo a Mariana caminhando na minha direção. Ela está com os cabelos ruivos amarrados no formato de um coque e veste um vestido simples, desses de ficar em casa, com um par de chinelos. 

– Anna Lara, o que você quer comigo? Quer conversar agora?

– Conversar com a minha ex-psicóloga? Nossa! Vai ser ótimo poder receber os conselhos profissionais da mulher que acabou com a minha vida!

– Eu não acabei com a sua vida, Anna Lara. Você acabou com ela quando permitiu que o seu ódio pela Rebeca fosse maior que o seu amor pelo Jota. Eu só estava aqui quando ele precisou… quando você o deixou para ir morar na Holanda, lembra?

– Sua hipócrita! Você estava espreitando o tempo todo, estava esperando o melhor momento para “dar o bote”! Sem contar a seção privada que você teve com o Jota, enquanto ele ainda era o marido da sua paciente, sua cretina! – Nesse momento sou tomada por um acesso de fúria e parto para cima dela com toda a minha raiva. Rolamos no chão e ensaiamos alguns socos e pontapés, mas o que prevalece nessa batalha ridícula são mesmo puxões de cabelo e arranhões dados para todos os lados.

Para a nossa humilhação, os seguranças nos afastam e nos recomendam calma, sob o risco de chamarem a polícia. Mariana se desespera e diz que vai entrar. Antes, porém, ela se vira e me diz:

– Acabou, Anna Lara. O empréstimo do meu filho acabou para você! A partir de agora, você vai sofrer o que merece! E vai apodrecer seca sem um filho do Jota. Você pode até ter o Jota, mas nunca vai ter um filho dele, como eu tenho, Anna Lara. Um filho do seu marido, do seu grande e irresistível amor… – Um sorriso maldoso sai da boca dessa ruiva maldita. Ela sabe que conseguiu me nocautear com essas palavras; e tudo que precisava era de uma oportunidade… como eu fui burra! Por que fui procurar a verdade através da boca da minha pior inimiga???

– Sua vagabunda! Sua puta! Pois saiba que nada adianta você ter um filho do meu marido porque ele te odeia! Te odeia!

– Será? – E mais um riso sarcástico emoldura o rosto diabólico da bruxa ruiva.

– Ele me ama, Mariana! E isso você nunca vai ter dele! – Minha boca começa a ficar trêmula com o embate verbal que estou prestes a perder.

– Amor? Anna Lara… coitada! Você não entendeu nada mesmo! Não é amor, nunca foi… é obsessão, Anna Lara! O que você e ele têm em comum é a obsessão de um pelo outro. Pura obsessão, nada mais. Ah, e para sua informação, psicopatias por obsessão são a minha especialidade…

Ela se vira e caminha com firmeza para a sua casa.

Fico desolada com o que escuto, muito mais do que com os fios de cabelo arrancados e o corte lateral da minha boca que começa a sangrar. O porteiro me ajuda a retornar para o carro e eu sigo em silêncio para casa. Quando estou em São Conrado, um bairro antes do meu, resolvo subir pela Estrada do Joá, para que eu possa ver o mar na parte final do meu trajeto. 

Observo as ondas do mar quebrarem fortes na areia fofa que as acomoda com compaixão e presteza. Penso nesse infinito negro que toca a superfície com toda a força que lhe urge e entendo ser mais importante o chão que se forma a partir deste toque extremo. Entendo que para onde quer que eu olhe só vou enxergar desespero e tristeza, porque sou feita disso: de tudo o que é vil e profano.

***

Chego em casa e percebo o olhar agoniado do Jota.

– O que foi, seu cretino?

– Eu que te pergunto. O que você acha que foi fazer na casa da Mariana? Por que provocá-la? Ela é a mãe do Davi, Anna Lara! Porque você quer tanto transformar nossa vida nesse inferno?

– Dane-se você, a Mariana, a Rebeca e até o Davi! Eu não aguento mais, Jota! Não aguento mais viver “isso”, seja lá o que isso for… 

– E com o que você se importa, então??

– Me importo com o nosso filho, o Miguel. Aquele que está enterrado em algum lugar muito frio e…

– Para! Para agora com esse discurso, Anna Lara! Você ultrapassou todo e qualquer limite. Sua obsessão por esse filho que você abortou já ultrapassou todos os parâmetros. Você não está bem há muito tempo e, sinceramente, voltar comigo reacendeu vários fantasmas que estavam adormecidos aí dentro…

– Jota… – Uma pontada machuca meu peito e a verdade das suas palavras entram profundamente na minha alma devastada.

– Anna Lara, minha “Larica”, escuta: eu te amo. Te amo demais… você é a mulher que eu escolhi para viver comigo pelo resto da vida, mas para isso funcionar, eu tenho que viver. Você não olha para mim, não me toca direito, não quer saber se estou feliz, se estou bem… meus filhos são dois fardos insuportáveis e tudo que se relaciona com o nosso passado é tido como um crime meu que não merece perdão. 

– Não Jota… não é assim! – Lágrimas escorrem pelo meu rosto e não consigo contestar as verdades absolutas que estou escutando.

– É verdade sim, Anna Lara. E a culpa não é minha, ou da Mariana, ou da Rebecca ou do Davi… a culpa é só sua. Sua e da sua visão torta de como o mundo deveria ser não e não foi. De tudo o que fizemos de errado, mas que não tem mais volta. Temos que voltar, Anna Lara. Temos que voltar a olhar para frente, senão jamais sairemos daqui.  Estou indo embora e só volto quando você colocar a sua cabeça no lugar.

– Mas eu fui embora da vida da Heidi para ficar com você…

– Então, volta para ela, Anna Lara. Volta para a Heidi se você quiser. Faz o que você quiser! Mas, se você resolver ficar comigo tem que ser direito, sem mentiras, sem desconfianças. Temos que estar juntos e você vai ter que aceitar que o nosso filho foi embora e não vai voltar nunca mais. Ele nunca nem chegou direito para a nossa vida.

– Não fala isso! Ele chegou e está muito vivo na minha memória!

– Tá aí… viu? Ele só está vivo na sua memória. Na sua memória e na culpa que você carrega no seu peito. Ele é um peso morto, bem morto que você não quer largar. Mas eu já “larguei”, Anna Lara. E eu tenho uma vida pela frente, tenho duas crianças e uma mulher que eu amo, que gostaria que seguisse comigo. Mas se o seu desejo é ficar eternamente lamentando a morte do nosso filho, a opção é sua. Eu escolho outro caminho.

Ele se levanta e sai pela porta sem levar nada. Eu fio paralisada com o que escuto e não consigo ter reação alguma. Estou completamente em estado de choque com as palavras do Jota. Talvez ele esteja certo. Na verdade, ele está certo…

Tenho que arrumar uma forma de trazê-lo para perto de mim, de novo. Mas antes vou acabar com essa diaba ruiva que está travando o meu caminho!

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***

Trilha Sonora: Anjos – O Rappa

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