Capítulo 34

Estava tomado pela fome da luxúria, assim como seu pai. Em nada se parecia com o irmão assassinado, cuja morte cruel lhe serviu de prazer mórbido e vil. Eram as partes íntimas da sobrinha encantada que lhe interessavam. Era por sua beleza e pureza que vivia todos os dias até aquela noite fatídica. Era por ela, por Maria Eugênia, que ele esperava por toda uma vida e era atrás dela que ele iria até o dia da sua morte.

24 de junho de 2011 – Festa do Agnaldo

A festa do Agnaldo já vai terminar e não consigo falar com o Jota. Fico apreensiva sem saber o que se passou com ele! Ligo para o Rogério, um dos seguranças particulares do Jota e ele me diz que o Jota o dispensou à tarde. Minha tensão aumenta e resolvo ir até o jardim de inverno fumar um cigarro. Tia Amélia não gosta que fumem na sua casa e, por esta razão, tento esconder meu cigarro entre as folhas das plantas licuala e jibóia, as preferidas da Vó Lia…

Um arrepio circunda minha espinha e vejo-me presa dentro deste quadrado de vidro, com os cantos adornados com penas de coruja, sustentadas por fios de sisal presos no aramado do teto. Estranho o fato de nunca ter reparado nessas penas, tão visíveis e ao mesmo tempo tão emaranhadas nessa decoração bucólica e rústica.

Resolvo subir até a cobertura do prédio, onde fica situado o depósito e as caixas d’água. Como o prédio é antigo, a cobertura não é ocupada por nenhum apartamento, pois na época da sua construção não era tradição da cidade ter “apartamentos cobertura”; soube que no passado, o casal de gays que mora no terceiro andar tentou utilizar o espaço, mas foram ferozmente impedidos pela Vó Lia, que ainda era viva nesta época. Nunca entendi o porquê de tanta briga por um pedaço de laje descampado em meio a tantos prédios modernos e altos no coração de Ipanema, mas todos respeitaram o desejo da proprietária mais antiga do edifício, aquela por quem os vizinhos tinham respeito e medo.

Subo pelas escadas e empurro a velha porta de ferro que conserva o espaço de pombos, guimbas de cigarro, latas de cerveja e todo tipo de sujeira possível. Vou até o espaço reservado para o jardim de inverno da Vovó e olho para baixo para certificar-me de que ali é o local exato do seu antigo reduto. Ao olhar para baixo, vejo os braços da Caroline erguidos, como se me pedisse ajuda. Sou acometida de um grande susto e caio para trás, em cima de uma cadeira de praia velha. Tenho medo de olhar novamente para o buraco em que minha irmã morta me saúda com seu vestido da sua última festa de aniversário e resolvo ater-me aos fios de sisal, ainda bem reforçados do antigo arame, colocados para impedir que as aves mais prepotentes entrassem pelo espaço sagrado de vento e sol da minha matriarca.

Olho para a minha direita e vejo o depósito da Vó Lia, o seu santuário macabro, no qual fazia suas mandingas secretas, sem que o Vô Aurélio descobrisse. Vovô havia sido um monge do Colégio São Bento no Rio de Janeiro e abandonou sua vocação em nome de um grande amor pela mulher de cabelos amarelos e olhar doce. Ela era filha de um alfaiate português e de uma costureira que fizeram do seu ganha-pão, um império; destruído posteriormente pelo álcool e pela luxúria que acompanham há tempos as diversas gerações de mulheres da dinastia “Vasques de Bragança”. Seu Manoel da Silva era um alfaiate magro e calvo, que se utilizava de pequenos óculos arredondados para ver com clareza os pontos da sua costura e os “pespontos” das suas clientes. Dona Helena havia parido a menina de “cor dourada”, um pouco depois que havia se deitado com Giovanni Nargulo, um marinheiro italiano que estava no Rio de Janeiro de passagem, acompanhando a frota de oficiais recém-formados em viagem pelo mundo.

Assim nasceu “Idalia Vasques de Bragança”, minha Vó Lia. Seu Manoel nunca perdoou minha bisavó e obrigou-a a entregar sua menina loira para um abrigo que cuidava de menores abandonados, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Paz. Vó Lia cresceu em um ambiente católico, cercada de freiras por todos os lados. Nunca abriu mão dos dogmas que a consagraram uma mulher de bem, na sociedade carioca, porém, quando foi apresentada às partituras perdidas, guardadas pelas gerações de mulheres de sua casta genética, descobriu sua verdadeira vocação e se tornou uma guardiã dos segredos das antigas Ghawazee.

Quando já estava crescida, Idalia conheceu seu amor durante uma missa para os Monges Beneditinos, na Igreja que considerava sagrada, a “Igreja da Paz”, como costumava chamar. Frequentaram o altar que os havia consagrado por anos a fio, até o dia em que Vô Aurélio desistiu de lutar contra o câncer que o acometeu no seu órgão sexual. Imaginava que era essa sua penitência, aquela que deveria expurgar os demônios que o perseguiam por não cumprir seus votos de castidade e amor eterno à Congregação Beneditina do Brasil.

Vó Lia sobreviveu à dor da perda do meu Vô e ao fardo de conviver com a ausência de um filho morto no parto e duas filhas diametralmente opostas em amor e abdicação. Eram elas, a mamãe, filha do meio, complicada e egoísta desde o berço, e a tia Amélia, a filha caçula e dona do coração da mãe desamparada pela vida amarga que havia abraçado desde o conhecimento do carma nefasto da sua linha ancestral…

Fecho meus olhos e penso na “Moça” e em toda sua história. Como em um conto de mágica, caio em um sonho profundo e consigo entrar de novo na história dela, da minha protetora e bruxa do passado:

Maria Eugênia é expulsa de casa pelo mercador que chamava de pai. Ela caminha em passos lentos até a porta, tentando conter entre as pernas as gotas de sangue e sêmen que insistem em pingar no chão de madeira. Suas lágrimas não conseguem ultrapassar a barreira dos seus olhos, ainda em choque pelo que acabara de presenciar. 

Ela abre a maçaneta da porta dupla de madeira com vidro e caminha para o lado de fora da casa amaldiçoada. Está gelado do lado de fora, mas o corpo de Maria Eugênia está fervendo de ódio; ela não consegue sentir nada a não ser raiva. Sua mãe corre ao seu encontro e lhe agasalha com um casaco que tem nas mãos. Coloca dentro do casaco da menina estuprada o livro das magias ocultas, a olha como se pedisse segredo pelo presente inesperado e pede que aguarde. A mulher volta para a casa e busca um punhado de moedas que havia escondido em uma gaveta e um cavalinho de porcelana que havia ganhado do homem de capa preta quando engravidou de Hambal. Era o brinquedo preferido da sua menina, que morreu dando à luz à sua neta Maria Eugênia. 

O homem gordo surpreende Maria Antonieta e a proíbe de sair da casa ou da vida dele. Diz que ela é propriedade dele e lá deve permanecer. A mulher se levanta e diz:

– “Não me chamo Maria Antonieta, meu nome é Khairecya. Sou uma cigana Ghawasee e não nasci para viver presa. Eu fiz todos os feitiços que você me pediu, te dei a riqueza que você tanto queria… e você me paga desta forma!

Você assassinou meu filho, estuprou minha filha e minha neta. Você merece ter uma morte cruel… mas não vou te matar. Vou te entregar para os demônios que habitam o subterrâneo dessa casa. Vou te deixar apodrecer com eles, preso aqui pela eternidade. Esse vai ser o último feitiço que eu vou fazer para você: a prisão no limbo da sua vida miserável. Desejo que eles te paralisem, te machuquem e te prendam. Para sempre e na vida eterna do inferno. Salve!”

E assim Khaicerya abandonou a vida medíocre que tinha ao lado do homem mais rico da cidade de Valencia. Seu filho mais novo observou a mãe partir com a neta recém-estuprada, desejando ter sido ele a cometer tamanho atrocidade. Estava tomado pela fome da luxúria, assim como seu pai. Em nada se parecia com o irmão assassinado, cuja morte cruel lhe serviu de prazer mórbido e vil. Eram as partes íntimas da sobrinha encantada que lhe interessavam. Era por sua beleza e pureza que vivia todos os dias até aquela noite fatídica. Era por ela, por Maria Eugênia, que ele esperava por toda uma vida e era atrás dela que ele iria até o dia da sua morte.

***

Caminharam por cerca de uma hora até chegarem no barco de Dom Manuel, um português apaixonado por Khaicerya e que estaria disposto a ajuda-las a fugir da maldita cidade. Era um homem nobre, diferente dos homens de Valencia, talvez, porque não fosse mesmo originário de lá. 

Embarcaram com o dia amanhecendo, com o nevoeiro típico do cais do porto que ajudou a esconder as fugitivas, enquanto o barulho dos passos dos moradores irritados já se fazia ouvir a metros de distância. Viam a multidão se aproximar à medida em que o grande barco se afastava da costa. Perceberam que o assassinato de Pablo seria cobrado das duas mulheres, que já tinham fama de bruxas no povoado cristão.  Maria Eugênia sentiu medo, muito medo. Não podia se mexer de tanto pavor. Sua vida mudara em apenas uma noite e temia sofrer as consequências que esse ato de amor lhe traria…

A grande embarcação as deixou em Marselha, na França, de onde optaram por seguir por terra até onde o destino as levasse. O Português pediu uma única noite de sexo com sua amada, mas se contentou com um pequeno afago em seu órgão genital, entendendo, com todo o seu cavalheirismo que a mulher acabara de perder um filho de forma violenta e cruel. As ajudou sem pedir nada mais, e disse que iria voltar para a sua Terra Natal, bem longe dos espanhóis preconceituosos do litoral de Valencia…

As duas seguiram pela França pedindo esmolas pelo caminho frio e lamacento. Sentiram fome e desespero durante a caminhada que parecia não terminar nunca. Certa vez, se esconderam em um galpão de uma grande fazenda, onde dividiram o espaço com porcos e cabras. Era ali, no meio das palhas sujas de excrementos de animais que elas se alimentavam e se esquentavam. Foram miseráveis por quase um mês inteiro, comendo os restos dos porcos e compartilhando a água lamacenta que matava a sede de ambos, animais e humanas. 

Khaicerya percebeu que o constante enjoo da sua pequena Mareu era algo a mais do que simples entojo; Maria Eugênia estava grávida de seu filho falecido. Era a vida que se formaria a partir de uma tragédia, era a esperança que retornaria ao seio desta devastada família, era a misericórdia divina devolvendo o filho perdido.

Decidiram seguir o seu caminho para onde quer que a estrada as levasse. É certo que não podiam permanecer ali, entocadas como ratazanas sem rumo em um galpão de bichos e bestas. Se lavaram no córrego da fazenda e seguiram pela estrada de terra batida, carregando na bagagem o livro dos mortos e o peso pelo assassinato de Pablo, querido filho e amante, vítima de um homem cruel e nefasto.

Pararam em uma taberna para comer algo. Não tinham um vintém no bolso, mas precisavam se alimentar. Pediram um pedaço de pão e uma carne de porco, que veio em uma suculenta coxa, ainda com sangue que pingava de suas entranhas. Comeram com ânimo e deleite. Saciaram a fome que há tempos as acompanhava. Beberam uma grande caneca de cerveja gelada que tratou de matar a sede de ambas. Foram rainhas em um dia de temporal. Quando a chuva começou a cair, a música dos violinos de madeira velha começou a sair em lampejos de boa sorte. Foi quando Khaicerya se levantou e começou a dançar para o “Senhor da Noite” implorando que Ele lhe desse mais um pouco do néctar da vida, embalado ao som da morte em partituras que entoavam o hino do sexo sujo e depravado da sua origem cigana.

Em alguns segundos todos na taberna estavam atônitos, observando o balanço inebriante da cigana madura, que parecia estar incorporada por um espírito malévolo, que contaminara os olhos e a mente de todos os que a observavam plena e majestosa. Era uma dança de deuses incandescentes pairando na sombra de um palco sujo e pequeno; era uma brincadeira de criança que hipnotizava homens e mulheres franceses cujos anseios eram descobertos naquele momento. Era ela, a princesa do Egito fazendo sua profecia se tornar verdade sobre os pés rasteiros e o quadril generoso…

Em um entardecer frio de uma pequena cidade francesa, a dona do livro dos mortos empenhou sua magia para fazer da dança seu ganha-pão e conquistou a admiração dos clientes e a ganância do dono da taberna, que se apoderou do seu corpo e dos seus movimentos para ganhar mais clientes e tostões. O “Senhor da Noite”, o dono da Taberna, tentou se apossar da cigana, mas foi enganado por seu pobre coração, que havia sido roubado pelos olhos amarelos e o quadril malevolente, fazendo com que sua casa e tudo o que lhe pertencia, passasse para ela, sua deusa e sua devassa.

Não demorou para a barriga de Maria Eugênia crescer e aparentar a vida que carregava do seu amor, seu falecido Pablo. Era a única lembrança que restava dele, que habitava seu ventre e aumentava a sua fé na vida. Acariciava essa barriga e fazia planos para o menino que nasceria desse amor proibido. Tinha certeza que seria homem e seria parecido com Pablo, com cabelos cacheados e loiros. Receberia o nome de um anjo: “Miguel” e seria para sempre seu companheiro e amigo.

Quando estava perto de completar quatro meses de gestação Maria Eugênia teve uma visão, era a morte se aproximando novamente da casa delas. Correu para alertar sua avó, mas foi surpreendida pela presença de seu tio Lorenzo, agarrando a velha cigana pelo pescoço. Avistou o corpo do companheiro de cama de Khaicerya, o dono da taberna, que estava atirado ao chão com uma faca cravada em seu enorme abdômen, por onde se via o sangue jorrar e sua vida se esvair sem sentido.

Sentiu medo; mais ainda, sentiu pânico. Sua avó a olhou com pena da pequena menina, que não teria escapatória da vida de sofrimento a que se apresentava nesse momento. 

Disse o jovem rapaz que havia seguido os rastros das duas para fazer justiça pelo que fizeram com o velho dele. Khaicerya se assustou com tais palavras e questionou se ele não havia visto com seus próprios olhos o que acontecera naquela madrugada fria e aterrorizante. Ele disse ter visto sua mãe assassinar seu irmão em um ritual de feitiçaria e de ter saído fugida com a outra bruxa. A verdade não importava para ele, que se preocupava em ter de volta aquilo que julgava ser seu: a sua imaculada “Mareu”. 

Antes de dar o seu veredicto sobre o futuro da mãe e da sobrinha, o jovem rapaz contou que o velho mercador havia ficado imóvel em sua poltrona, falando coisas sem sentido, em uma espécie de demência nunca vista no vilarejo ou em parte alguma. Era o feitiço da Bruxa que o transformara em um animal, um feitiço que havia aprisionado o homem rico ao próprio corpo, sem que conseguisse sequer se levantar para fazer suas necessidades. Estava fadado a morrer por falta de higiene, em detrimento das feridas que já se acumulavam em seu traseiro.

A cigana velha pediu clemência para sua pequena, entendera que o ódio do seu filho era ciúme e raiva por ela tê-lo deixado para trás, mas Khaicerya sabia que o seu primogênito havia herdado o sangue ruim do mercador espanhol e que dela só havia habitado o ventre. Era um monstro que havia parido e não um ser de luz. Pedia bondade onde só havia ódio, chorava pela redenção dos pecados que não havia cometido, usava seus carinhos de mãe para amolecer o coração daquele que viria a ser seu carrasco.

O jovem loiro e traços finos exigiu que a velha feiticeira fizesse o aborto da criança que se formava no ventre de Maria Eugênia. Queria que a menina de olhos amarelos visse a vida se esvair, de um ser que jamais habitaria essa terra, do anjo que não nasceria para vislumbrar sua mãe e que retornaria para o lugar de onde nunca deveria ter saído. 

Seu plano diabólico incluía fazer de Mareu sua escrava sexual, para usar e para vender, o que melhor lhe conviesse a situação, em cada momento da sua vida maldita.

Fez a profecia da morte se concretizar e em um hino de partituras nebulosas viu o feto sair vivo da menina desgraçada por uma vida de carmas e rituais. Sua avó lhe entregou o cavalinho de porcelana, que havia sido de Hambal, a mãe da menina sofrida. Esse cavalinho a olhou por todo o momento, como se estivesse dizendo à Maria Eugênia que seu filho ainda viria a esse mundo, em melhores circunstâncias e em momento mais oportuno. Ela nada poderia fazer, já que era refém do próprio tio, que obrigara sua avó a tirar a vida de seu filho amado. 

E em menos de quinze minutos soube que seu Miguel estava morto. 

“Morto em seu ventre quando tinha somente quatro meses. Fora arrancado. A visão de seu lânguido corpinho jogado no chão acompanhava-a. Estava ali, indefeso, inócuo, morto. O feto, fruto de amor proibido, saído corrido de uma história infeliz para dar fim à vida de encantamentos de uma triste menina. Morto, ao lado do corpo de Miguel, estava o sonho de ser mãe, de ver o milagre da vida formar-se dentro dela. Nesse útero maldito só cresceria o ódio, o rancor, a mágoa.”

Próxima leitura -> Capítulo 35

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Trilha Sonora: I Still Haven’t Found What I’m Looking For – U2

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