Capítulo 33

Os demônios que podem nos fazer mal estão todos dentro de cada um de nós. Os outros são somente sombras que nos ajudam ou atrapalham. Mas o domínio e o comando são nossos. 

No dia seguinte…

Méli percebeu que eu precisava de uma ajuda externa, além do Dr. João, meu psiquiatra. Ela me propôs irmos a uma médium diferente de todas as que eu havia encontrado até então. Era indicação da Nicole, sua “namorada-baiana-macumbeira”, que agora parecia dominar completamente os pensamentos e a mente da minha melhor amiga. Mesmo a contragosto, concordei em buscar ajuda, afinal, qualquer ajuda era melhor do que continuar nesse caminho escuro que estava levando minha alma embora de mim…

Ela vai até a minha casa e de lá pegamos um táxi em direção ao apartamento da médium.

– Olá, boa tarde! Vamos para Rua Marquês de Abrantes 147, no Flamengo, por favor. – Diz Méli ao taxista sisudo. 

Percorremos o caminho em silêncio até chegarmos ao endereço de destino. O prédio é bem antigo, contrastando com uma farmácia moderna ao lado e outra quase em frente. 

Assim que saltamos do táxi vejo a Moça sentada em uma das duas cadeiras de ferro brancas que estão posicionadas à frente do prédio. Ela está com um sorriso largo e com o seu vestido vermelho, o que, pelas minhas experiências prévias, é um bom sinal. Passamos por ela e vejo seu rosto se inclinar levemente para acompanhar nossos movimentos. Tento disfarçar para que Méli não perceba. Subimos o elevador velho, com grades sanfonadas douradas e chegamos ao terceiro andar. Reparo que o número 301 está com a letra “A” escrita em vermelho ao lado. Apertamos a campainha e nos recebe uma mulher de pele bem branca com longos cabelos brancos, brancos demais para a idade dela, que aparenta ter uns quarenta e poucos anos…

Ela nos convida a entrar e, imediatamente passa ao meu lado um gato preto com enormes olhos amarelos. Ele mia e se arrepia inteiro, como se quisesse me saudar. A mulher me olha fascinada e comenta:

– Lúcifer gostou de você!

– Lúcifer?

– Não se assuste… Lúcifer não vai fazer mal nenhum a você, não mais do que você mesma já se fez. Ele não faz mal às pessoas, ele é muito mais um protetor e um mensageiro do que o mal em si. A propósito, sou Priscilla, muito prazer Anna Lara.

– Prazer, Priscilla. É… sobre o “Lúcifer”, por que colocou esse nome de demônio no seu gato? 

 E a mulher de cabelos brancos sorri:

– Os demônios que podem nos fazer mal estão todos dentro de cada um de nós. Os outros são somente sombras que nos ajudam ou atrapalham. Mas o domínio e o comando são nossos. 

– Ah… acho que entendi. – disse o que achei que seria mais educado, pois na verdade não havia entendido nada dessa explicação mística… olho para Méli com um ar de recriminação por ela ter me “arrastado” para esse encontro que nada tem a ver comigo ou com o que eu quero.

Ela diz que precisa entrar somente comigo para fazer o trabalho e Méli diz que irá me aguardar. O marido da Priscila chega descalço na sala vestindo um par de calças de moletom cinza e uma camisa branca. Ele nos cumprimenta rapidamente e diz para a mulher de cabelos brancos que irá “se preparar”.  

Entramos em um quarto pequeno com um triângulo dourado enorme preso ao teto. No canto do quarto está um outro gato, desta vez um cinza bem peludo e godo, com enormes olhos azuis. Ele não se incomoda com a minha presença e permanece imóvel. Pergunto qual o nome dele e ela me diz: “Zeus”. Acho bem apropriado, considerando que esse é mais calmo e sereno.

Ela me pede que eu me sente em uma cadeira de madeira posicionada em uma das extremidades do triângulo, e se senta na outra extremidade, que está paralela à parede;  a outra cadeira fica vaga. À espera do marido dela, que entra em seguida, com um cachimbo acesso em uma das mãos.

– Anna Lara, vou te explicar um pouco do nosso trabalho aqui, está bem?

– Sim, claro…

– Nós trabalhos com a energia do oitavo chacra, um chacra superior que está localizado acima da sua cabeça. Esse chacra canaliza todas as vidas presentes e passadas, suas e de todas as entidades que te acompanham. Vamos acessá-lo para poder trabalhar nos seus carmas passados e, com isso, ajuda-la a se livrar de algum “peso” que a esteja incomodando.  Você está conseguindo acompanhar o raciocínio até aqui?

– É, mais ou menos – digo um pouco encabulada por meu pobre conhecimento.

– Não tem problema, é complexo mesmo… 

Começamos a seção e me impressiona o quanto essa mulher sabe sobre mim! Coisas que nem a Méli sabe… logo no início ela fala sobre uma mulher cigana que está sempre ao meu lado. Ela diz que é uma protetora muito poderosa, que me ajuda muito. 

Eu pergunto porque ela não consegue me entregar meu Jota e a resposta me deixa constrangida pela forma obvia que ela me contesta:

– Porque o Jota não é dela para que ela possa te “dar”. E além disso ele, assim como você, tem o livre arbítrio de estar onde e com quem quiserem. Ela te ajuda, mas muitas vezes você opta por não escutá-la, assim como quando você fez o aborto.

– Verdade… – Uma dor profunda me consome e meus olhos ficam cheios de lágrimas nesse momento. 

– Você tem dificuldades em lidar com essa dor, não é mesmo?

– Eu fiz muito mal para um ser inocente… e hoje eu vejo isso. Ela tentou me alertar, tentou me impedir, mas eu não quis escutá-la. 

– Anna Lara, você fez mal a você mesma. Essa sua culpa está acabando com você e estamos aqui para te ajudar a liberar um pouco dessa energia que está estagnada no seu peito… 

Lágrimas urgentes começam a escorrer pelo meu rosto e caio em um pranto sem fim. Não consigo mais esconder a dor que carrego no peito com tanto pesar; sinto tanta, mas tanta pena do meu filho, me odeio por ter optado pela morte do meu filho!

– E como você pretende tirar essa culpa de mim??? – Digo em um pranto sem fim…

– Revelando a você que esse bebê não resistiria à luz. 

– Como assim?

– Ele estava predestinado a vir ao mundo mais uma vez, uma última vez e, desta forma, a sua egrégora encerraria a história de dor e sofrimento passada por gerações.

– Então era por isso que a “Moça” não queria que eu abortasse?

– Ela tentou impedir que você levasse essa culpa e seguisse por este caminho de dor. Cada ato nosso gera consequências no plano astral, pois nada fica impune. Todos nós, seres humanos, temos o direito de fazer o que quisermos com nossos corpos, mas uma dívida é gerada a cada morte que provocamos, e isso não é possível evitar.

– Mas ter um filho deformado é um carma muito ruim! Por que eu tive que passar por isso?

– não tenho como te dar essa resposta, Anna Lara. Não sabemos o porque das coisas, mas posso te dizer que esse filho deveria ter nascido e ele, em seguida morreria. Você sofreria com a sua partida, mas talvez lhe seria permitido ter outros filhos, pois um portal se abre a cada vez em que uma mulher “apresenta a luz”.  Você é a “mensageira”.

– “Mensageira”?

– Sim, a mensageira de toda a verdade sobre o passado das Ghawazee e sua trajetória de poder através do sexo. Esse ser que você tirou era um obstáculo para a continuidade do seu povo e ele deveria ter vindo para terminar um ciclo de tentativas.

Impressiono-me com o conhecimento da mulher de cabelos brancos! Como ela sabe tudo isso? Como descobriu minha ligação com as ciganas Ghawazee??

– E agora? O que vai acontecer comigo??

– O que está feito, está feito. Não podemos movimentar a roda do tempo nesta dimensão. Mas podemos recriar uma história. 

– E como eu vou “recriar uma história”se eu acabei com a vida dele?

– Você vai aceitar seu destino e trilhar um novo caminho, sem mágoas, sem rancor e sem vinganças. Um caminho de luz. Você, Anna Lara, é luz e trevas ao mesmo tempo; deve encontrar dentro de si um equilíbrio.

Uma pequena pausa faz com que a mulher feche seus olhos e se mantenha calada por um tempo. Após alguns segundos, ela abre seus olhos e me diz que tem um recado da Moça para mim:

– “Não manche mais de sangue a sua estrada. Caminhe com compaixão e perdão que você encontrará a luz. Não se deixe levar pela tentação do poder ou da magia. O preço a pagar será muito alto…”

Imagino que este recado é direcionado à minha raiva pela Mariana, o demônio ruivo que destruiu a minha vida. Agradeço o conselho, mas prefiro seguir com meu ódio à tiracolo, enfeitando meu rosto carregado de mágoa e meu corpo cheio de cicatrizes…

Próxima leitura -> Capítulo 34

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Trilha Sonora: Even Flow – Pearl Jam

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