Capítulo 32

A verdade é que eu mesma já estava plenamente satisfeita. A porção vagabunda que habita dentro da minha alma estava rindo sorrateira da forma como eu havia sido tratada e não existia outra forma mais vil e suja que pudesse me comover e verter meu desejo em lágrimas de prazer. Sou eu, um objeto puto desprovido de adoração e amor-próprio que implora pelo desdém do outro, que precisa apanhar moralmente para manter-se viva, mais viva e mais satisfeita do que quando era adornada pela mulher que me elevou à categoria de esposa sagrada.

Acordo gritando de um sonho muito real. Olho o relógio e já são 17:37 h! Nossa! Como eu consegui dormir tanto? Nem almocei… vou até a cozinha preparar um sanduíche e penso em tudo que sonhei. Vivenciei a dor dessa mulher que tanto me ajuda. Vi a tradução deste livro maldito nas minhas mãos e, de alguma forma, entendo que somos ligadas a um mesmo carma familiar. Ela deve ser alguma avó minha distante… 

A cada mordida no queijo quente tenho mais certeza de que devo continuar na casa da tia Amélia. É aqui que meus ancestrais se conectam comigo, que eu me encontro de uma forma mais plena… ligo para o Jota e aviso que vou dormir aqui e, para minha surpresa ele não se importa. Acho estranho mas permaneço firme no propósito de buscar mais informações sobre meu passado, sobre minha história.

Volto para o quarto e abro o armário de madeira de lei com detalhes da mesma madeira no seu entorno, emoldurando cada porta como se fossem uma pintura. Algumas caixas se amontoam no vão empoeirado do armário que cheira a mofo. Logo vejo a minha caixinha de músicas, com a minha bailarina vermelha dentro. A caixinha ainda toca música embora a bailarina já não dance mais. Ela está com o rosto riscado de caneta, fruto de um surto meu, da época em que comecei a ver a “Moça” nas minhas aulas de balé. O engraçado é que seu cabelo, originalmente loiro havia sido pintado de preto por mim, um pouco antes de encobrir seu rosto para sempre. 

Sigo vasculhando as “bugingangas” que a tia Amélia guardou no armário e encontro mais motivos para reviver meu passado sombrio. Um envelope com a letra da vovó esconde algo que é meu. Está escrito: “Pertence à Anna Lara”. Eu sei o que é, mas prefiro não abrir para ver. É um pedacinho de pano que guardava embaixo da minha cama e que o buscava todas as vezes em que ia dormir. Certa vez, vovó me viu com o paninho e me disse que o guardaria para mim. Eu chorei muito, até entender que o que ela dizia era verdade, que eu podia confiar nela e que ninguém, absolutamente ninguém jamais saberia da existência dele. 

– Anna Lara, está tudo bem? – Sou surpreendida pela voz da tia Amélia, que entra no quarto sem avisar. Ela olha o envelope de papel pardo fechado com uma fita durex grossa, desvia o olhar e diz:

– Você sabe que a sua avó guardou esse envelope até o último dia de vida dela?

– Não sabia… 

– Pois é… e ela me fez prometer que eu o guardaria para te entregar um dia. Ela não me deixou abrir e, como você pode ver, está intacto. 

– Obrigada tia… 

– Você sabe o que é?

– Sim, eu sei. – Digo já meio ressabiada que ela me peça para explicar sobre o conteúdo que guardara há tempos.

– Pois bem… eu também preciso te passar as instruções que a sua avó deixou: ela pediu que você queimasse isso, seja lá o que for, quando você o recebesse de volta. Ela disse que deve ser queimado por você em um ritual…

– Como assim? Vovó queria que eu acendesse velas e fizesse um “enterro” simbólico para… isso? – falo escondendo o envelope atrás de mim; de repente me sinto com oito anos de idade de novo…

– Sim, Anna Lara. É bem por aí… bom, eu vou voltar a organizar as coisas para a festa do Agnaldo. E você? Vai, afinal, me ajudar? Faltam quatro dias e ainda não consegui escolher o cardápio e nem as músicas que vamos colocar! – Pergunta minha tia em um tom sarcástico, já que até agora eu não fiz nada além de dormir e vasculhar me passado nesses armários e caixas de madeira velha.

Dois Dias Depois…

Almoço uma salada no restaurante localizado quase em frente ao prédio e caminho um pouco na praia. O dia está do jeito que eu amo: céu cheio de nuvens e um frio intenso, assim como a minha alma, confusa e gelada.

Uma saudade da Heidi invade meu coração. Sinto como se a traição que fiz fosse uma facada em mim mesma… sinto sua dor à distância e não posso fazer nada; não posso voltar e consolá-la. Não posso dizer que sinto saudades e que sinto… amor! Um amor sincero e um sentimento de que jamais deveria tê-la machucado.

Vejo um ambulante vendendo cangas em frente ao quiosque em que estou sentada e uma canga em especial chama a minha atenção. Ela tem uma estampa enorme de coruja e arabescos por toda a sua extensão. Não sei o que está acontecendo comigo, mas de uns tempos para cá tudo que está relacionado à coruja me chama a atenção…

Resolvo comprar a canga e a coloco sobre meu corpo, como uma manta protetora. Sento-me no calçadão da praia e penso em todo o caminho que percorri até chegar aqui. De repente me lembro que eu tinha uma consulta com o Dr. João, mas a consulta já começou há pelo menos 20 minutos e será impossível chegar lá a tempo de ter alguma conversa que não seja interrompida pelo sinal estridente do alarme que indica o término da consulta. Mal comecei o tratamento e já falto na quarta seção! E eu gostei tanto desse médico… que pena!

Percebo que já é hora de voltar para casa, afinal, estou há três dias longe do Jota…

Ao chegar em casa, surpreendo-me com a Joana e sua filha japonesa sem graça e sem baço. Um riso frouxo sai sem querer da minha boca e não consigo controlar minha implicância natural com essa menina que eu simplesmente DETESTO. 

– Oi Joana e Rebeca! Como vocês estão?

– Oi Anna Lara, tudo bem? – Diz a japonesa gorda que se levanta do meu sofá para cumprimentar-me.

– Oi tia! – Fala a menina chata que eu detesto…

– Vocês sabem onde está meu marido? – Um tom amargo invade a grande sala com vista para a imensidão do mar de Ipanema.

– Ele está em uma ligação, Anna Lara. Foi para o quarto.

Dirijo-me ao nosso ninho de amor com uma pontada de angústia, não sei o que vou encontrar lá, mas sei que não vou gostar…

Lá chegando, percebo que nossa porta está fechada. Antes de abrí-la coloco meu ouvido esquerdo próximo à porta para tentar escutar um pouco da sua conversa. Lembro-me imediatamente da última vez em que fiquei à espreita em uma porta para observar o comportamento do Jota e penso que talvez essa não seja a melhor solução, mas não consigo evitar minha curiosidade e escuto um pouco da conversa privada do meu marido:

– “Não… não faz isso… não. Me dá! Me dá um pouco mais… sim, bem gostosa…”

Não resisto à raiva que sinto e tento entrar sem sucesso no nosso quarto, que está trancado. Forço a porta e escuto o Jota dizer: “Já vou Rebeca!”. 

– Jota! Sou eu! Abre essa porta agora!

Ele abre a porta com o rosto bem pálido e encara-me com certa vergonha pelo ato infantil que estava fazendo.

– Jota! Agora você anda se masturbando no telefone?? Quantos anos você tem? O que é isso?

– Anna Lara, era só uma brincadeira… nada demais! 

– Com quem você estava falando?

– E isso importa?

– Claro! Claro que importa! Eu quero saber, Jota! Agora!

Ele acabou me dizendo que a conversa era com uma tal de Michele que ele tinha transado dias antes, quando eu fui para a casa da Tia Amélia. Discutimos e ele chorou. Vi um filme que se repetia e pensei novamente no que eu estava fazendo com a minha vida, do quanto eu era fraca para permanecer nesta relação promíscua, imunda. Tive muito raiva dele e, mais ainda, ódio de mim por aceitar me rebaixar tanto, por aceitar ser corna, amante e puta do mesmo homem. 

Ele pediu que a Joana fosse embora com a Rebeca e voltou para o quarto para ficar comigo. Começou beijando meus pés e acariciando minha vagina da forma que eu amo. E quanto mais eu pensava nele como o cafajeste que é, quanto mais eu o imaginava desejando essa tal de Michele, mais eu ficava molhada de tesão… mais o queria. Ele então, me virou e ordenou que eu o chupasse, da mesma forma que a Michele havia feito, da forma que ele gostava e do jeitinho que ele queria. Gozei mil vezes antes que pudesse dizer que não queria, que não ia satisfazê-lo. 

A verdade é que eu mesma já estava plenamente satisfeita. A porção vagabunda que habita dentro da minha alma estava rindo sorrateira da forma como eu havia sido tratada e não existia outra forma mais vil e suja que pudesse me comover e verter meu desejo em lágrimas de prazer. Sou eu, um objeto puto desprovido de adoração e amor-próprio que implora pelo desdém do outro, que precisa apanhar moralmente para manter-se viva, mais viva e mais satisfeita do que quando era adornada pela mulher que me elevou à categoria de esposa sagrada.

Descobri neste dia o quanto preciso ser machucada para sentir-me bem comigo mesma, como se essa fosse a forma que eu reconhecesse para me conectar comigo mesma…

Próxima leitura -> Capítulo 33

***

Trilha Sonora: One – Mary J Blige & U2

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