Capítulo 31

Certa vez, em um banho de mar admirou o contorno sutil dos mamilos rosados de sua pequena “Mareu”, levemente disfarçados sob a camisola branca de renda francesa. Também buscava encontrar a escuridão que começava a se formar no meio das pernas da menina-moça, em um compasso de dor e satisfação. Queria ser ele o primeiro homem a deflorar tamanha beleza. Não tinha dignidade, menos ainda, caráter, para pensar que era o sangue do seu próprio sangue, a que estaria experimentando tão fabuloso néctar.

Uma semana depois…

Vou até a casa da Tia Amélia para ajudá-la a preparar a festa de aniversário do Agnaldo.  Lá chegando, vejo a caixa de madeira, ainda empoeirada, na mesinha de cabeceira ao lado da minha antiga cama. Uma vontade incontrolável de abri-la se mistura com um medo genuíno do que vou encontrar ali dentro. “A Caixa de Pandora”. Lembro das palavras da Tia Amélia:

“Essa caixa pode ser a sua redenção ou o seu fim. Tome cuidado com o que você vai fazer com as informações que encontrar aqui…”

Em um impulso resolvo abrir e descobrir logo esse mistério. A fechadura está um pouco emperrada e tenho dificuldades para conseguir encaixar a chave… mexo para um lado e para outro e todo o sistema parece estar danificado. Forço um pouco mais para a direita e, aí está! Consigo finalmente abrir a minha Pandora!

Dentro está uma tecla de piano bem parecida com a que ganhei do Rudolf no Teatro Municipal e um caderno velho, com uma capa dura de couro preta, já bem desgastada pelo tempo. As folhas estão muito amareladas e em algumas partes quase não é possível enxergar os escritos feitos a lápis em um português bem arcaico. Essa letra se parece com a letra da vó Lia, mas é um pouco mais arredondada… 

Na primeira página está escrita a frase: “Esta é uma livre tradução do livro de Moisés sobre as Kineses trazidas do Antigo Egito e guardado por mais de cinco séculos pelas Ghawazee do Mediterrâneo.”

Levanto meu olhar em direção à janela e vejo a Moça vestida com sua roupa de dançarinha do ventre, estendendo-me sua mão. Adormeço em um sono profundo e encontro-me com ela em uma sala de cinema antigo, com cadeiras vermelhas de veludo e grandes pilastras brancas contornando o espaço para a projeção. Estamos sozinhas neste cinema e ela aponta para a tela, que começa a passar um filme em preto e branco contando a sua história:

* História da Maria Scarlet * 

A história que envolve a nossa família começa com Khairecya, a mais nova filha de uma família de 7 dançarinas Ghawazee e apenas um filho homem, Yusef, que havia assumido o negócio da família após a morte do pai. 

Em uma apresentação na praça Tahrir, Khairecya é observada com atenção por um homem alto, com nariz proeminente e sobrancelhas volumosas. Enquanto ela dança descalça na terra batida da praça o homem se mantém imóvel com um olhar obstinado. 

Khairecya se parece com Maria Scarlet, porém seus traços são mais brutos e seus olhos são escuros como a pedra de ônix que carrega presa em seu pescoço, no formato de uma gargantilha.  Seus cabelos negros encostam no quadril e formam um desenho de várias ondas quando se unem ao movimento do balanço das suas cadeiras que se deslocam da sua fina cintura.

Todos estão hipnotizados pela beleza e desenvoltura da jovem cigana que balança seu corpo como se o mesmo fosse feito de molas especiais, como se fosse ela, uma boneca do Egito…

De repente, uma confusão na plateia assusta o público, que se dispersa rapidamente. Todos correm para algum lugar seguro e Khairecya se perde do seu irmão e irmãs dançarinas. Ela caminha sem destino pela conturbada praça até sentir os braços fortes de um homem envolvê-la e carregá-la para dentro de uma casa. O homem que a havia puxado era o estranho que a observava atentamente na plateia. Ele ordena que retire suas vestes, se vire e encoste no balcão de madeira da taberna lotada de homens viris e sedentos. Enquanto a estupra, o homem longilíneo e levemente corcunda admira a arquitetura perfeita de Khairecya, dos ombros até o final do quadril. As formas que cobiçava na rua agora estavam sob seu domínio. E chegado o momento triunfal, o do pleno gozo, ele para, respira e sai dela. 

Os homens que assistiam o espetáculo, inebriados de prazer, tentam consumar o ato, espirrando seus líquidos no corpo nu da dançarina. Mãos por todos os lados acariciam os mamilos descobertos como se dele fossem degustar o deleite da vida; enfiam seus dedos em sua boca e nas extremidades mais vergonhosas e exalam o cheiro do pecado profano juntamente com o odor do álcool que haviam consumido há pouco.

O homem levanta a pequena cigana e a coloca nua, curvada sobre seus ombros com os ossos ressaltados. Sai com ela em direção ao interior da Taberna, onde consegue fugir por uma porta lateral. Já em segurança, ele pede desculpas pelo vandalismo que cometera com seu corpo e explica que precisava fazer isso para que eles pudessem ficar conectados para toda a eternidade. 

Ele revelou ser um membro da Ordem dos Discípulos de São Cipriano, um famoso bruxo que, segundo relatos, teria descoberto várias formas de acessar a magia pura, além de ter aberto o canal de comunicação com o mundo dos mortos. Vários rituais maçônicos ligados à cultura da morte teriam sido criados com base nos ensinamentos de São Cipriano. Por esta razão, o homem de capa preta era perseguido pelos sultões do Império Otomano, que buscavam recuperar o Livro dos Mortos de São Cipriano, cujas partes haviam sido divididas entre facções de diferentes ordens de bruxos e maçons. 

A parte da história das magias que o homem guardava era o livro sobre as Kineses, importantes formas de movimentar a energia do próprio corpo, dos elementos à sua volta e até mesmo da vida e da morte. No capítulo destinado às “Kineses”, são reveladas todas as formas de acessar o inconsciente coletivo de todas as dimensões materiais, através de partituras de músicas. São 13 partituras contendo, cada uma, uma kinese específica. São elas, “As Partituras Escondidas de São Cipriano”.

A décima terceira partitura se refere à magia sexual, encontrada no portal que antecede o clímax; é quando a energia sexual encontra seu auge, seu extremo de desejo, capaz de liberar o estratagema da libido, fazendo com que meros mortais conheçam um quinto milionésimo do cosmos do universo.

***

O homem da capa preta nunca disse seu nome nem sua origem à sua amada Ghawazee; ele roubou sua liberdade e ela, seu coração. Seguiram juntos para a Turquia onde ele tinha alguns parentes próximos e ela prometeu guardar a parte do livro, cujo seu marido era o guardião, com todo o cuidado possível. Chegaram à Turquia os quatro: o homem de capa preta, sua cigana, o livro e sua filha, a pequena Hambal, cujo nome significa pureza. À essa altura Khairecya já sabia usar os poderes escondidos nas partituras do livro, mas não ousava fazê-lo sem a permissão do protetor do livro, aquele a quem tinha amor e medo. 

Atendendo aos anseios da casta católica ortodoxa que apoiava o Império Otomano, o pai de Hambal foi condenado no tribunal Otomano, acusado de conspiração com bruxos turcos. Foi decapitado e queimado na fogueira junto a seus primos e tios. Khairecya conseguiu fugir com sua filha e levou junto o livro sagrado. Passou fome e vendeu seu corpo várias vezes para conseguir alimentar sua Hambal e sobreviver ao inverno frio da Europa. 

Ao final de sua jornada aceitou vender sua filha a um mercador espanhol que passava por Veneza em direção à Espanha. Khairecya concordou em servir o bruto homem em todas as suas necessidades físicas até que Hambal “sangrasse”; no acordo também estava incluída a nova identidade das duas que passariam a ser espanholas, descendentes de uma família católica rica, destruída pela peste negra. Sua Hambal, na época com apenas 8 anos, passou a chamar-se “Inês”, cujo significado era também “casta”, e ela, passou a chamar-se “Maria Antonieta”.  

Seguiram sua estrada ao lado homem rude e vulgar, do qual amargaram cinco anos de sofrimento e devastação. Khairecya teve dois filhos com o mercador, até que sua Hambal se deitasse finalmente com ele. Foi estuprada na primeira noite de sexo e tomou verdadeiro horror de seu marido. Chorava demasiado nos braços de sua mãe, e fora obrigada a compartilhar sua cama e algumas noites pervertidas de sexo sujo e imoral com sua progenitora. Tinha que observar sua mãe e seu marido em cenas depravadas e imorais sem sequer dizer uma palavra. Em pouco tempo Hambal havia perdido o limite entre o que era certo e o que era errado e já não tinha pudor ou moral que lhe acompanhasse no pensamento ou no corpo. Vendia suas partes íntimas a quem pudesse oferecer um reles pedaço de pão duro ou um pouco de vinho para matar a sede de uma menina desiludida pela vida infeliz que a havia abraçado.

Quando o mercador descobriu sobre a prostituição intencional da jovem esposa deu-lhe uma surra na qual sacou-lhe a audição e a visão do lado direito do rosto. Hambal nunca mais falou uma palavra sequer e decidiu despedir-se da vida que não mais a seduzia. Esperou que nascesse sua filha para, então, entregá-la aos cuidados da sua mãe. E partiu deste mundo cruel com a certeza de que não havia sido feliz nem um segundo sequer. Em 13 de setembro de 1750, Hambal se matou com o punhal de madrepérolas que sua avó havia confeccionado muitos anos antes no Egito, após dar à luz uma menina: Maria Eugênia, que anos depois passou a chamar-se Maria Scarlet.

Os tios de Maria Eugênia logo se afeiçoaram à pequena menina de pele fina, cabelos negros e olhos amarelos. Em nada se pareciam com ela, já que haviam herdado completamente a aparência do pai mercenário. 

Sua avó fez as vezes de mãe e acabou por se casar anos depois da morte da filha com o pai de Maria Eugênia. A beleza da menina impressionava a pequena vila de pescadores e chamava a atenção a forma carinhosa com que os ditos irmãos se saudavam. Era um mar de profanidades as estripulias que saíam das bocas mais enrugadas da humilde sociedade…

Em um par de anos, à medida em que a menina de olhos amarelos crescia, seu pai alargava o cinto e a conta bancaria. Tornou-se o homem mais gordo e mais rico do Sul da Espanha. Diziam as más línguas que ele usava feitiço para atrair o dinheiro sagrado, e que depois de tanta fortuna, a reza intensa acabou por levar dele a saúde invejada, trazendo a desgraça para essa família de bruxos escondidos. 

Antes, porém, de abraçar a morte, o mercador pôde ver o corpo da filha se formando. Certa vez, em um banho de mar admirou o contorno sutil dos mamilos rosados de sua pequena “Mareu”, levemente disfarçados sob a camisola branca de renda francesa. Também buscava encontrar a escuridão que começava a se formar no meio das pernas da menina-moça, em um compasso de dor e satisfação. Queria ser ele o primeiro homem a deflorar tamanha beleza. Não tinha dignidade, menos ainda, caráter, para pensar que era o sangue do seu próprio sangue, a que estaria experimentando tão fabuloso néctar.

Era imoral, era insano. Mas era real em um mundo coberto pelos pecados da carne e da infâmia. Não demorou para escolher a noite em que seria rei em uma esbórnia cruel. Esperou que sua senhora velha entrasse em um sono profundo e se dirigiu até os aposentos da sua infante de cabelos cor de ébano. Tentou ser leve mesmo com todos os quilos que não o ajudavam. Escutou o ranger das tábuas de madeira de lei estalarem sob seus pesados pés; espreitou na calada da noite o pequeno vão da porta que se abria à medida em que que seu rosto se inclinava para ver o que seus olhos haveriam de contemplar com orgulho e avidez. Foi através da luz que entrava sorrateira pelo portal de vidro do corredor que presenciou um conjunto de pernas adornadas em uma única sintonia, sentiu o vento gelado que sussurrava melancólico em seus ouvidos quase surdos e viu o que jamais imaginaria que pudesse acontecer: seu filho mais novo fazendo amor com a sobrinha encantada, dita irmã na sociedade católica, a defloração do seu bem mais precioso; o seu néctar, sendo engolido por seu próprio descendente. Seu filho e agora seu inimigo. 

Não teve dúvidas, em um único golpe afundou o crânio do seu pequeno conta a ponta de ferro da cama de solteiro, derramando sangue no local sagrado de uma proeminente noite de núpcias proibida.

O corpo de Mareu ficou coberto de sangue, da virgindade perdida e do amor que havia acabado de perder. Sentiu o horror da morte no corpo que havia sido desenhado para o pecado. Esperou a clemência de seu velho quando percebeu seu olhar demoníaco; fechou os olhos e esperou a sua vez. Mas a morte em vida não a alcançou neste dia. Virou banquete de um animal sedento por vingança e coberto de raiva. Sua mãe não conseguiu lhe salvar das mãos violentas do seu próprio pai. Foi atirada à parede e segurada pelo seu filho mais velho, enquanto o patriarca acabava de fazer o ritual inacabado do seu defunto filho.

E foi assim que Maria Scarlet perdeu sua virgindade. Com seu tio e com seu pai. Foi assim que a menina doce de pele alva seguiu seu caminho rumo à prostituição. Cercada de sangue e morte, esperma e gozo, raiva e entojo.

Próxima leitura -> Capítulo 32

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Trilha Sonora: Million Years Ago – Scarlett Cherry and Jason Yang

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Nota: História das dançarinas Ghawazee:

Ghawazee, para os egípcios, significa ciganas. Assim eram chamadas as dançarinas de Dança do Ventre, no Egito Antigo, que se apresentavam nas ruas, também recebendo o nome de “As Dançarinas do Povo”. As Ghawazee realizam esta dança de uma maneira toda especial, com trajes bem folclóricos, pintura tribal nos rostos, turbantes e lenços amarrados à cabeça, e músicas tradicionais, com poucos e típicos instrumentos.

A tribo dos Ghawazee trajava-se de maneira diferente do restante do povo egípcio e foi considerada por muitos como tendo as mais belas mulheres no Egito.

Em cada grande aldeia do Egito, especialmente no Alto Egito, e nas cidades do Delta, eles viviam em assentamentos de tendas e barracas. Valorizavam bebês do sexo feminino e o fato de ter um filho era considerado uma desgraça econômica. Ghawazee mulheres, sem exceção, eram criadas para serem prostitutas e dançarinas. Antes de uma menina Ghawazee casar-se, seu pai iria vender seus favores a quem pagasse mais. Ela, então, normalmente se casava com um homem de sua própria tribo.

As tribos sempre viajavam de cidade em cidade, participando de feiras e indo para os campos da trupe. Mulheres Ghawazee dançavam nas ruas, geralmente passando o pandeiro depois de seus shows. Enquanto os homens da tribo tocavam instrumentos, as mulheres dançavam sozinhas ou com algumas outras garotas, acompanhando-se com “snujs”. Muitas vezes, o povo Ghawazee dançava para ocasiões festivas no harém, em casamentos e em nascimentos. Eles tinham o prestígio de serem os mais conhecidos dançarinos no Egito e estavam entre os cidadãos mais afortunados. Sua estrutura econômica permitiu as suas mulheres adquirir considerável riqueza, fama e bons casamentos. O Ghawazee rico vestia de seda e usava colares, tornozeleiras, pulseiras de ouro e moedas. Às vezes, eles usavam um adorno no nariz. Tanto homens como mulheres pintavam seus olhos com kohl e henna em suas mãos e pés, como era o costume da classe egípcia média e superior.

Historicamente, apesar de muitas Ghawazee serem famosas e muito solicitadas como artistas, sua raiz cigana era e continuou a ser, um motivo para deixá-las à margem da sociedade. Isto se deve aparentemente a duas razões: em muitas áreas do Oriente Médio, incluindo o Egito, o caráter moral das dançarinas e músicos que se apresentam publicamente para plateias mistas de homens e mulheres, é altamente suspeito; e, também, o fato de que muitas das dançarinas eram prostitutas, e, portanto, em diversas épocas a palavra Ghazeeya foi usada como sinônimo para a palavra “prostituta” no Egito. 

No século dezesseis, durante o reinado Otomano, as dançarinas eram categorizadas junto aos grêmios e grupos comerciais de cortesãs para propósitos de taxação de impostos.

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