Capítulo 30

Olho o relógio e percebo que já passam das 15 horas. Imagino meu Jota satisfeito com seu gozo puto da escapadinha de meio-dia do escritório… não entendo o que está acontecendo comigo! Tantas vezes compartilhamos os corpos de outras pessoas e nunca tive essa sensação de posse, mas agora é diferente. Desde que recomeçamos, eu tenho visto um Jota muito mais sério, muito mais “meu”. Acho que estou ficando “careta” também… 

Desde que ele voltou da viagem nos EUA ele está diferente, um pouco distante. Acabo imaginando que ele está tendo um caso com alguém da empresa, por estar trabalhando tanto…combinamos que nunca existiria traição na nossa vida porque sempre teríamos a aprovação para fazer o que quiséssemos na frente do outro, mas agora ele parece ter violado essa regra porque algo me diz que tem mais alguém na nossa relação…

Sinto um calor intenso na altura do meu ventre, uma pontada forte que me deixa desconfortável  e com vontade de vomitar. Lembro-me do meu aborto e penso no Miguel. Se eu não o tivesse tirado, se eu tivesse aceitado que ele viesse da forma que tinha que vir tudo seria muito diferente agora: eu provavelmente não sentiria esse vazio enorme que sinto, cada vez em que penso nele, em que penso no Jota e em que penso em mim mesma…

Compro um maço de cigarros em uma banca de jornal e sigo caminhando pela praia até o Arpoador. Lá chegando, vejo um grupo de pivetes malvestidos cheirando cola ao lado do muro do Parque Garota de Ipanema. Passo correndo por eles, antes que percebam minha bolsa preta da Gucci. Eles reparam nela e me olham atentamente. Um calafrio invade meu corpo e sinto que serei assaltada a qualquer momento!

– Ei, Moça! Você aí do cabelo amarelo… vem aqui comigo. – Uma mendiga com cabelos e olhos pretos se aproxima de mim e me puxa para dentro do parque. Ela olha para os pivetes com cara de brava e os expulsa dali somente com a sua expressão séria.

– Obrigada pela ajuda! Qual seu nome?

– Eu não tenho nome… sou uma ninguém, sem nome, sem cara, sem… nada! Me chama de “moça” se você quiser. 

– Entendi… o que eu posso fazer por você? Posso te dar um dinheiro?

– Se você quiser, pode. – E faz um gesto de bater de ombros, como se dissesse que não se importa, apesar de se importar, obviamente… – Ocê tem um cigarro? Eu preciso de um “pito”.

– Sim, tenho! Toma, pode ficar com esse maço inteiro.

Ela abre o maço com suas mãos sujas e unhas pretas e retira três cigarros. 

– Toma aqui, Moça. Um é pra mim, outro é “procê” fumar agora. Esse outro aqui é “procê” guardar.

– E quando eu devo fumar o outro?

– Quando “ocê” se sentir livre, Moça. Quando “ocê” puder voar, assim ó… – Ela abre os braços e faz movimentos giratórios, me convidando a entrar nessa espécie de dança. 

Acho graça da “Moça Mendiga” e resolvo fumar meu “pito”com ela. Não tenho nada para fazer agora e quero tentar esquecer que meu marido pode estar neste momento abraçando o corpo da minha maior inimiga nesta vida. Decido seguir rumo à Copacabana, sem rumo ou planos…

Passo pela banca de jornal da Rua Francisco Otaviano, que fica ao lado da saída do parque. Lembro-me da Bárbara, minha amiga trans de longa data que …mora logo ali em frente, no prédio  de número 86. Resolvo tocar o interfone, torcendo para que ela esteja em casa. Logo em seguida, ela atente meu chamado,  com sua voz rouca e cansada, mas sempre com essa suavidade aconchegante que lhe é peculiar. 

– Alô.

– Bárbara! Sou eu, a “Larica”. – Ela é a única que compartilha o meu apelido com o Jota, depois de tantas noites fumando baseados misturados com haxixe e skank.

– Larica! Meu Deus! O que você está fazendo aqui? Está com a gringa?

– Não, Bárbara… é uma longa história. Posso subir???

– Ah! Claro minha loura linda! Sobe!

Conversamos por cerca de três horas. Falamos sobre a Heidi, sobre o Jota, sobre sexo bom, sexo pervertido, sexo saudável… falamos basicamente sobre sexo e todas as implicações que ele traz. Descobri que a Bárbara não faz mais sexo há muito tempo; ela ficou com a herança do seu querido Bob, o inglês que era casado e que a sustentava para satisfazer seus mais obscenos desejos sexuais. Certa vez, ele a enforcou com tanta força que ela demorou para voltar e, quando voltou, ficou com o lado direito paralisado. Ele se sentiu tão culpado, que largou a esposa e ficou ao lado de Bárbara, cuidando da mulher que havia transformado em seu brinquedo favorito. Tempos depois, Bob morreu de Aids e deixou tudo que tinha para ela, minha amiga trans, que é uma pessoa amável, carinhosa e destruída por um amor que não soube controlar.

– Anna Lara, eu me afundei com o Bob em busca desse prazer desprezível que nos sufoca e nos leva à loucura. Eu me machuquei e me afundei nesse mar de podridão chamado “Copacabana City”. Deixei de ser puta da termas mais famosa do bairro para ser puta de um só homem, o amor da minha vida, o homem que me mostrou o paraíso e o inferno na Terra. E você, meu bem, está indo pelo mesmo caminho… 

– Mas eu amo o Jota, Bárbara!

– Ama mesmo, Anna Lara? Ama???

– Sim, amo! – falo essas palavras com a mesma certeza de um abutre que persegue a carniça para se alimentar, sem nem ao menos ter certeza de que é isso que acabará com a fome dele. Falo no automático o que deveria sentir, mas a verdade é que não sei o que sinto. Não sei mais o que eu quero ou o que me emociona. Não sei de mais nada que diz respeito à mim!

– Acho que você não o ama, Larica. Você tem “fome” dele, e isso, meu bem, é muito diferente de amar alguém. Você sente “fome” da sacanagem que ele te proporciona, dessa sacanagem que você acabou se viciando por alguma coisa que você tem, algo que veio com você de outras vidas ou… não sei, ou algo que pode ter acontecido com você.

– O que você está falando, Bárbara? Está doida?

– Meu amor, o que eu quero dizer é que você não parece amar esse homem, o que me parece é que você precisa dele pra se sentir “viva”. 

– E a sacanagem que eu faço, ou melhor, “fazia” com ele é o que me faz “viva”, Bárbara? – um riso solto sai sem pudor da minha boca. – Então eu sou mesmo muito ninfomaníaca, né?

– Não acho, meu anjo…. Acho que você é viciada na dor que ele provoca em você, Anna Lara. Você acabou se viciando em sofrer. Esse é seu vício minha linda. E é por isso que você não conseguiu ficar com a Heidi, porque o amor dela te sufocou.

Lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e percebo todas as verdades que saem da boca da minha mais doce amiga, aquela que sabe ser gentil, mesmo quando está me machucando com tanta sinceridade ácida e cruel…

– Bárbara… acho que já está tarde. Já passa das oito e tenho que voltar para casa…

– E você quer mesmo voltar para a sua casa, meu bem? Porque parece que você está querendo outra coisa…

– E o que seria?

– Um pouco de “alegria”, talvez… que tal?

A proposta do demônio saindo da boca de uma das minhas mais doces amigas… como resistir ao lado negro que sustenta minha alma? Como dizer não ao pecado que acompanha meus passos por todo o percurso dolorido que tenho percorrido? Aceito a proposta e fumamos um baseado de skank com haxixe e ficamos muito doidas, sem conseguirmos parar de rir da nossa própria miséria de amor e felicidade.

Escuto o celular tocar e vejo o rosto do Jota no visor. 

– Jotaaaaaaaa!!!!!

– Anna Lara, onde você está?

– Aqui, fodendo com o Pato Donald’s! – Faço referência ao boneco de pelúcia que Bárbara trouxe da Disney, na sua primeira viagem com o Bob. Era seu sonho conhecer o Mickey, mas se encantou com o Pato Donald’s pois o achou mais parecido consigo mesma: uma “pata” sem graça que estava sempre atrás do astro principal do seu show… 

Uma gargalhada acompanha meu estado livre e despretensioso de ser uma pessoa séria. Não consigo focar nas palavras do Jota, só o escuto gritando do outro lado da linha e penso o quanto meu marido virou um cara chato!

Desligo sem entender direito o que está havendo com ele ou comigo. Não consigo realmente me mexer agora… estou tão, tão cansada que meus músculos estão, simplesmente, paralisando em uma harmonia maravilhosamente lenta e anestesiante.

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Trilha Sonora: Ana Carolina – Uma Louca Tempestade

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