Capítulo 29

É certo que não gosto de falar do meu passado. Na verdade, não gosto de pensar nele… me traz dor e repúdio. Dor pelos fatos que eu não posso modificar e repúdio pela pessoa que eu era: fraca. 

E essa pessoa fraca construiu uma Anna Lara igualmente fraca, manipulada e instável.

Uma semana depois…

Acordamos com o barulho do despertador do Jota alertando-nos que o dia já havia começado há tempo suficiente para sairmos da cama que nos mantinha estáticos de um cansaço extremo. Enquanto Jota foi tomar um banho mantive-me um pouco mais no calor dos nossos lençóis, envolta nos pensamentos que insistiam em fluir para o pequeno Davi e seu sorriso de dois dentinhos. Lembrei-me de encomendar o carrinho de bebê especial para corrida com rodas grandes, para que o Jota possa retomar seus exercícios na companhia do filho pródigo. 

O celular toca insistentemente e resolvo atender para terminar com a aflição de quem quer que estivesse do outro lado da linha. 

– Alô.

–  O Jota está? – Pergunta uma conhecida voz feminina.

– Mariana, ele está tomando banho. O que você quer?

– Quero falar com ele. – Uma pontada de raiva me espeta a cintura. Sei que ela tem acesso a ele por causa do filho e porque agora eles têm uma história juntos, mas é comigo que ele está casado de novo, então reafirmo minha posição e volto a implicar:

– Você pode falar comigo, Mariana. Nós acabamos de transar e ele está ocupado se lavando. 

– Sim, Anna Lara. Entendo… você pode pedir para ele me retornar quando acabar de “se lavar” de você? Temos que nos encontrar em meia hora e ele não pode se atrasar. Obrigada e passar bem! – E ela desliga na minha cara. Que ódio eu tenho de pessoas que desligam o telefone na cara das outras! E que ódio também tenho de pessoas que mentem quando combinam de se encontrar com a ex-mulher!

– Jota?

– Oi minha linda! Quer entrar aqui?

– Você marcou alguma coisa com a Mariana?

– Puta que pariu! A creche do Davi! Esqueci que tinha marcado de ir com ela ver a creche…

– E porque você precisa ir ver uma “creche”? Qual o sentido de irem os dois? Ainda mais com um filho em que a mãe sempre decide tudo???

– Porque é meu filho e ela me pediu para ir, ok? 

– E você vai???

Ele respira, passa as mãos no cabelo molhado e me diz: “Anna Lara, por que você não busca um trabalho? Ou alguma ocupação para distrair a sua cabeça? ” Um calor insuportável invade meu corpo e respiro um pouco do ar tóxico que trouxe para minha vida, ao aceitar de volta um homem que já não era mais meu… ter que compartilhar o corpo do Jota sempre foi fácil para mim, que utilizava meus ciúmes para aumentar minhas taras e loucuras na cama; mas aceitar dividi-lo com um demônio que se aproveita do ventre sujo para roubar sua atenção é algo realmente impossível para mim. 

Caminho a passos largos em direção à sala e arremesso o primeiro objeto que vejo, apoiado na nossa cômoda marroquina, onde costumávamos transar por horas, em todas as vezes em que ele pedia por um sexo anal; o objeto é uma caixinha de porcelana que trouxemos da India na nossa viagem para o Taj Mahal. Ela era uma espécie de relíquia do nosso amor, mas neste momento não faz a menor diferença…  estranho o fato de toda hora arremessar algo, não costumava ser assim! Já é a segunda vez em menos de um mês que arremesso algo. Acho que estou um pouco estressada… 

Vou até a janela do nosso quarto e vejo ele sair de carro em alta velocidade. Acendo um cigarro e penso na Heidi, em como minha vida costumava ser mais tranquila ao lado dela… toco na minha coruja com suavidade, em um gesto voluntário, como se a perguntasse qual o próximo passo. Ela parece ter escutado minha angústia em forma de pedido e me de forças para ligar para a Heidi. Tomo coragem e começo a teclar os números do seu celular. A cada toque dos meus dedos sinto um frio passar pelo meu ventre, como se levasse pequenos soquinhos, cada vez que se aproxima o momento de ouvir sua voz suave de novo…

– Alô?

– Alô, Heidi?

– Oi Anna Lara… o que você quer?

– Quero falar com você… Tudo bem? – Minha voz começa a ficar trêmula e minha respiração oscila.

– Sim, tudo bem. O que você quer?

– Heidi, está tudo bem? O que houve?

– Sim, está tudo bem, Anna Lara. Por que não haveria de estar? 

– Você está brava com alguma coisa… posso sentir. Está com raiva de mim, Heidi?

– Anna Lara, a vida não gira em torno de você, apesar de você achar que sim! Não tenho raiva nenhuma, muito pelo contrário, tenho carinho, consideração por você. E “consideração” é algo difícil de encontrar em você, afinal, os seus dramas, a sua história pregressa, os seus amores, são mais importantes que qualquer coisa, não é?

– Não estou entendendo, Heidi…

– Ontem foi meu aniversário, Anna Lara. Meu aniversário de 40 anos! Eu fiz uma festa enorme na casa do meu avô, foram vários amigos nossos e eu achei que você poderia, pelo menos, ter me ligado… mas não. Acho que você estava muito ocupada vivendo a sua “Lua de Mel” com seu marido depravado. Francamente!

– Heidi… eu não sei nem o que te dizer! Nossa, mil desculpas…. Eu estou passando por uma fase…

– Chega! Chega, Anna Lara!! Eu não quero mais ouvir sobre os seus problemas. Por favor, cuide deles. Se quiser, procure ajuda de um psicólogo ou um psiquiatra. E quando estiver boa você me liga para conversarmos. Vou desligar agora. Fique bem. Adeus.

Realmente não consigo me encontrar… parece que a cada passo que dou eu escorrego e caio. Não consigo mais estabelecer relações duradouras e saudáveis, não consigo manter meus amigos perto de mim… não sei mais o que fazer. Estou sozinha, muito sozinha! 

***

Três dias depois…

Aceito o conselho do Ricardo e resolvo ir ao psiquiatra dele, o Dr. João Macedo. Chego adiantada e meus dedos incansáveis não param de se mexer. Obviamente estou muito, muito nervosa com esse encontro, afinal, a minha última experiência em um consultório psiquiátrico não deu muito certo… imagino se agora é ele quem vai me comer… um riso frouxo sai debochadamente da minha boca e não consigo me controlar até encarar o Dr. João de frente. Ele é um médico velho, baixo e calvo. Não consigo imaginar ninguém menos interessante que ele! 

Entro na sala escura com vários móveis de madeira e sento-me em uma das poltronas com estofado cafona de flores vermelhas e brancas em um tecido duro de gorgorão com fundo verde-musgo. O cheiro do consultório me remete ao apartamento da minha vó Lia, com muitos livros, muita madeira e muito mofo. Lembro-me de explorar a biblioteca da vovó sempre que ia passar as tardes lá… eu imaginava que aquele espaço era uma parte do castelo da bailarina, a parte boa, onde tudo podia acontecer. Lembro-me de ter medo de sair de lá e passar pelo quarto da mamãe, onde ela rezava por horas a fio, ajoelhada e devota…

Voltando à consulta, Dr. João me pede para começar falando o que eu quiser, mas sinceramente, não quero falar nada, então fico em silêncio por uns 5, 6 minutos. Ele continua impassível, inalterado. Estranho a paciência dele e começo a desafiá-lo para que me pergunte coisas. É uma atitude um tanto infantil, mas é o que consigo fazer no momento.

Começo mexendo meus dedos de forma voluptuosa até que o barulho se torne insuportável para ele. Para minha surpresa, ele começa a mexer os dedos no mesmo ritmo que eu, de modo a estabelecer uma conexão comigo. Em menos de cinco minutos eu estava falando sobre meus pratos preferidos e o que mais me “comove” em uma mesa. Falei sobre a importância dos ovos na minha vida, uma paixão de infância. Falei de como eu tinha dificuldades em comer carne depois do aborto que eu provoquei, dificuldades em ver a carne crua e vermelha, recém tirada de animais inocentes e servidas antes que estivessem putrefatas. A carne branca e rançosa das galinhas e outras aves também me deixava enojada e, até a carne de peixes já começava a me dar uma sensação de desgosto…

A hora passou tão rápido que eu fiquei com uma sensação de “quero mais’. Me senti realmente bem conversando com o Dr. João, que me aconselhou a manter a minha bombinha para os momentos mais aflitivos, e, aos poucos, começar a largar esse vício. Ele disse que minha falta de ar, muito provavelmente, era algo criado pela minha mente insegura e que, na medida em que avançássemos em direção ao meu passado, mais clara seria a noção das minhas doenças reais e imaginárias. 

É certo que não gosto de falar do meu passado. Na verdade, não gosto de pensar nele… me traz dor e repúdio. Dor pelos fatos que eu não posso modificar e repúdio pela pessoa que eu era: fraca. 

E essa pessoa fraca construiu uma Anna Lara igualmente fraca, manipulada e instável.

Próxima Leitura -> Capítulo 30

***

Trilha Sonora: Todo Meu Ouro

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