Capítulo 28

É ela quem tento afastar agora: a maldita culpa, que acaba comigo todos os dias em que tento respirar normalmente. Não consigo emergir à superfície porque o rosto dele está sempre à margem, esperando sua mãe voltar do inferno para lhe salvar…

No dia seguinte…

Acordo com o celular tocando. É a Méli querendo saber o que aconteceu comigo. Eu explico que estava cansada e resolvi ir para casa mais cedo. Ela me pergunta se está tudo bem comigo e diz que está preocupada… 

Papai me liga logo depois pedindo para me ver. Acho estranho porque ele nunca faz isso… concordo em ir ao encontro dele e almoçamos demoradamente. 

O restaurante é uma tradicional churrascaria no Catete, cuja carne é servida em pratos e não em espetos. Antes que eu pudesse avisar que não como mais carne, ele pede uma picanha para dois, uma porção de arroz e farofa. Prefiro então, omitir o meu novo gosto culinário para não desencadear mais uma discussão interminável. Digo que estou enjoada e sem fome, mas papai insiste que eu coma e acabo me entupindo de arroz e farofa.

– E aí, minha filha? E o Jota? Vocês voltaram? – Meu pai é um policial típico do serviço de rua, desses que convivem tanto com a violência mais extrema, que acabam perdendo o pudor com as palavras e a forma sutil de abordar a própria filha sobre a volta do seu relacionamento… 

– Voltamos, pai. Decidimos nos dar mais uma chance… 

– Tem certeza, filha? Você não estava feliz com a sua “companheira”? – Diz em tom de crítica pelo meu lado homossexual assumido.

– E você? Nunca mais viu a Rebeca? – pergunto em um tom de provocação sobre a segunda mulher do meu pai, o grande amor da sua vida, que ele acabou por afastar depois da morte da Caroline. 

– Anna Lara, eu terminei com ela faz uns… 15 anos! – e começamos os dois a rir como grandes amigos que se gostam de verdade. – Agora estou muito bem com a Solange, que me respeita e cuida de mim. É o que eu gostaria para você: um relacionamento baseado no amor e no respeito.

– É engraçado pensar que o grande amor da sua vida se chama “Rebeca”… exatamente o nome da menina que destruiu a minha vida… – E lágrimas escorrem pelo meu rosto sem que eu consiga evitar. Me sinto nua na frente do meu pai, completamente entregue em meu mais profundo sentimento, no desamor que me mata um pouco a cada dia.

– Minha filha, essa menina não a afastou do Jota. Foi o seu orgulho, a sua incapacidade em dividi-lo que a afastou dele. Não coloque a culpa nessa Rebeca…

– Não vou colocar a culpa na Rebeca! Sei que a culpa é do Jota, foi ele quem insistiu para tirar nosso filho! – sinto um soco no estômago ao falar isso… sei que não foi só ele quem quis o aborto, mas lembro-me bem da sua insistência.

– Anna Lara, acho que você está um pouco “equivocada”… o Jota não insistiu desta forma que você está falando.

– O quê? Agora você está defendendo o Jota? Não acredito, pai!

– Não gosto do seu marido e isso nunca foi segredo para ninguém! Mas não posso deixar você acusá-lo injustamente. 

– Injustamente??? Pai! Você está ouvindo suas palavras?

– Anna Lara, não sei o que te contaram ou o que você conseguiu processar dessa história toda, mas o seu filho não nasceria, minha filha. Ele tinha uma má formação genética… o Jota quis preservar você; ele nunca foi contra esse bebê. Eu sei que o julguei também, o soquei, inclusive… mas me arrependo disso. A Rebeca é obstetra, ela me explicou o que acontece quando um feto tem essa síndrome… é… não vou entrar nesse caso, mas a culpa não é do Jota ou sua. Não é culpa de ninguém, Anna Lara. 

Não consigo falar nada. Um silêncio sepulcral invade meu corpo e faz com que minha história seja revisitada, agora por um outro ângulo. Respiro intensamente, tentando buscar um pouco do ar que ainda resta no meu corpo destruído por uma culpa que, aparentemente não é minha. E pela primeira vez em muito tempo, senti esperança. Esperança de ser feliz de novo, ou de ser feliz, finalmente. Acho que eu não sei ao certo o que é ser feliz…

Combinamos de nos encontrarmos em outras oportunidades, em todas as vezes que sentíssemos saudades um do outro. Consegui abraçá-lo de verdade. Depois que eu tive meu surto psicótico, quando ainda era criança, não conseguia sentir o abraço dele, era como se eu criasse uma capa protetora para todas as formas de carinho sinceras vinda de um homem. O único homem que conseguiu tirar essa capa foi o meu Jota… através das suas poesias, em cada olhar, e em cada carinho em que eu me sentia mais “vestida” e menos nua…

Peço para que ele me deixe na esquina e vou andando pela praia. O dia está nublado e quente. Gotas de chuva caem sobre meus cabelos secos e desidratados. Ando em passos lentos em direção a lugar nenhum, faço minhas, as palavras da minha mãe: “somos todos pedaços de carne ambulantes, buscando por prazer em qualquer espaço que nos pareça reconfortante. Somos escravos de nossos vícios e no final da estrada, só temos a culpa como companheira de caminhada…”.

É ela quem tento afastar agora: a maldita culpa, que acaba comigo todos os dias em que tento respirar normalmente. Não consigo emergir à superfície porque o rosto dele está sempre à margem, esperando sua mãe voltar do inferno para lhe salvar…

Próxima leitura -> Capítulo 29

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Trilha Sonora: Angel (Sarah Mclachlan)

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