Capítulo 27

Vivo na escuridão da dor e sou sustentada pelo fogo do pecado, aquele fogo que arde em silêncio no inferno gelado das almas que se perderam no caminho de volta para casa. Vivo nesse frio em busca do meu filho, que deve estar sendo cuidado pela minha doce e querida irmã. Vivo aqui, nesse pedaço de terra chamado casa e nesse pedaço de tempo chamado “vida”…

Jota está em sua viagem a trabalho, em reuniões nos Estados Unidos. Parece que está acontecendo algo com a empresa e ele não quer me contar… ano passado a Trevon TV comprou os direitos autorais de um reality médico, que seria comandado pela Mariana, mas com o término do casamento dos dois, ele cancelou temporariamente o programa, até encontrar uma alternativa para o novo apresentador.

Sinto sua falta, mas gosto da ideia de ficar um pouco sozinha… Jota é como um vício de nicotina, os fumantes têm consciência do seu mal, mas a vontade de tragar aquele veneno é mais forte e mais urgente que qualquer razão.

Combinei de jantar com a Méli para conhecer sua nova namorada.  Ela é bailarina do Bolshoi e está aqui para se recuperar de um grave estiramento muscular. Fico louca para conhecê-la, afinal fiz muitas aulas de balé quando era criança e cheguei a pensar que um dia eu também pisaria no palco de um Bolshoi…

Chegamos ao restaurante e Nicole está nos esperando. Impressiono-me com a sua magreza e a distância que seu pescoço ocupa a partir do seu colo até atingir o rosto esticado e fino; as veias saltam dos braços como se dançassem fora do seu corpo e seus olhos são extremamente fundos, como se gritassem o cansaço rotineiro que a acompanha…

Méli se aproxima com a vontade típica de amantes que estão no início da relação, com aquele calor que invade a alma de quem sente e aquece os olhos de quem observa. A mulher alta não espera que Méli a apresente e se adianta ao cumprimento:

– Nicole Martins, muito prazer. – Pelo sotaque percebo que ela é nordestina, provavelmente de Salvador.

– Oi Nicole, tudo bem? Eu sou a Anna Lara. 

– Eu sei “minina”, você é a melhor amiga do meu “amô”. 

– Você é de Salvador, não é?

– Sim… o sotaque entrega, não é?

Nos sentamos e conversamos por quase duas horas. Eu realmente adorei a nova namorada da minha amiga. Durante a conversa ela nos contou tudo sobre seu trabalho, a preparação para cada espetáculo, os ensaios, a dieta quase impossível de seguir, os cuidados com os pés… realmente tem que ter muito amor pela arte para conseguir viver “nela”.

Soube que ela estava hospedada em um hotel e a convidei para ficar lá em casa, junto com a Méli, mas ela, com toda classe que lhe é peculiar, recusou educadamente o convite.

Dois dias depois…

Chegando ao Teatro Municipal sinto um frio na espinha, como se algo fosse acontecer… observo o contorno dourado dos acabamentos do teatro e encanto-me com o trabalho rebuscado que foi feito nesta construção. Se parece muito com alguns museus antigos de Amsterdã, que eu costumava frequentar com a Heidi.

Ao subir as escadarias vejo meu pai de costas, acompanhado de uma mulher baixinha e gordinha, com cabelos bem crespos na altura do ombro. Ele se vira instintivamente e fixa seus olhos em mim. Seu rosto de surpresa dá lugar ao sorriso de felicidade e, imediatamente, corre ao meu encontro.

– Anna Lara! Minha filha… que saudade de você! 

– Também, “pai”.

Não sei se é algum momento de carência emocional que estou passando ou se é mesmo saudade dele, mas pela primeira vez na vida me sinto feliz por estar em seus braços. Estou segura aqui dentro, de onde não quero sair…

Ficamos alguns minutos abraçados e algumas lágrimas começam a sair dos meus olhos cheios de rímel. Percebo que estou ficando toda borrada e parte da tinta preta escorre para a camisa listrada do meu pai. Afasto-me imediatamente e peço desculpas sinalizando o incidente. Ele faz uma cara de “tudo bem” e me apresenta a mulher que está com ele.

– Minha filha, quero te apresentar a Solange, minha esposa.

– Sua esposa? Como assim? Você casou?

– Sim, Ana Lara, eu me casei. E sou muito feliz ao lado da Solange. – Diz o velho careca com sua barba grisalha espessa, em um misto de satisfação e implicância.

– Muito prazer Anna Lara. Já ouvi falar muito de você. – A mulher gorda e gentil abre um sorriso largo, um gesto próprio de quem quer se aproximar da enteada “querida”. 

– Ah… muito prazer! É que eu não… não esperava que me pai estivesse “casado”. 

– Pois é Anna Lara, tem muitas coisas que você realmente não sabe a meu respeito…

– Bom, o importante é que finalmente nos conhecemos! E suas amigas lindas, quem são? – a mulher de rosto redondo e cabelos curtos interrompe as acusações veladas e tenta amenizar o clima entre nós.

– Essa é a Méli, minha amiga de longa data e essa é a Nicole, a namorada da Méli… – Nesse momento vejo o rosto conservador do meu pai se contorcer um pouco, ele sempre detestou homossexuais. Por esta razão preferi viver minha vida com Heidi distante dele, sem receber a sua desaprovação.

Entramos no teatro e nos sentamos em lugares distantes. Tenho tempo suficiente para pensar na minha relação com o meu pai e em seu “novo” casamento; não gostava muito da Rebecca, a ex-mulher dele, mas sinto um pouco de pena dela quando a imagino sozinha na sua casa da Urca, sem o amor da vida dela ao lado. As cenas da minha infância conturbada começam a passar em uma velocidade frenética na minha mente e eu consigo lembrar-me de alguns detalhes que já havia esquecido, como do dia em que papai foi me buscar com a Rebecca e o “tio” Marco Aurélio não me deixou ir… ele tinha acabado de se casar com a mamãe e gostava de dizer o que eu podia ou não fazer, e me obrigava a chamá-lo de “tio Marco”, principalmente na frente do meu pai. Esta cena me perturba o suficiente para me dar taquicardia, mas quando a apresentação começa, não consigo mais pensar em nada, apenas acompanho o movimento das esbeltas bailarinas deslizando no grande palco e iluminado. Seus pés parecem pedaços de finas palafitas apoiando-se no chão duro, seus corpos são leves e faceiros, e seus movimentos são delicados e com uma terminação perfeita. 

Em algum momento da peça vejo a moça entrar e dançar ao lado delas. Ela está vestida com a mesma roupa, mas a sua cor é vermelha, como se fosse a bailarina principal. Ela está… espetacular! É, sem dúvidas, a mais linda de todas! 

Quando todas as bailarinas se reúnem no centro do palco, formando um círculo redondo, a “Moça” fica no centro. Espero ansiosa sua saída do meio de todas. A música muda de tom e passa a incorporar em sua melodia a partitura da “Moça”.  Sinto um frio intenso na espinha, como se algo ruim fosse acontecer! Começo a ficar sem ar com a cena…

Em seguida as bailarinas se afastam e no meio está uma garotinha loira e pequena, que se parece com um anjo. Ela olha para todas as bailarinas e depois para a plateia, como se estivesse me procurando. Reconheço meus traços nela, com o rosto comprido e o nariz arrebitado. Imediatamente pergunto para a Méli se consegue ver a menina, tendo já quase confirmada a minha certeza de que ela não existe.

– Méli, você está vendo essa criança?

– Que criança, Anna Lara? Eu estou vendo a apresentação. Você está mexendo no celular?

Prefiro dizer que sim do que afirmar que estou vendo um fantasma. Mais um, na verdade. Já é o segundo espírito que eu vejo na minha vida… devo estar enlouquecendo!

A criança desaparece no meio das bailarinas e a “Moça” também sai de cena, como se nunca tivesse entrado. Peço desculpas para a Méli e sua namorada, e saio apressada do teatro. 

Ao passar pela porta do teatro Municipal, esbarro em um homem alto, que está de costas para a rua. Peço desculpas e quando reparo nele, vejo que é o Rudolf, meu querido amigo pianista de Amsterdã!!!

– Rudolf! Rudolf!

Ele se vira lentamente e retira seu chapéu preto, acessório cotidiano das suas vestimentas, para me saudar.

– Ora, ora… se não é a senhorita Anna Lara quem eu vejo por essas terras! – Ele se aproxima um pouco mais e me questiona novamente: – Ou será a senhorita Maria Scarlet quem eu estou vendo por aqui?- Acho graça do trocadilho e respondo:

– Não Rudolf é a “Senhora” Anna Lara quem você está vendo agora. Uma senhora recém-casada, de novo. – Prefiro deixar claro para ele que já não estou com a Heidi, a minha ex-mulher, aquela que eu nunca consegui apresentar para ele, nas sete semanas em que desvendamos parte da história da Maria Scarlet, no bordel da Rua 17…

– E esta senhora bonita está feliz com a vida de casada? Era isso que buscava nessas terras tropicais?

– É… não sei bem o que buscava ou o que eu busco, na verdade… 

– Então está na hora da “senhora” encontrar, seja lá o que for que busca, não acha?

Um riso frouxo sai da minha boca enquanto admiro a peculiaridade desse senhor pianista, rico e bem-sucedido, que se encontra comigo em plena quinta-feira de uma semana qualquer do mês de agosto.

– Rudolf, vamos beber alguma coisa?

– Minha cara Anna Lara, não posso ficar muito tempo por aqui… meu tempo nessa terra já está se esgotando. Mas preciso te entregar um presente, algo muito especial que eu guardei para você por muito tempo.

– O que é, Rudolf?

– É um amuleto, algo que vai te ajudar a encontrar o que você tanto busca, mesmo que “ainda não saiba o que é”. – Ele repete parte da minha fala, como se estivesse rindo do meu jeito inocente. Rudolf se parece mais com um professor, um mestre que veio de outra dimensão só para me mostrar o caminho… 

– Um amuleto???

– Sim, Anna Lara. Um “amuleto”. Esse aqui. Fique com ele por perto e um dia você saberá o que fazer com ele.

O amuleto é uma tecla de piano, uma tecla velha, desgastada e que deve ter uns cem anos! Não o questiono para não parecer mal-educada, mas acho um tanto ridículo ganhar esse “presente”… sei que o Rudolf não é muito “normal” e, portanto, deve ser mais uma de suas superstições. 

Ele se despede com um abraço gelado e se vira em direção à rua. Vejo a “Moça” seguindo-o e, por um instante, penso que ela deve querer se comunicar com ele para me passar alguma mensagem. Ou talvez eu esteja mesmo ficando louca…

Entro no primeiro táxi e sigo para minha casa um tanto perturbada com a visão da menina loira e agora, por ter encontrado meu amigo Rudolf, falando coisas tão estranhas…

Chegando em casa, coloco o amuleto na gaveta da cômoda chinesa e vou até a varanda fumar um cigarro, para contemplar a imensidão do mar, que insiste em engolir meus pensamentos. Sou eu, em uma versão tão assustada que se depara com um ser feito à sua imagem e semelhança, pronto para aterrorizar a minha vida e o meu futuro.

Não quero me lembrar de um passado de dor; não quero ver o que minha mente demorou anos para esquecer. Não me lembro bem do que aconteceu, mas sei que algo estava muito errado naquela casa, naquele ano de 88 quando meus pais se separaram… algo não se encaixa nas minhas lembranças quando penso em mim aos sete anos sendo internada naquela clínica em Laranjeiras, e quando penso na Caroline se suicidando aos quinze anos. Algo aconteceu e tenho medo de chegar ao ponto em que terei que abrir essa porta e me deparar com a realidade fria desse passado.

Abro mais lâminas de vidro da varanda, na esperança de que o ar gelado que sopra do mar limpe um pouco da dor que sinto na alma, enquanto gotas sinceras de tristeza continuam a sair dos meus olhos em direção ao vento que as detém e as congela…

Viro meu rosto para olhar a sala modernizada do nosso apartamento e percebo que ela se parece ainda mais com um mausoléu, com muitos objetos de arte espalhados por toda a extensão do papel de parede bege em alto relevo e pequenos cristais em sua superfície. Essa decoradora que o Jota contratou só tem mesmo “nome”, porque, na verdade, a achei bem cafona… tantas cores que puxam para o dourado em nada refletem minha alma negra e meu estado de espírito sombrio. Vivo na escuridão da dor e sou sustentada pelo fogo do pecado, aquele fogo que arde em silêncio no inferno gelado das almas que se perderam no caminho de volta para casa. Vivo nesse frio em busca do meu filho, que deve estar sendo cuidado pela minha doce e querida irmã. Vivo aqui, nesse pedaço de terra chamado casa e nesse pedaço de tempo chamado “vida”…

Próxima leitura -> Capítulo 28

Trilha Sonora: O Lago dos Cisnes – Tchaikowski

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s