Capítulo 26

* AVISO: ESTE CAPÍTULO CONTÉM CENAS FORTES DE VIOLÊNCIA CONTRA MENOR -> EXISTE UMA LEMBRANÇA DA PROTAGONISTA NA QUAL ELA FOI ABUSADA QUANDO TINHA 8 ANOS. ESTA LEITURA PODE PERTURBAR QUEM JÁ TENHA SIDO VÍTIMA DE ABUSOS SEXUAIS, PRINCIPALMENTE NA INFÂNCIA. O CONTEXTO É NECESSÁRIO PARA O EMBASAMENTO DA TRAMA E SUAS RAMIFICAÇÕES POSTERIORES NA VIDA DA PROTAGONISTA.

Estou voando neles, pronta para agarrar o vento que insiste em machucar minhas bochechas rosadas, que brinca comigo em uma luta desleal, fazendo-me tremer de frio em um calor de outono carioca. Estou ali, entretida com meu vestido de margaridas amarelas, com meus cachinhos dourados balançando no ar, quando vejo um homem grande se aproximar da Caroline. Nesse momento caio do balanço e ganho minha enorme cicatriz no antebraço, fruto do encontro da minha carne com uma garrafa de cerveja que havia sido deixada por algum grupo de adolescentes rebeldes, que se reuniam à noite na pracinha, para fumar maconha e beber cerveja. Essa foi a primeira de tantas cicatrizes que trago comigo…

Acordo às duas da manhã da manhã com o Jota me chamando:

– Anna Lara! Porra! Enlouqueceu de vez? O que aconteceu com você?

– Jota…

– Eu fiquei super preocupado! Como você some assim? Achei que tinha sido sequestrada!

– Calma Jota, eu sei que você está nervoso, mas se acalme… – tento conter sua raiva enquanto me levanto ainda zonza de sono.

– Anna Lara, eu quase fui na polícia! 

– E por que não ligou no meu celular?

– Porque estava desligado, Anna Lara! Foi sorte ter ligado para a sua tia, porque eu já estava indo… – interrompo seu discurso nervoso com um beijo melado e apaixonado. Havia me esquecido como o Jota pode ser paternal quando fica preocupado! Amo esse lado dele!

– Meu lindo, vamos para nossa casa. Eu acabei dormindo aqui, apaguei. Desculpe! Você devia mesmo estar preocupado…

– Tudo bem, Larica! Vamos embora. 

Despedimo-nos da tia Amélia e entramos na Porche Cayenne em direção ao nosso apartamento do Leblon. No caminho pergunto como foi o dia dele, se o Davi está bem. Ele me conta que sim, que mergulhou com o Davi pela primeira vez no mar e que ele amou. Começo a sentir um ciúme incontrolável por pensar que ele acabou passando o dia na praia com a Mariana. Um ódio começa a consumir meu corpo e a me fazer tremer, como uma droga incontrolável.

– Então quer dizer que você aproveitou o dia ao lado da sua família?

– Para com isso, Larica… minha família é você! E eu te chamei para ir à praia também, você quem não quis.

– Ah, ok. Então está tudo explicado: na falta da sua mulher, você fica com a ex!

Ele começa a rir e tenta agarrar minha mão, em uma tentativa de descontrair o clima, que  já estava demasiado pesado.

– Jota, sei que ela é a mãe do seu filho, mas se você puder evitar tantos contatos com ela acho que vai ser melhor para todo mundo. Tenho muita mágoa por tudo que passei e não acho uma boa, realmente, você agir como se fôssemos uma “grande família”!!!

– Ok, Larica! Temos um acordo! Prometo que não vou mais sair com a Mariana sozinho e também não vou mais na casa dela. Está bom assim?

– Você foi na casa dela???

– Fui almoçar com o Davi… desculpe!

Empalideço de pânico. Não consigo acreditar que ele foi até a casa dela! Ele… ele passou o dia inteiro com essa vaca! E agora me diz isso, como se não tivesse nenhum problema! Não aguento a pressão e ordeno que ele pare o carro imediatamente. Uma ânsia de vômito domina meu corpo e, ao mesmo tempo, começo a ficar sem ar. Peço ao Jota que me entregue a minha bombinha de ar, enquanto sinto suas mãos segurarem meu estômago com força. Ele dá duas baforadas de ar na minha boca enquanto fala palavras suaves no meu ouvido, para tentar me acalmar. 

Neste momento estou com muita, muita raiva dele! Mas tenho que voltar para meu estado de calma, porque sei que será muito pior se eu me descontrolar desta forma.

Minha pulsação começa a voltar ao normal e voltamos para o carro. São quase 3 horas da manhã e estamos no mesmo da Av. Vieira Souto, vomitando ar em frente ao mar de Ipanema…

Não falamos mais nenhuma palavra e vamos direto para a cama. Já deitados, Jota me pede para que eu converse com o Ricardo, para que eu me consulte com algum psiquiatra da confiança dele. Eu retruco que a última vez que escutei um conselho do Ricardo perdi meu marido para a psiquiatra… ele me pede para parar de falar isso, diz que não foi bem assim que as coisas aconteceram, mas que ele tinha grande parcela de culpa e que ia tentar “entrar nos eixos” para não me magoar mais.

Paramos a discussão e caímos em um sono profundo, como uma forma de fugirmos de uma discussão interminável.

***

Na manhã seguinte resolvo ligar para o Ricardo e marcamos de tomar um café, em uma de nossas livrarias preferidas, que fica em frente à Praça Nossa Senhora da Paz, antigo reduto da minha Vó Lia e meu parquinho preferido da minha época de criança.

Chego antes e resolvo dar uma volta pela praça. Sento-me em um banco ao lado dos balanços recém-reformados, pintados agora de azul e branco, as cores do novo governo do Rio de Janeiro. Lembro-me deles na cor amarela, com desgastes por toda parte, com o banco de madeira suja pelas fezes dos “pombos infernais”, como dizia Vó Lia… vejo-me balançando forte nos assentos que criam vida nas minhas memórias mais distantes:

Estou voando neles, pronta para agarrar o vento que insiste em machucar minhas bochechas rosadas, que brinca comigo em uma luta desleal, fazendo-me tremer de frio em um calor de outono carioca. Estou ali, entretida com meu vestido de margaridas amarelas, com meus cachinhos dourados balançando no ar, quando vejo um homem grande se aproximar da Caroline. Nesse momento caio do balanço e ganho minha enorme cicatriz no antebraço, fruto do encontro da minha carne com uma garrafa de cerveja que havia sido deixada por algum grupo de adolescentes rebeldes, que se reuniam à noite na pracinha, para fumar maconha e beber cerveja. Essa foi a primeira de tantas cicatrizes que trago comigo…

De repente estou de novo nesta cena e consigo recordar tudo o que passou com as palavras e na sequência que ocorreram: 

“É o tio Marco, o amigo da mamãe que sempre vem brincar comigo e com a Cuca quando vamos na pracinha. Mamãe diz que ele é um homem bom, que fala diretamente com Deus, mas eu não acredito nisso… porque eu sei que Deus não fala, Deus só fica de olho para ver se vamos fazer alguma besteira. E Deus viu a besteira que o papai fez com a mamãe… Deus viu que ele bateu nela quatro vezes e doeu. E Deus não gosta disso!

Mamãe está no banco lá longe, chorando com a tia Amélia. Ela está triste porque brigou de novo com o papai, e eu fico triste também… o tio Marco disse que vai ficar comigo e com a Cuca. Nós estamos brincando de espantar os pombos e ele pede para pararmos de fazer isso e brincarmos com os brinquedos que ele trouxe para nós. O Tio Marco trouxe uma Barbie para mim e outra para a Cuca, mas eu não abri a embalagem. Eu disse que queria que a moça ficasse fechada dentro da caixa para não se machucar. Eu não quero que ela se machuque… a Cuca abriu a Barbie dela e sujou de terra, mas a minha estava fechada e não sujou. O tio Marco falou que tem que usar, que tem que tirar a roupa e mexer nela pra deixar as partes dela mais flec, flexc, “flexisivél”, porque se não mexer sempre ela vai ficar doente. Ele disse que tem um botão secreto dentro da barriga que tem que apertar pra fazer a Barbie ficar mais “flexisívil”…”

Eu não gostei da brincadeira e resolvi ir para o balanço. O tio Marco disse que ia me empurrar bem forte se eu não voltasse para brincar com ele e a Cuca. Eu sabia que ele estava brabo, mas não fui! Eu não quero brincar com essa Barbie chata e não quero apertar esse botão bobo! Eu não quero brincar com ele!

Ele se levanta e vem empurrar o meu balanço e eu começo a ficar com um pouco de medo porque o balanço está muito rápido. Eu penso em gritar para a mamãe me ajudar, mas ela está muito longe e está chorando… eu não quero chatear mais a mamãe. Grito para a Cuca, mas ela não se mexe, acho que está com medo do tio Marco também… 

O tio Marco continua a empurrar mais forte e mais forte… até a hora em que eu caio e me corto no vidro. O tio Marco corre para me pegar e me carrega no colo até a mamãe. No caminho sinto seu dedo encostar no meu bumbum com muita força, sinto vontade de fazer cocô, mas seguro a vontade. Vejo o sangue vermelho cobrir as margaridas amarelas do meu vestido branco e depois não lembro de mais nada…”

Volto para minha realidade em 25 de maio de 2011, e me espanto com o que acabei de lembrar. Porque será que ele tinha essa mania de mandar que tirássemos as roupas das nossas barbies e mexêssemos no “botão secreto”??? Será que ele realmente me tocou ou é tudo fruto da minha imaginação? O que será que aconteceu realmente? 

Meus pensamentos são interrompidos com a ligação do Ricardo, me perguntando onde estou e  percebo que estou atrasada! Corro para a livraria, na intenção de abraçar meu amigo querido, que há tempos não vejo!

***

O encontro foi ótimo, como sempre. Falamos sobre livros, comida e séries de tv, o novo hobby do Ricardo, adquirido depois que se casou com a Michele, sua amiga de faculdade e colega de profissão. Desta vez, ele foi delicado o suficiente para não repetir que eu havia sido o amor da sua vida, sua paixão não concretizada, pelo menos não da forma como ele um dia havia planejado. 

E percebi que, graças a Deus, ele não ficou comigo. Com certeza eu não o teria feito feliz! Por isso preciso ficar ao lado do Jota, porque só nós nos entendemos, nós e esse amor doentio que sentimos um pelo outro.

Da nossa conversa saio com dois conselhos muito importantes: o primeiro, que eu devo consultar um psiquiatra. Ele acha que eu não deveria, em nenhuma hipótese, ficar sem uma assistência, até mesmo sem algum remédio controlado. Me passa o contato do seu psiquiatra, que, na opinião dele é o melhor do Rio de Janeiro.

O segundo conselho é para que eu volte urgentemente a trabalhar. Ele disse que eu não posso viver nesse parasitismo que estou vivendo, sendo uma sombra na vida do Jota, um reflexo do que minha vida deveria ser e não é. Concordo com ele e penso em uma alternativa durante toda a tarde.

***

No final do dia Jota chega com um buquê enorme de margaridas e um sorriso igualmente lindo… ele me beija e me convida para irmos ao nosso restaurante japonês preferido. Coloco  meu jeans surrado e minha camisa xadrez por cima do meu top preto, uma combinação que acabou virando uma espécie de “uniforme” para mim. Vamos caminhando para o pequeno e chic restaurante de esquina e aproveitamos a parte da varanda que está vazia para saborear  nossos sashimis e niguiris tomando uma cerveja bem gelada.

Entre um sushi e outro, Méli me liga para nos convidar para irmos ao Teatro Municipal ver uma peça de balé. Aceito imediatamente e programamos para o próximo final de semana. Jota me avisa que não vai poder nos acompanhar porque na próxima semana estará viajando pela empresa… penso que será bom ter esse tempinho só para mim, um tempo longe dele e de tudo que me faz enlouquecer de ciúmes nesta relação doentia e viciante.

Próxima leitura: Capítulo 27

***

Trilha Sonora: Stairway To Heaven – Led Zeppelin

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