Vigésimo Quarto Capítulo

Abraçamo-nos de forma demorada e carinhosa. Parecemos dois irmãos aliviando a tensão de um dia ruim. Faço o papel de esposa, aquela que alimenta a alma e assopra as feridas. Tomo para mim a responsabilidade de acolhê-lo, em meu melhor lado maternal…

23 de maio de 2011

Por volta de 14 horas, ao entrar em casa, escuto meu telefone tocar; é o Jota me dizendo que a sua filha, Rebeca, sofreu um acidente e que ele está a caminho do hospital. Pergunto se ele quer que eu o encontre no hospital, mas ele acha melhor não e termina a ligação sem me dar maiores detalhes. 

Viro a chave de casa e entro desolada e cansada; estou exausta, física e emocionalmente. Minha vontade é deitar na cama e por lá ficar durante horas, dias… pego-me observando várias fotos de redes sociais, vendo antigos conhecidos de caminhada com uma alegria arrebatadora, sorrindo em cenas familiares comuns. Essas cenas me deixam enjoada e com raiva. Tantos momentos infinitamente felizes só podem ser pura ilusão! Não deveria ser permitido publicar fotos de uma vida tão encantadora e plena, porque, no fundo, ninguém está tão completo de entusiasmo assim… ninguém pode ser tão feliz nesse mundo ingrato onde existe traição, drogas e mortes…

Continuo na cama por mais umas quatro ou cinco horas, em uma inércia sem fim, em um misto de tédio da vida e medo de seguir adiante. Dar o passo seguinte me assusta, pois ele me obrigará a tomar alguma medida para sair deste estado e eu não quero sair desse estado… ou não tenho forças para isso….

Acendo um cigarro e coloco o Black Label no copo com as iniciais do Jota. Agora sou eu e o copo, sentados na poltrona Luiz XV, com o par dela nos olhando desocupado e triste. Jaz um Jota Jr sacana e puto que nunca mais servirá de consolo para o móvel escolhido a dedo e, agora, abandonado na vida cotidianamente feliz deste enorme apartamento… meu marido hoje em dia é um pai de família dedicado. Um marido exemplar que em nada se parece com o meu Jota de antigamente. Ele é o estereótipo perfeito do que eu deveria ter idealizado para mim, há muito tempo atrás… na época em que eu era jovem e inocente.

Escuto um barulho de chaves na enorme porta de madeira com abertura pivotante. É o Jota que chega com um sorriso sincero e um “oi linda” igualmente encantador. Vejo que ele trás uma sacola com duas barras de chocolate meio-amargo com sal, da marca Lindt, meu preferido. Agradeço o mimo e retribuo o presente com um beijo sem muito entusiasmo. 

Eu pergunto como está a Rebeca e ele, visivelmente abatido, me responde:

– Está bem… melhor agora. Ela foi atropelada quando estava atravessando a rua com a avó, a idiota da mãe da Joana! A avó não sofreu quase nada, mas a Rebeca se quebrou inteira, tadinha… ela fraturou duas costelas e teve ruptura do baço. 

– Meu Deus, Jota! E eles tiraram o baço? Pra que serve o “baço”?

– O baço é um órgão que fica aqui, olha – ele coloca as minhas mãos geladas dele sobre as minhas mãos e me mostra o local exato do baço. – ele é responsável em parte pela produção e destruição de células do sangue e participa do sistema de defesa do organismo.  Pelo menos foi o que eu consegui aprender com o médico dela. Eu confesso que também não sabia direito para quê servia esse baço!

– E ela perdeu o baço ???

– Perdeu… e vamos ter que redobrar a atenção com relação à imunidade dela.  Vai ter que tomar uma série de vacinas e… – Vejo seus olhos se encherem de lágrimas. Meu Jota está chorando pela filha! Essa cena me emociona e, apesar de não gostar dessa garota, sinto pena em ver meu Jota tão abalado. Pela primeira vez consigo sentir algo pela Rebeca sem ser ódio…

Abraçamo-nos de forma demorada e carinhosa. Parecemos dois irmãos aliviando a tensão de um dia ruim. Faço o papel de esposa, aquela que alimenta a alma e assopra as feridas. Tomo para mim a responsabilidade de acolhê-lo, em meu melhor lado maternal…

Deixo o copo de whisky na varanda e encomendo uma pizza bem gordurosa para aliviarmos a tensão de um dia tão pesado… vamos para o quarto e deitamo-nos cedo, abraçados e exaustos, como um casal maduro depois de um dia cansativo de trabalho. 

Adormeço com uma sensação relaxante, como se tivesse voltado para casa. Quando acordo, estou imersa em um jardim com muitas flores silvestres e enormes árvores, cujas folhas balançam com o vento que insiste em soprar forte. Levanto-me e começo a caminhar por esse jardim cheio de pedras grandes. Ao aproximar-me das pedras percebo que não são pedras, mas lápides antigas com impressões de nomes e datas encrustradas nelas. Abaixo-me na intenção de apartar algumas folhas podres que se estendem em cima de uma lápide pequena. Para minha surpresa o nome que está na lápide é… Miguel!

Assusto-me com a descoberta e instintivamente dou um salto para trás. Nesta lápide está escrito Miguel Nogueira Tavares, com a data do meu aborto, dia 18 de julho de 2006. Ao lado desta lápide encontro outra, sem nome e só com uma data de 23 de maio; não consigo visualizar o ano, pois está apagado. Não entendo o significado desta segunda lápide, mas prefiro não pensar nela, afinal nada tem a ver comigo… saio correndo em direção ao outro lado e, em meu desespero, caio em uma vala profunda, na qual sou arrastada para um local enlameado, com um cheiro horrível de morte. Vejo vários indigentes tentando agarrar meus pés nesse limbo fétido e começo a debater-me implorando por ajuda… ao final de um corredor comprido consigo ver a “moça” com um braço estendido e seu olhar amarelo encarando-me. Ela está com seu vestido preto rasgado e sujo; seus cabelos mal cortados com as pontas espetadas e desordenadas compõem seu lindo rosto branco com a cicatriz na diagonal, que corta parte de sua bochecha esquerda. 

Tento aproximar-me dela, mas não consigo chegar perto. Grito com força e nenhum som sai da minha garganta. Estou presa, imobilizada… 

Uma coruja gigante vem em minha direção e me resgata do poço em que me encontro, no Vale da Morte, por onde minha alma insiste em passear, sempre que se lembra do meu Miguel. Sei que não é ele, meu filho, que me “puxa” para lá; é a minha culpa quem me faz retornar ao limbo pestilento que me aprisiona e me faz escrava da minha dor…

Acordo suando e com o corpo tremendo… estranho o fato de nunca mais ter tido esses pesadelos, depois de tanto tempo. A sensação que tenho é que, estar perto do Jota me faz entrar em contato com os meus pecados mais profanos e sujos. Recordo-me a todo momento o assassinato do meu filho, uma vítima dos nossos exageros e perversões.

Resolvo levantar e tomar um banho quente. Prefiro não comentar com o Jota sobre esse sonho para que ele não se preocupe…

Enquanto estou no banho ele se aproxima e coloca as mãos no meio das minhas nádegas, fazendo um movimento giratório com o polegar, típico do momento que antecede um sexo anal. Ele beija meu pescoço e começa a lamber as bordas da minha orelha esquerda, algo que sempre me excita demais. Puxo-o para dentro da água quente e começamos a nos beijar de forma incessante, como se o mundo fosse acabar amanhã. 

– Anna Lara, está excitada?

– Sim…

– Muito?

– Sim… vem!

– Muito, quanto?

– Muito, Jota! Vem me comer…

– Eu vou, mas… só depois de ver você dançar daquele jeito e foder como uma égua com um grupo de desconhecidos…

– O quê? – nesse instante eu gelo. Não me lembrava mais das brincadeiras sacanas que meu marido costumava fazer… não estava preparada para isso e, acho que não consigo mais fazer esse tipo de “papel”… – Jota, não sei… acho que não estou preparada para voltar a fazer “essas coisas”…

– Você sabe que isso me excita muito… que eu adoro uma sacanagem! – Ele ri com uma expressão tensa enquanto me beija suavemente o canto da boca.

– Não sei se quero fazer isso… não sei mais se eu gosto disso!

– É claro que gosta! Você sempre gostou “disso”, Anna Lara! Você sempre me pediu “isso”, você sempre gozou com “isso”! Vamos…

Não estou realmente com vontade de fazer sexo grupal, nem sexo com o Jota, na realidade. Mas sinto que uma parte de mim está adormecida, apagada. Quero renascer nesse cenário de inferno em que vivo, que alimenta minha alma e que me faz viva. Quero viver de novo, nem que seja no âmbito do inferno, sob o julgo do diabo…

Falo as coisas que ele quer ouvir, deixo-o completamente louco e saio do box de mármore carrara para buscar minha toalha. Coloco meu Louboutin, minha lingerie preta e meu vestido tubinho preto, arsenal que costumo usar para ir “à guerra”, e passo meu rímel e lápis de olho para escurecer os pelos claros dos meus cílios; passo um batom nude e algumas gotas do meu Jo Malone para ir ao encontro dos demônios que vão usar meu corpo e me anestesiar por mais um tempo.

Ao sair do banheiro, percebo a “Moça”me encarando no canto do espelho. Olho para trás para ver se ela está ali e não a encontro. Voltando o rosto para o espelho consigo vê-la sorrindo, como se me pedisse um pouco mais de sexo puto e ordinário. Acho que é ela quem está me obrigando a ir para mais uma orgia, é ela quem me obriga a fazer essas coisas, que me empurra para esse precipício moral ao qual visito desde muito cedo!

É ela, Maria Scarlet, a causadora de toda a promiscuidade que ronda a minha vida devassa e suja.  O sentimento de ódio toma conta de mim e acabo jogando o pote inteiro do meu perfume preferido  no espelho, para tentar cortá-la em vários pedaços.

O barulho é assustador e Jota corre para me socorrer. Estilhaços por toda parte ficam acomodados no chão rosado, mesclando-se com as cores do mármore e suas fissuras heterogêneas. De repente, a moça não está mais dentro do espelho, ela está bem na minha frente; encaro-a com raiva e ela me devolve um sorriso oportuno. Fico paralisada com esta cena e ela caminha devagar até mim, pisando nos cacos de espelho que estão no chão. Escuto o barulho dos pedaços de vidro cortando sua pele alva e consigo ver o sangue pingar da palma dos seus pés. 

– Anna Lara, o que está acontecendo? O que você está vendo?

A moça se aproxima e me sussurra algo no ouvido que não consigo escutar, mas que me desperta para novas sensações, como a de um tesão muito forte. Peço ao Jota para nos apressarmos e saímos em seguida, em direção ao inferninho de Copacabana que costumávamos frequentar.

Lá chegando, entramos no salão cafona com sofás de veludo vermelho e cortinas de voal preto para separar sutilmente os ambientes; vamos até o bar e pedimos duas doses de Black Label para cada um , sem gelo e em copos pequenos. O garçom simpatiza conosco e acaba por colocar um pouco mais do líquido bendito no copo do pecado.

Observo o olhar de caçador do Jota e imagino que ele vá buscar uma morena voluptuosa que está sentada ao lado de um velho nojento. Ele vai até a mulher, conversa algo que não consigo decifrar com o movimento dos seus lábios e volta com os dois até o bar. Para minha surpresa, a morena começa a me beijar incessantemente, enquanto seu companheiro velho me agarra por trás lambendo meu pescoço com vontade.  Sinto um nojo instantâneo deste velho flácido tocar em mim, mas vejo o brilho no olhar do Jota e decido seguir com a brincadeira.

Vamos até um dos quartos, onde uma pilha de camisinhas cai de um cesto de plástico preto, que imita uma enorme e horrorosa taça de champanhe. Os “meninos” colocam seus acessórios enquanto eu e a morena bonita deitamos na cama malcheirosa com nossos rostos colados no tecido desgastado da casa de surubas mais conhecida do Rio de Janeiro…

Vejo meu Jota penetrar com força na desconhecida morena, que faz caras e bocas para demonstrar um tesão genuíno, mas que obviamente é fingido. O velho penetra em mim com menos força, mas igual vontade que meu marido em sua prostituta momentânea; sinto sua pele flácida encostar no meu clitóris e começo a ficar levemente excitada com a sensação. Nesse momento, o olhar do Jota cruza com o meu e saímos dos nossos novos companheiros para agarrar nossos corpos recém tocados e sujos de saliva e excrementos avulsos, para adentrarmos um no corpo do outro, sem pudor e sem descanso. Puxo o rosto do Jota até minha genitália e peço que me lamba os lábios com rapidez; ele vai até meu clitóris e começa a fazer movimentos circulares fortes e sincronizados, em uma rotação que me tira dos eixos e faz estremecer meu corpo inteiro, como se eu fosse explodir com esse orgasmo estranho e avassalador… ao final do meu gozo ele me vira e começa a meter no meu rabo, com uma força e vontades similares a do Giancarlo, um italiano que tinha um pau enorme, tão enorme que me alargou inteira por trás, soltando as últimas pregas que me restavam… ainda hoje me lembro da força daquele pau entrando no meu rabo, algo totalmente desproporcional, mas, ao mesmo tempo, delicioso…

O velho e sua puta saem de fininho do quarto com sabor de pecado e nos deixam à sós, da forma que queríamos e precisávamos. Entendem, por certo, que eram apenas fantoches no jogo sexual que eu e meu marido precisamos para nos excitar e nos manter vivos no encarceramento da vida matrimonial entediante que nossa sociedade impõe.

Voltamos para nossa casa e vamos dormir no quarto de hóspedes, que nessa altura já havia virado o “quarto da Rebeca”, mas que eu continuava a citá-lo simplesmente como “quarto de hóspedes”, afinal, não gostava da menina japonesa, com ou sem baço!

Jota circunda seu braço em volta do meu, como se quisesse agarrar o resto de ar que me sobrou e pedir perdão por sermos tão ordinários juntos. Ele sussurra baixinho no meu ouvido que eu sou dele… que sou a sua garota e a sua puta, ambas reunidas na mesma versão feminina da mulher que ele escolheu para chamar de sua…

Próxima Leitura -> Capítulo 25

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Trilha Sonora: Woman in Chains – Tears For Fears

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