Capítulo 25

Ao passar pelo jardim de inverno localizado no fim do corredor que leva aos quartos, eu vejo a imagem da Caroline em pé, encarando-me dentro do jardim. Assusto-me com a cena e fecho meus olhos com toda força. Quando os abro não vejo mais a sua imagem. Agarro a caixa e entro correndo no meu antigo quarto. Coloco a caixa na mesinha lateral e deito-me na cama, cobrindo todo o meu corpo até a ponta do pescoço e agarro com toda força meu novo pingente de coruja.

Acordamos um pouco tontos e cansados da nossa orgia promíscua e começamos o dia com um belo omelete de queijo, feito pelo amor da vida. Somos nós, em uma versão muito mais colorida e encantada do que a que estávamos vivendo, na monotonia dos nossos ex-companheiros, quem fazemos a vida mais divertida e feliz! E é ele, quem faz meus orgasmos mais fortes e “vivos”. 

Distraio-me com meus pensamentos e imagino uma orgia com vários desconhecidos, algo realmente baixo e vulgar, digno de uma aventura sexual plena! Lembro-me da nossa viagem de trem pela Europa, há anos atrás, quando resolvemos transar com vários passageiros; eram tantos que acabamos invadindo o corredor do trem e, ao final, até um dos garçons entrou no sexo grupal! 

Meus pensamentos sobre nossas orgias do passado são interrompidas pelo som do interfone. É a Mariana que está com o Davi lá embaixo. Ela quer usar o filho de demônio para se aproximar do meu Jota. Odeio-a mais que qualquer coisa nesse mundo!!!

– Anna Lara, vou descer para ficar um pouquinho com o Davi, ok?

Respiro fundo para não brigar com ele, não depois do sexo maravilhoso que tivemos ontem e do custo de um espelho novo que coloquei na nossa conta… 

– Ok, mas tenta não demorar, tá?

– Porque não pegamos uma praia? O tempo está tão lindo!

– Pode ser… –  Não gosto mais de praia. Há tempos que já não curto o sol queimando minha pele, o calor do purgatório consumindo o que resta de mim, deitada ali nas areias quentes do Leblon. Também não me arrisco mais a entrar no mar, pois tenho medo legítimo de me afogar ali, já que acabei entrando sem perceber quando estava caminhando com a tia Amélia, naquele dia, na mesma praia…

Observo pela varanda a cena comovente da família feliz que fora separada pela puta desonesta. Vejo o brilho vermelho do cabelo ruivo da judia filha da puta e percebo que o inferno é pouco para ela. Sei que ela está jogando com todas as armas que pode e que tem um trampo poderoso nas mãos: o filhote de demônio, circuncidado e gorducho, a cara do meu Jota e o pior: a criança mais linda do mundo! Que ódio!

Resolvo ligar para a Méli e combinar de me encontrar com ela. Preciso de uma amiga para me tirar desta espiral de sentimentos. Para minha sorte ela está sem fazer nada também, acabou de deixar sua namorada nova no aeroporto e está voltando para sua casa, em Laranjeiras. Pedi que viesse me buscar e resolvemos fazer umas “comprinhas de mulheres” no shopping Leblon.

Ela chega meia hora depois e eu entro no seu carro sem querer olhar para a cena do Jota com a Mariana. Em um relance, acabo espiando o ex-casal passeando com o carrinho de bebê do Davi; esta cena me enoja e anestesia. Sinto como se estivesse andando em círculos, presa em uma bolha de ar que não para de crescer…

– Anna Lara, o que houve? Por que você está assim?

– Assim como, Méli?

– Assim, “estranha”…

– Talvez porque eu seja estranha, Méli.

E ambas caímos no riso, em uma cadência gostosa e infinita, que nos juntou em momentos tão distantes da nossa vida, mas que nos manteve ali, conectadas por algo que costumamos chamar de “amizade”.

Passeamos pelo shopping por longas duas horas, na qual todas as lojas, das mais chics às mais simples, nos convidavam a entrar e explorar seus milhares de supérfluos irresistíveis, com todos os cheios e todos os designs mais atraentes. Deparo-me com um pingente de coruja cravejado de brilhantes que grita me nome da vitrine fria e luxuosa em que está presa. É como um pedido de socorro, de uma alma aflita por liberdade.

Não resisto à tentação e compro o pingente, como em um impulso sem nenhuma lógica, afinal, não gosto de joias e não costumo usá-las, somente um pequeno par de brincos de brilhantes que trago comigo desde a festa da Caroline. Foi um presente que ganhamos da Vó Lia, um dia antes da festa da Caroline. Ela pediu que usássemos para a nossa proteção, mas com a morte da Caroline, acho que no não deu muito certo…

Vamos até a livraria do shopping onde tem um restaurante butique, sentamo-nos uma em frente à outra e pedimos uma água com gás e limão espremido. Fiquei viciada nesta bebida por causa da Heidi, que simplesmente ama qualquer variação de água com gás. 

Peço uma salada de entrada e uma massa com recheio de queijo, Méli pede somente um steak tartare. Só de pensar na carne crua que virá no prato da minha amiga já embrulha-me o estômago, e começo a conter minha ânsia antes que o prato chegue.

– Anna Lara, como vocês estão? O relacionamento voltou ao “normal”?

– O que você quer dizer com “normal” Méli? Quer saber se já voltamos  a fazer nossas “festinhas”? – Um riso frouxo sai da minha boca, sem que eu consiga controlá-lo.

– (risos) Isso também! Mas queria saber mesmo se vocês se acertaram de vez, se aquela louca da Mariana parou de perturbá-los… e se você já aceitou os filhos deles na sua vida.

– Puxa! É bastante assunto para pensar. Não sei te dizer exatamente, Méli. Na verdade, não avalio muito a minha vida. Apenas a vivo intensamente, da forma que posso. 

– Você não acha que seria bom avaliá-la de vez em quando?

– Por quê? Qual o propósito, Méli?

– Porque é bom sabermos qual rumo estamos tomando na vida… é bom termos uma direção a seguir, Anna Lara.

– Isso é verdade…

– Funciona como uma “bússola” que nos leva onde queremos.

– Ou que nos leva onde precisamos. – interrompo referindo-se às minhas escolhas, que na maior parte das vezes são involuntárias e guiadas.

– Sim, ou isso.

***

No caminho de volta, resolvo passar na casa da tia Amélia, a casa em que eu também morei, para vê-la e passar um tempo maior com minhas lembranças boas da minha infância.

O prédio antigo, construído na década de 30, ainda conserva a sua arquitetura original com a cor amarela desbotada e os detalhes arcaicos de rococó pintados de branco. Esse prédio destoa totalmente do ambiente moderno das ruas Maria Quitéria e Prudente de Moraes, fazendo parecer que é um marco do tempo antigo, situado em pleno coração de Ipanema.

Toco a campainha e Agnaldo atende a porta sem blusa e com um calção de dormir. Percebo o constrangimento explícito em seu rosto e sinto uma vontade enorme de rir, mas me controlo. Penso no que ele iria dizer se soubesse das minhas milhões de depravações, muito maiores do que, simplesmente, dormir com a “patroa”…

Tia Amélia desce com seu robe preto de tule e renda, deixando aparecer parte da camisola preta de renda.  Ela me dá um longo abraço e, diferente do namorado, não se sente constrangida por ter sido flagrada em um momento de sexo no meio da tarde. 

Conversamos por mais de uma hora, até que ela, já não se aguentando, me pergunta o que está havendo com meu coração e minha cabeça.

– Tia… nem sei por onde começar… na verdade eu estou perdida, não sei mais o que fazer com a minha vida. Minha vida estava boa antes, mas foi só o Jota reaparecer que tudo virou de cabeça para baixo….

– Como assim, Anna Lara? Por que “cabeça para baixo”??

– Eu não sei o que estou fazendo, tia… estou cuidando de um bebê que não é meu, aturando uma enteada que eu detesto e vivendo um dia após o outro como uma “boa esposa”.

– E qual é o problema disso? Ah, já sei! O “problema” seria o amor que você deixou para trás?  O “problema” é a Heidi, não é? – Meus olhos se enchem de lágrimas ao escutar o nome dela… como pude deixá-la? Que saudades sinto…

– É difícil tia… realmente eu amo a Heidi! Mas, mas o Jota… ah… não sei! É como se eu amasse os dois! E me sinto culpada por isso…

– Minha filha, não se culpe tanto. Você tem uma ligação muito forte com esse rapaz, algo de outras vidas. Não é simples romper um elo desses.

– Mas, tia… eu estou muito mal com esse relacionamento… eu não entendo porque eu gosto tanto do Jota sacana, esse cara que abusa do meu corpo e da minha estima… é como se o Jota, sem querer, “me libertasse de mim”! – Ela dá um forte suspiro, olha demoradamente para a estante de livros e me diz:

– Anna Lara, está na hora de você saber de algumas coisas sobre a sua história, sobre seu passado. Acho que já está mais do que na hora de desvendar alguns mistérios que foram guardados “debaixo de várias chaves”…

Ela chama o Agnaldo e pede que ele busque “a caixa” para ela. Ele a olha assustado e confirma se é realmente para entregar a caixa. Ela consente com a cabeça e devolve o olhar já levemente irritada com a indagação.

O homem com estigma de criado pega uma cadeira da sala de jantar e sobe nela com a leveza de um trapezista. Busca na última prateleira da estante uma caixa de madeira empoeirada que está quase escondida atrás de dois bonecos de porcelana. Os bonecos caem no chão em uma cena que me parece familiar com partes que se estilhaçam em pedaços bem finos. Vejo os pés descalços da Moça pisarem nos pequenos cacos enquanto caminha na minha direção. Ela me olha por alguns instantes antes de se virar e seguir para a cortina de veludo bege, onde desaparece. 

Tia Amélia levanta seu enorme quadril e segue em passos lentos até uma gaveta da mesa lateral do sofá. De lá retira uma pequena chave quase enferrujada.

– Aqui está Anna Lara. A chave que vai abrir a caixa com todos os mistérios que acompanham essa família. Essa caixa é sua. Seria dada para você quando completasse 26 anos, mas você estava em Amsterdã, com sua cabeça bem longe de tudo que remetia à sua história e aos seus ancestrais, então resolvi aguardar até poder te entregar. E acho que agora chegou, finalmente essa hora.

– Por que você deveria me dar essa caixa quando eu completasse 26 anos? Por que essa idade?

– Porque é o dobro de 13, e esse é o número que define as mulheres desta família.

– Ah! O número do azar? – Um riso frouxo sai saltitante pela minha boca debochada. Só pode ser mentira que o número das mulheres dessa família seja justamente um número de azar!

– Não é um número do azar, Anna Lara. Ele é um número místico, muito poderoso, inclusive…

– E o que eu devo fazer com esta caixa? O que tem aqui?

– Preste atenção, minha filha: essa caixa contém um segredo passado de gerações em gerações. Este segredo é a capacidade de conseguir tudo o que quiser com o poder da sua mente. E esse poder está bem detalhado nas páginas de um livro bem velho, um dos poucos exemplares existentes ainda… nós guardamos uma dessas magias, uma muito poderosa, que está impregnada em nosso DNA, Anna Lara.

– E qual é essa magia, tia?

– Você vai descobrir por si só, quando achar que deve. Mas, cuidado! Você deve entender que esse conhecimento pode te ajudar a conseguir tudo o que você quiser, mas também pode acabar com você, se você não souber usar o poder que você vai descobrir que tem. Essa caixa pode ser a sua redenção ou o seu fim. Tome cuidado com o que você vai fazer com as informações que encontrar aqui…

– Por que essa caixa seria para mim e não para a Caroline? É porque sou a mais velha?

– Não sei dizer, minha filha… soube pela sua avó quando você nasceu que você deveria receber esta caixa aos 13 anos ou aos 26 anos. Como aos 13 anos você estava… bom, você sabe…

– Sim, eu estava meio revoltada… mas, será que eu não teria melhorado se tivesse pego esse livro na época?

– Você tinha uma “protetora”, um ser que te acompanha desde sempre e que te protege de tudo. Ela se encarregou de cuidar de você nessa época, Anna Lara.

– Eu sei quem é essa protetora, tia. E, sinceramente, não acho que ela me proteja da forma com que você está falando…

Um riso oportuno sai flutuante das bochechas gordas da tia Amélia e me entrega um pouco de sarcasmo misturado à doses de realidade: 

– Anna para, você não sabe nada sobre você, sobre sua família e menos ainda sobre essa sua protetora… ela não deixou que o pior acontecesse com você. 

– E o que seria o “pior”, tia???

– A sua morte, minha filha.

– Eu sofreria um acidente? – assusto-me com as revelações da tia Amélia e tenho medo do que vou escutar a seguir…

– Um acidente que você provocaria contra você mesma: um suicídio, Anna Lara.

– Eu, eu ia me matar? Nunca! Eu não faria isso comigo!

– Você já tentou algumas vezes, minha querida. Só não conseguiu… as mulheres da nossa família são cercadas por uma energia de morte. E você sempre foi a mais forte, Anna Lara, apesar de achar que não…

– Por quê?

– Porque você é aquela que caminha entre a linha tênue que divide a vida e a morte; você tem a conexão que nossas ancestrais tanto buscaram e você veio para libertar a nossa família de todo esse mal.

Lágrimas começam a saltar dos meus olhos castanhos em busca de conforto no meu peito angustiado. Parece que tudo faz sentido agora, todas as palavras da tia Amélia preenchem um vazio enorme que estava dentro de mim e que parece ter sido completado de alguma forma…

– Mas, tia. Ainda não entendo muitas coisas sobre o meu passado, tudo é muito confuso…

– Continue no seu caminho, minha filha. Você vai achar “a saída”. Eu prometo. – Ela se despede com um beijo na minha testa e vai para o quarto com seu namorado forte e másculo.

Eu fico com essa caixa nas mãos sem saber o que fazer, sem saber se devo ou não abrir. Resolvo apelidá-la de “Caixa de Pandora” e prefiro não abri-la agora. Já está super tarde, estou exausta e acho que não é momento para descobrir nenhum mistério de família… vou até o meu antigo quarto, da época em que morei com a vovó e a tia Amélia, para me recostar um pouco na cama que um dia foi minha.

Ao passar pelo jardim de inverno localizado no fim do corredor que leva aos quartos, eu vejo a imagem da Caroline em pé, encarando-me dentro do jardim. Assusto-me com a cena e fecho meus olhos com toda força. Quando os abro não vejo mais a sua imagem. Agarro a caixa e entro correndo no meu antigo quarto. Coloco a caixa na mesinha lateral e deito-me na cama, cobrindo todo o meu corpo até a ponta do pescoço e agarro com toda força meu novo pingente de coruja.

Próxima Leitura -> Capítulo 26

***

Trilha Sonora: Vilarejo – Marisa Monte

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