Vigésimo Terceiro Capítulo

Foi ele, meu filho deformado que voltou para me pedir que eu abrace o seu irmão, o Davi. Senti a presença do Miguel ao meu lado, como se ele soprasse lentamente em meus ouvidos… escutei sua voz ao mesmo tempo em que acariciei a testa aveludada do enorme bebê de sete meses. 

O tempo que seguiu após a nossa volta de Amsterdã foi bem tumultuado. Como toda mulher louca e obsessiva, Mariana não iria deixar o Jota livre para fazer o que quisesse, não sem sofrimento… ela começou impedindo que Jota visse o “filhote de demônio” aquele ruivinho circuncidado que me irritava só de ouvir a pronuncia de seu nome bíblico. Mas, ao saber que ele era usado como uma arma de disputa e extorsão em um conturbado divórcio, logo afeiçoei-me à ideia de usar essa mesma arma contra ela. 

Em pouco tempo o filhote de demônio já estava frequentando nossa casa e seu novo quarto se tornou matéria para a revista de decoração mais famosa do Brasil. 

Passamos a frequentar festas de crianças famosas e eu passei a expô-lo diariamente em minhas redes sociais. Mostrava uma Anna Lara feliz ao lado de um menino pelo qual eu só nutria desprezo. Ao passar pelo quarto com papel de parede com listras brancas e azul-marinho, eu só conseguia imaginar que este quarto poderia ser do meu Miguel. 

Certa vez, Jota teve que viajar para Florianópolis para assinar um contrato e ficamos só nós dois: eu e o “filhote”. A desgraçada da babá furou na última hora e a última pessoa que eu ligaria para pedir ajuda seria minha mãe, já que ela foi totalmente contra a minha volta com o Jota e tinha a Heidi como uma outra filha…

Pois bem, tivemos que nos acertar e eu acabei acomodando-o no meu colo para que parasse de chorar. Aos poucos fui percebendo sua expressão serena e vi que o filhote de demônio mais se parecia com um anjo que estava sofrendo pelo descontrole de uma mãe louca e de uma madrasta igualmente desequilibrada. Encontrei razão nas palavras do Jota quando dizia que queria trazer um ambiente harmônico para o Davi, para que ele pudesse encontrar um pouco de paz aqui. 

Observei-me tão pequena e ignorante com essa vida nos meus braços, um ser que se parecia com o meu Jota, que tinha as cores da mãe maldita, mas que, talvez, só talvez, não tivesse herdado essa carga genética do mal. Talvez ele tivesse herdado a carga genética do Jota e fosse mesmo um ser de luz. Lembrei-me do sonho que tive há anos atrás, da mulher em chamas que pegava um bebê perfeito com os traços do Jota. Eu achava que esse bebê era o meu filho, mas na verdade era o dela… ela, a mulher em chamas era a Mariana, que veio do inferno para acabar com a minha vida. E esse bebê lindo, perfeito, era o filho dela com meu Jota! O meu filho, o meu Miguel, era o bebê deformado que chorava no berço ao lado.  Ele foi o filho que saiu do meu ventre pela força do ódio, pela força do desamor e da vergonha. Foi ele, meu filho deformado que voltou para me pedir que eu abrace o seu irmão, o Davi. Senti a presença do Miguel ao meu lado, como se ele soprasse lentamente em meus ouvidos… escutei sua voz ao mesmo tempo em que acariciei a testa aveludada do enorme bebê de sete meses. 

Depois de dar a mamadeira, resolvi colocá-lo na minha cama para ter certeza de que ele não ia chorar durante a noite. Dormimos os dois, em uma noite de trégua, em uma noite em que brinquei de mãe com o filho do meu amor e da minha maior inimiga. 

No dia seguinte, Jota voltou da viagem e encontrou a cena mais terna que poderia: seus dois amores abraçados na sua cama. A sua mulher e a sua cria, ambos dormindo serenos um sonho compartilhado. Ele me acordou com um beijo suave e se deitou ao lado do Davi, abraçando meu corpo com ele no meio de nós. Me senti segura dentro desse abraço, que parece ter sido feito em uma outra vida, de uma forma que não imaginei mais que seria possível. 

Ficamos ali por mais alguns minutos até ouvirmos o barulho estridente do celular do Jota. Era a Mariana, avisando que estava embaixo do prédio, aguardando que o Jota descesse com a criança. Me lembro de, pela primeira vez em muito tempo, ter sentido um vazio enorme, por ter o Davi, ainda dormindo, retirado tão abruptamente dos meus braços. 

Levantei-me em seguida para buscar as coisas dele e, quando cheguei na sala, percebi que o Jota havia acabado de descer com o Davi, não me dando tempo para me despedir do filhote de demônio, que nesse momento já havia virado simplesmente o “Davi”.

Fiquei irritada e questionei sobre sua atitude quando ele subiu. Discutimos e eu tive meu primeiro descontrole com o Jota. Xinguei-o e agredi-o de todas as formas que podia. Sabia que estava errada, mas a minha raiva era algo simplesmente incontrolável… 

Depois de um banho e um tempo fazendo meus exercícios de respiração, consegui, finalmente me acalmar e pedir desculpas ao Jota. 

Foi neste dia que reconheci que precisava de ajuda de um profissional; não podia ficar sem as minhas seções, para o meu bem e  do Jota. 

21 de maio de 2011 – Sábado

Combinamos de almoçar e passar o dia juntos. Como está sol e o tempo está agradável resolvemos fazer um passeio até Vargem Grande, para almoçarmos no nosso restaurante preferido: o “Fazenda da Fé”.

Ao chegarmos, somos conduzidos até nossa mesa habitual e, em segundos, o melhor vinho do restaurante nos é oferecido pelo próprio dono, nitidamente feliz pela presença do antigo casal que costumava fechar o restaurante para festas particulares.

Comemoramos sempre nossos aniversários de casamento aqui, em homenagem ao lugar que nos acolhia em nossos momentos de contemplação e calmaria, longe das drogas, longe das perversões e excessos.

É tão bom saber que existe um lugar como este, mesmo estando no Rio de Janeiro, uma cidade completamente lotada de tantos corpos sarados que competem entre si pelo melhor orgasmo, pelo melhor mergulho e pela melhor pose em frente à câmera do celular. Tão bom ser esquecida junto ao amor da sua vida, sem se preocupar com os ódios habituais, as mágoas e as cicatrizes que insistem em vibrar nos chamando para dor. Ali, no espaço de mata cercado por centenárias árvores me sinto mais perto de Deus, em uma comunhão com os anjos que ainda me abençoam, apesar dos meus pecados… apesar de mim.

Assim que o garçom se vira, uma gigantesca coruja invade a varanda onde está nossa mesa e se acomoda na cadeira bem à minha frente. Ela me observa atentamente com seus enormes olhos amarelos, como se quisesse me dizer algo… fico hipnotizada por sua beleza e altivez.

Jota tenta espantá-la, mas eu não permito. Peço que aguarde para vermos o que vai fazer. Ela continua imóvel me observando até que olha para o lado e segue seu caminho. Sua imagem não me sai da cabeça e passo o resto do dia pensando na coruja… 

22 de maio de 2011 – Domingo

Acordo cedo e resolvo ligar para a mamãe. Não havia falado com ela desde março, porque não queria que ela me aborrecesse com críticas ao meu casamento. Ela ficou muito irritada comigo quando soube que eu havia traído a minha ex-mulher, magoado a Heidi. Incrível saber que a nossa própria mãe se importa mais com um alguém que ela conheceu há alguns anos do que com o ser que saiu do próprio ventre dela!

– Alô, mãe?

– Oi minha filha! Então você, finalmente, resolveu aparecer?

– Bom dia, mãe. Você está bem?

– Eu estou triste, Anna Lara! Triste por não poder contar com a minha própria filha!

– Mãe, você quer que eu desligue?

– Não! Não… me desculpe! Só estou com saudades… tudo bem com você?

– Sim, tudo. Acabei de fazer a reforma no apartamento… ficou lindo! Você quer vir ver?

– Prefiro não ir aí por enquanto, Anna Lara. Pelo menos por enquanto… vamos tomar um café?

– Ok… que tal uma volta na praia? O dia está tão lindo!

– Sim, boa ideia. Podemos chamar a tia Amélia, o que acha? Aí vão as três meninas passear!

– Ótimo! Estou com saudades da tia Amélia! Como ela está?

– Gorda e vulgar, como sempre! – minha mãe e sua forma super preconceituosa de olhar as pessoas! Não resisto a uma gargalhada e, por alguns instantes, parecemos duas amigas de infância rindo das besteiras que falamos…

***

Paramos no quiosque em frente à Vinícius de Morais e pedimos uma água de coco para esperar a tia Amélia chegar.

– Anna Lara, você vai se desfazer de algumas coisas suas?

– Não, por quê?

– Porque eu e Marco Aurélio estamos ajudando uma família muito pobre que perdeu tudo em um incêndio. Eles frequentam o templo do Marco Aurélio e –  interrompo-a antes que consiga prosseguir:

– Mãe, você quer dizer o templo em que o Marco Aurélio trabalha, certo? Porque o templo não é dele! Ele não é o dono do templo!

– Sim, Anna Lara! Você entendeu muito bem! Ele está à frente deste templo há muitos anos e… – tia Amélia chega na melhor hora, na hora em que minha mãe começa com seu discurso para defender o marido pastor.

– Meu amor!!!!! Vem cá dar um beijo nessa sua tia velha!!! – tia Amélia, como sempre, super expansiva e querida! Corro para seus braços com uma carência enorme, de um alguém que estava faminto por beijos e abraços sinceros…

– Tia! Que saudade!!!! Como você está? Cadê o Agnaldo?

– Ah! Ele está em casa, vendo televisão como um preguiçoso! Deve estar tomando a sua cervejinha de sempre… você sabe, né? Aquele ali adora uma geladinha e uma tv!

– Sei, tia… 

Passamos uma manhã quase agradável, com exceção do calor insuportável no Rio de Janeiro em pleno mês de maio, e dos comentários maldosos da minha mãe, que sempre que podia tentava atacar o Jota e minha relação “promíscua” com ele…

Conforme suas próprias palavras, em um momento que antecedeu o auge do calor infernal de meio-dia e com a acidez usual do tom de voz que ela usa quando se refere à minha relação com o Jota, ela começou a me atacar: “você traiu a Heidi, em uma cena de libertinagem sem fim, expondo seu corpo ao pecado da carne e a sua mente a um abismo incalculável. Você é fraca e promíscua, e depende do sexo com o Jota para se alimentar de toda forma de baixeza e devastação”. Depois desse discurso descabido só me restou lembrá-la que ela própria traiu o papai com o Marco Aurélio, pastor do novo templo que ela havia começado a frequentar, quando ainda era casada com o “Maneco”. 

Terminamos o momento familiar com gritos e xingamentos em plena praia de Ipanema. Minha mãe deu o show dela à parte, chorando e se fazendo de vítima, como sempre! A verdade é que minha mãe não aceita traição em nenhuma hipótese e se ofende todas as vezes em que meu pai, ou eu, dizemos que ela o traiu. Porque a verdade é que a minha mãe não aceita os pecados dos outros, mas os dela, ela prefere esconder de si própria…

Próxima leitura -> Capítulo 24

***

Trilha Sonora: Ode To My Family – The Cranberries

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