Capítulo 22

Mergulho em um abismo conhecido, com rochas e espaços vazios que ecoam no fundo da minha alma solitária, até alcançar a superfície áspera do parquinho da Praça Nosa Senhora da Paz. É ali, no meio de pombos e balanços enferrujados que me distraio com a Vó Lia em meio aos raios de sol que buscam alcançar meus cabelos loiros e ralos. Distraio-me correndo em volta do banco da vovó sem me preocupar com o passar das horas, sentindo a brisa gelada do fim da tarde refrescar as maçãs do meu rosto, em esquálidos flagelos de alegria. É véspera do aniversário da Caroline, mas ela não está aqui. Ela está no Dr Ulisses, porque está doente. A Caroline vive doente… não sei por que ela não toma aquele remédio da mamãe, aquele que ela diz que tem uma coisa que faz melhorar de tudo. Pergunto para a Vó Lia que horas vamos ver a Caroline e ela me dá um sorriso triste, um igual ao que ela dá para a tia Amélia quando elas discutem.

Percebi que não conseguiria viver longe dele, mesmo que isso significasse viver longe da Heidi… pedi perdão para minha companheira de quatro anos de caminhada. Disse que meu amor por ela não havia acabado, mas que precisava viver de novo essa história com o Jota. Me sinto incompleta desde o aborto que eu provoquei, o aborto que matou o Miguel e um pouco de mim. 

Não queria partir; não queria ir embora da vida dela, mas fui. Era egoísta demais para deixar o Jota de presente para essa ruiva satânica que o roubou de mim. Era pequena, humana e orgulhosa o suficiente para voltar para a guerra, para entrar novamente no campo de batalha e derrotar aquela que me apunhalou pelas costas. Queria devolver o veneno que ela me deu de presente depois de tantas consultas, no tratamento psiquiátrico que me alijou da minha realidade e me deixou alienada da gratidão de tudo o que eu tinha. 

Precisava voltar. Não sabia exatamente a dimensão desse amor que eu ainda sentia pelo Jota, ou do sentimento que se formaria a partir da nossa nova união, afinal, os quatro anos ao lado da Mariana e da sua filha Rebeca (fruto do seu relacionamento-relâmpago com a Joana, a namorada-japonesa do seu amigo de noitadas e drogas) fez com que o Jota evoluísse para um nível que eu ainda não conseguia acessar ou entender.

Fiz as malas com um sentimento real de dor; escolhi o meu conjunto Dolce & Gabbana e coloquei um pouco de tudo que tinha o cheiro dela, o cheiro de Heidi, que me faria voltar para seus braços ternos toda vez que me sentisse isolada em uma cama enorme demais para dois promíscuos fracos de alma e de caráter.

Não levei mais nada a não ser o meu anel de diamantes que ela me havia presenteado na nossa viagem a Londres, no restaurante “The Shark”, ao som de Adele e com todo amor que existia no mundo exaltado no olhar simples e esverdeado da mulher com os traços da Kate Winslet.

Me doeu tanto, tanto, que em todo momento em que caminhava no aeroporto ao lado do Jota me questionava se estava fazendo o certo. Já não tinha certeza do que sentia ou do que queria…

Parei em um café para tomar um pouco de ar, fruto da minha agonia que voltava a me afligir. Concentrei-me em um ponto fixo no horizonte, conforme orientado pelo meu psicólogo de Amsterdam, e escolhi uma mulher que estava de costas, com um casaco cinza e um gorro preto. Ao se virar, a mulher me olhou e retirou o gorro, fazendo aparecer a sua vasta cabeleira ruiva, cor de fogo. Essa imagem me remeteu imediatamente ao demônio ruivo, à maldita Mariana Kauffmam, aquela vaca nojenta que se utilizou das minhas confissões em seu consultório de psiquiatra para se excitar com as orgias privadas que eu tinha com meu marido e, pelas minhas costas, fazer o mesmo!

Nesse exato momento eu tive certeza de que precisava voltar. Precisava ocupar novamente a minha posição e mostrar para ela que tudo o que ela tirou de mim não seria nada diante do que eu ia tirar dela: a vida dela, o Jota e o seu lindo filho ruivo e circuncidado.

Segui, então, em passos firmes até a minha nova vida. Seria fiel a mim, acima de tudo. Levaria no peito o Miguel e a Heidi, na esperança de, um dia, quem sabe, reencontrá-los. Do lado daqui ou do lado de lá…

Jota abriu seu sorriso mais lindo, um daqueles que faz qualquer mulher se emocionar, e me abraçou demoradamente. Não era um simples abraço de conquista, era um abraço de perdão. Ele havia, finalmente, entendido todo o mal que fez a mim. Havia reconsiderado toda a sua vida e estava disposto a me entregá-la. Ele parecia confiar em mim, mais até do que eu mesma confiava… 

Mas, apesar de estar voltando para o lar que sempre foi meu, a sensação que me acompanhava era como se tivesse acabado de ganhar uma medalha, uma muito preciosa, de ouro maciço e reluzente, mas igualmente pesada e incômoda…

*

Vamos direto para o nosso ex-apartamento, que agora é meu, mas que em breve voltará a ser nosso. Jota me pediu para nos casarmos assim que sair o divórcio dele com a Mariana. Ele quer se casar com comunhão total de bens, onde todos os bens de ambos passam a ser compartilhados integralmente. Foi uma das condições que ele impôs: fazer com que tudo fosse compartilhado, desde bens materiais até os filhos dele. Eu acho que foi uma forma esperta de me pedir para abrir mão do meu orgulho e aceitar seus filhos como parte da nossa família. Entendendo que tudo será dos dois, os filhos dele, frutos da traição nefasta que ele impôs à nossa relação, serão inseridos automaticamente, sem maiores inconvenientes.

É claro que eu não vou aceitar os bastardos como membros da minha família! Meu filho com o Jota se chama Miguel e sua memória estará para sempre viva no meu coração e nas minhas lembranças. Colocarei sempre uma vela para recordar a sua morte e fazer valer a sua importância dentro da nossa família. Os bastardos serão, sempre, bastardos. Meros convidados na nossa casa e na nossa vida. Serão uma fonte inesgotável de gastos e inconveniências que se dissipará assim que crescerem. E, a medida em que crescerem, serão eles, a Rebeca e o Davi, excluídos de tudo o que for importante para o Jota, a começar pelo aniversário dele, que a cada ano comemoraremos em um país diferente.

Ele mora atualmente com a Mariana em um condomínio de casas na Barra da Tijuca, chamado “Condomínio das Mansões”. Na verdade, é um pedaço do paraíso no fim do mundo, em um endereço do inferno que se tornou o lar do Jota e da ruiva satânica… penso nele morando em uma casa com filhos correndo pela grama, com cachorros e empregadas fazendo waffles para o café da manhã. Penso nos ovos mexidos que ele costumava fazer para mim… será que ele fez muitos para a Mariana? 

Pensamentos fúteis e egoístas invadem a minha mente e me fazem duvidar do que eu sinto por ele neste momento. Será que é amor genuíno ou apenas uma forma de recuperar o que era tão meu e que eu não me dei conta de que alguém, um dia, poderia roubar? Será o meu ego que está gritando para abraçar algo que nem eu mesma sei se quero tanto assim? Mas o Jota ainda é o pai do meu filho… vivo ou morto, ele é o pai do Miguel e eu não posso deixar que a minha família se despedace por completo. Tenho que reaver meu casamento, ainda que cheio de cicatrizes, ainda que quebrado em sua essência…

– Anna Lara, esse apartamento está parecendo um mausoléu…

– Está assim porque está fechado há muito tempo, Jota.

– O que você acha de reformarmos?

– O quê? Reformar? Mas você adorava o apartamento assim, desse jeito… foi você quem escolheu todos os móveis e a decoração “clean”, com os quadros no chão e a cômoda chinesa.

– Por isso mesmo, meu amor! Agora eu quero que você escolha a nova decoração. Quero algo colorido e bem mais tradicional. Vamos chamar a Amanda, aquela arquiteta que fez a casa do Ronnie e da Melissa?

– Aquela que você “comeu” na inauguração da nova casa deles no Itanhangá?

– Eh… ok. Escolhemos um outro arquiteto, um homem, que tal? – Ele abre seu sorriso lindo e eu não resisto a uma implicância:

– Pode ser uma mulher, você esqueceu que agora eu tenho uma queda gigante por mulheres? – Falo me referindo à Heidi, minha paixão que eu deixei em Amsterdam para segui-lo.

– Então melhor escolhermos uma velha, bem velha! – E começamos a rir um do outro em um compasso de alegria e diversão, sem nenhuma pretensão de seguirmos com cenas quentes de sexo. 

Vou até a cozinha e busco uma garrafa de champagne para brindarmos a nossa volta. Ao voltar para o quarto deparo-me com ele fumando um cigarro de haxixe e algumas outras coisas que não consegui distinguir pelo cheiro, mas que me seduziram e me levaram de volta para a cova psicologica que jamais me deixou livre…  

Mergulho em um abismo conhecido, com rochas e espaços vazios que ecoam no fundo da minha alma solitária, até alcançar a superfície áspera do parquinho da Praça Nosa Senhora da Paz. É ali, no meio de pombos e balanços enferrujados que me distraio com a Vó Lia em meio aos raios de sol que buscam alcançar meus cabelos loiros e ralos. Distraio-me correndo em volta do banco da vovó sem me preocupar com o passar das horas, sentindo a brisa gelada do fim da tarde refrescar as maçãs do meu rosto, em esquálidos flagelos de alegria. É véspera do aniversário da Caroline, mas ela não está aqui. Ela está no Dr Ulisses, porque está doente. A Caroline vive doente… não sei por que ela não toma aquele remédio da mamãe, aquele que ela diz que tem uma coisa que faz melhorar de tudo. Pergunto para a Vó Lia que horas vamos ver a Caroline e ela me dá um sorriso triste, um igual ao que ela dá para a tia Amélia quando elas discutem.

– Minha filha, a Caroline está melhorando e você vai vê-la quando ela sarar. Agora ela está no hospital com a mamãe e o tio Marco Aurélio, mas já já vocês vão se encontrar minha pequena.

Vejo meu pai se aproximar de nós com o sapato que usa para trabalhar e um cigarro nas mãos. Vó Lia balança a cabeça e diz: “- 5 minutos Maneco! Nem um segundo a mais. Não quero ter problemas com minha filha por causa de você!”

Ele se abaixa e me entrega uma margarida pequena e ordinária, arrancada do jardim da praça, às pressas, para me presentear. Agradeço o presente e devolvo um abraço genuíno, cheio de saudade e amor, mesmo sem entender o que estava se passando naquele momento. 

Foi um dia que ficou marcado na minha memória porque foi a última vez que vi meu pai em muito tempo. Ele foi trabalhar em outro estado e se afastou de mim e da Caroline até o meu aniversário de 9 anos, quando fui morar com a Vó Lia e ele veio passar o Natal conosco…

– Anna Lara! Acorda!  – As mãos pesadas do Jota  machucam a pele flácida das minha bochechas em um ato desesperado para me acordar de mais um pesadelo. 

– Devo ter entrado em uma “bad trip”, Jota. Não precisa se preocupar. Você sabe que sempre tenho esses pesadelos…

– Com o que você estava sonhando? Com a “Moça” de novo?

–  Não… estava sonhando com a minha Vó Lia e com meu pai. Estranho… há tanto tempo não vejo meu pai. Acho que vou ligar para ele. 

– Achei que você estava passando mal, você estava gelada e imóvel; sua respiração estava muito fraca, com se estivesse desmaiada.

– Minha pressão deve ter caído, Jota. Você sabe que tenho pressão baixa… vamos esquecer isso! Quer comer alguma coisa?

– Anna Lara, tenho que ir para casa. Ainda não conversei com a Mariana…

E a triste realidade bate à minha porta! É a verdade que me machuca e me faz encarar a minha vida atual: a espera do amor da minha vida, que agora vai para a sua casa, abraçar a ruiva satânica que eu tanto devo… falta-me ar e começo a bocejar instantaneamente, buscando um alívio que demora para chegar. Corro em direção à minha bolsa, na esperança de encontrar a minha bombinha de emergência e lembro-me agora que a deixei no aeroporto de Amsterdã, na cesta de objetos que não podiam embarcar já que não estava com a receita do médico… desespero-me no compasso dos minutos que começam a se deslocar na corrida das horas ingratas e peço que Jota ligue imediatamente para uma ambulância para me socorrer da angústia que eu mesma fabriquei. Ele resolve ligar para uma farmácia, e pede meia dúzia de bombinhas para uma asmática funcional.

Envergonho-me da cena que fiz e tento recompor-me para me despedir adequadamente do meu Jota, sem que ele ache que resgatou uma histérica europeia e resolva me “devolver” para a Heidi… beijamo-nos apaixonadamente e combinamos de nos encontrar amanhã, aqui no apartamento. 

Próxima Leitura -> Capítulo 23

***

Trilha sonora: Jeremy – Pearl Jam

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