Vigésimo-Primeiro Capítulo

“Sem falarmos sequer uma palavra nos aproximamos e, como em um filme, nos agarramos violentamente e desorientadamente. Sem o menor pudor nos tocamos com o desespero que pessoas famintas tocam uma comida depois de um longo jejum. Com sede da saliva que cada um compartilha com seus outros pares, nos saciamos e a degustamos. Nos chupamos, trepamos. Ele me meteu mais do que em uma década inteira de vida. Me estuprou o rabo enquanto esmagava meus mamilos. Me teve na sua sintonia durante todo o momento em que sua língua habitava meu sexo. Deteve-se ali por muitos segundos, talvez horas… não sei. Esperamos o dia amanhecer para vê-lo através das frestas de nossas dobras amassadas; e, em nosso suor fétido, pudemos experimentar todos os ácidos desejos dos nossos excrementos mais sexuais possíveis. Fomos ao limiar da loucura com nosso toque, como se a vida parasse para nos deixar passar em pleno dia de carnaval. Era o carnaval de todos os demônios enlouquecidos por sacanagem que nos aplaudiam no enredo desse drama. Era ela, a minha pomba-gira, que gritava na cama junto comigo, em mais do que doses certas de sexo puto e ordinário, em doses cavalares de sexo promíscuo, no templo sagrado dos nossos corpos.”

… e assim despedi-me de mim: com dor, traição e sofrimento. Fui fraca mais uma vez em busca da droga que me levava sempre ao mesmo inferno. Busquei meu veneno cotidiano chamado Jota e gelei as extremidades do meu corpo em busca da nicotina que inunda meus pulmões cada vez que o toco.

Sou eu, em uma versão menor e mais fraca que agora anseia voltar ao seu mestre; aquela Anna Lara pervertida, pequena, vulgar. Um ser promíscuo, escondido nos arbustos da minha culpa, inalando ódio e perversidade por todos os poros, uma assassina devassa; um alguém descartável e sujo. Uma amostra das obscenidades mais profanas do ser humano; um demônio em forma de mulher, uma vítima de si própria.

Descobri que somos melhores quando estamos acompanhados dos nossos amigos de caminhada, do povo cigano que ressurgiu das cinzas da nossa desgraça, que se encontrou sóbrio no derramamento de sangue que ensejamos ao toque descompassado de regozijo e plenitude, que clamou por nós entre sorrisos e olhares desconexos. Somos nós, em uma versão promíscua e finita que clama pela misericórdia de outros, mas que só se acalma com as nossas mãos perversas de desejo, que entregam prazer e sanidade a quem tanto padece deles. Somos nós em uma sintonia difícil de explicar, mas intensa como as partituras da nossa vida…

22 de dezembro de 2010

Acordamos em meio à lençóis sujos de felicidade e gozo. Estou cansada, mas me sinto bem, muito bem. Tive uma noite de rainha em meio a um deserto de fome; foi o que senti enquanto estava longe do Jota: “fome”. Fome de ter seus braços envolvendo meu corpo, fome de sentir o seu cheiro, o seu calor, o seu corpo… tive fome de tudo o que remete a ele, meu enorme e absoluto amor. Sou tão “eu” quando estou ao lado dele, tão Anna Lara em uma versão milhões de vezes mais ousada. É uma sintonia que não se explica, apenas se sente.

A campainha do quarto toca e Jota abre repentinamente a porta, fazendo com que o entregador jovem e tímido se assuste ao perceber que eu estou nua na cama;  é um velho hábito do Jota fazer com que outros homens admirem a mulher dele deitada nua na cama. O entregador deixa, constrangido, o carrinho na antessala e sai correndo em direção à porta, quando é abordado pelo Jota, que pede desculpas pela cena, já entregando uma nota de 100 dólares americanos ao jovem rapaz europeu…

Jota vem ao meu encontro com um sorriso de canto de boca que salienta suas marcas de expressão, já aparentes pela idade. Ele se tornou um homem mais lindo ainda, apesar do rosto marcado pela ação do tempo, pelo uso de drogas e pela vida incrivelmente agitada que sempre levou. Seu corpo já não sustenta os músculos esculpidos pela prática do jiu-jitsu, surf e alguns esportes radicais; agora está mais magro e seus pelos e cabelos já começam a exibir um tom prateado, com pequenas partes mais ralas que outras e duas entradas bem marcadas próximo ao topete generoso que sempre o acompanhou.

É um Jota Jr mais maduro que vejo à minha frente, mais parecido com o Garcez, seu amigo espanhol mais velho que ficava admirando as orgias privadas que fazíamos sem tocar uma viva-alma, sem participar do emaranhado de corpos que se exprimiam em busca do prazer puto e vulgar que compartilhavam os amigos de noitada.

O olhar contemplativo sugere que seus pensamentos voam longe de sua próxima fala, que seus planos são mais secretos que a superfície da sua trama e que o espaço recluso das suas ideias não será compartilhado com mais ninguém.

– Anna Lara, vamos conversar sobre nós?

– O que temos para falar, Jota? Você ainda está casado e eu também.

– Pois é… é exatamente isso que temos que falar. Quero você ao meu lado, da for que for boa para você…

– Você está me pedindo em casamento de novo? Quer que eu me separe da Heidi? – Por alguns instantes minha garganta seca e sinto um nó no meu estômago. É o que mais quero escutar, mas tenho medo de que não seja exatamente isso que ele tenha em sua mente enigmática.

– Quero você; não sei como podemos fazer isso, mas sei que sinto sua falta…

– Então não estou conseguindo entender o que você quer, Jota!

– O que você quer, Anna Lara? Porque não começa dizendo o que você quer da nossa relação?

– Eu não sei, Jota! Não sei mesmo… eu… eu ainda sinto…

Nesse momento ele me puxa para dentro do seu abraço, agarra meus cabelos com força e diz: – Eu te amo, Larica! Sempre te amei e sempre vou te amar… – Lágrimas começam a saltar dos meus olhos e entrego-me totalmente para ele, quase que implorando para que o rumo da minha vida seja, de novo, guiado por ele.

– Eu também te amo, Jota! Sinto sua falta… eu quero muito tentar de novo. Mas depois de tudo…

– Anna Lara, você quer manter nossa relação em segredo por mais algum tempo? Quer se encontrar comigo aqui todo mês?

Meu coração passa a bater mais devagar agora. Cadê aquele Jota entusiasmado que faria de tudo para me ter só para ele? Pelo menos na parte que se refere ao nosso sentimento…

– Jota, você fica bem com isso? Me dividir com a Heidi não vai te incomodar em nada?

Depois de um sorriso largo ele me devolve uma pergunta: – E você se sente dividida? Você acha que, nesse momento, nesse quarto, nesse exato instante eu estou te dividindo com ela???

– Estamos juntos desde sempre Anna Lara! E isso não vai mudar nunca. Eu sinto tesão por outras pessoas, mas você é a minha mulher. Sempre foi. Então não existe isso de “dividir”. Esse papo careta não nos pertence… é algo que os outros fazem questão de manter para delimitar seu espaço, para tornar sua propriedade o bem amado. Isso é hipocrisia!

– As pessoas se organizam desta forma, Jota. Não podemos mudar toda uma sociedade em pleno 2010! Você tem dois filhos agora, que ideia de casamento você quer passar para eles?

– Anna Lara, não estou nem te reconhecendo…

– Eu é que não estou te reconhecendo, Jota! Você quer que eu seja sua amante, no final das contas! E eu me recuso a ser amante do meu ex-marido! Do ex-marido que me engravidou, depois me convenceu a abortar nosso filho deformado e acabou me traindo com a minha psiquiatra!!!

– Anna Lara, vamos parar de discutir. Não vim aqui para isso… desculpe se te fiz tão infeliz! Talvez seja melhor você voltar para a sua mulher, então.

Era o que eu deveria ter feito. Era o que eu precisava ter feito. Mas não foi o que eu fiz…

– Não, Jota. Eu concordo, exagerei! Vamos voltar a conversar sobre o nosso futuro e deixar o passado no lugar dele, ok? – neste momento entrei em uma seara muito perigosa com o Jota: entreguei as cartas para o malandro dele jogar, abri meu coração e declarei minhas intenções. Mostrei o quão fraca me torno ao lado dele e de como me contentaria com qualquer migalha do seu amor.

– Anna Lara, vamos fazer assim: você vem comigo para o Rio e eu alugo uma casa para nós, até conseguir resolver a minha situação com a Mariana. Está bem assim?

– Você vai se separar da Mariana para ficar comigo?

– Sim, vou. Só preciso de um tempo para organizar tudo, afinal, ela é a mãe do Davi e a madrasta amada da Rebeca…

– Jota, eu não vou atrás de você desta forma. Não vou me submeter a ser sua amante, não depois de tudo que vivemos!

– Você pode me ajudar a resolver esse assunto de uma forma adulta? Podemos terminar com nossos pares de uma forma decente, sem causar mal estar para elas e, principalmente, para as duas crianças que nada têm a ver com isso?

Pareceram-me sensatos seus argumentos e resolvi ceder. Afinal, não poderia impedir que o Jota agisse de forma decente; se é que “decente” seja, em algum momento, uma palavra apropriada para ele…

Resolvemos ficar juntos até a hora nos chamar, irritada, para voltarmos às nossas obrigações conjugais. Heidi já havia mãe ligado umas 30 vezes, todas seguidas de uma mensagem malcriada na caixa de recados; achei por bem voltar para minha casa e encarar a mulher que me havia dado mais luz que minha própria mãe… precisava dizer a ela que ia seguir por outro caminho, para algum lugar em que ela não estaria. Não sabia ainda como falaria isso, se conseguiria ser sincera o suficiente para admitir minha fraqueza…

Despedimo-nos com um beijo quente e molhado, daqueles que me tiram o fôlego e que me trazem de volta para a vida. Senti o cheiro do homem que tanto amo, que tanto desejo; matei as saudades do corpo que reconheço como minha própria morada, que me abrigo e me refugio em todas as vezes que preciso atingir o orgasmo proibido, aquele cheio de bossa e ginga, com reflexos de culpa e desejos encobertos…

***

Trilha Sonora: Try – Pink

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