Vigésimo Capítulo

… entre aspas, posso me deliciar com o prazer pecaminoso que é entregar o que minha mente suja arquitetou para o seu prazer, sem pudor em admitir que a minha desonra moral será completamente castigada, na moldura limitante da sua cama sagrada.

Sete semanas depois…

Ouço um barulho de e-mail chegando. Entro na caixa de correio sem expectativas… e vejo que é do Jota! Quando abro o e-mail, vejo somente uma aspas aberta e três pontinhos. Um frio percorre todo o meu corpo e as lágrimas insistem em brotar dos meus olhos. Ele está fazendo referência a uma de nossas poesias, a poesia: “Entre Aspas”.

“Entre aspas escondo a minha sinceridade e deixo nas entrelinhas o que não posso dizer, mas posso fazer. E faço, com dois ou três dedos, dentro do abismo que existe entre a minha consciência e o meu desejo. Porque só mesmo entre aspas consigo me encontrar dentro de você de forma autêntica. E, entre aspas, posso me deliciar com o prazer pecaminoso que é entregar o que minha mente suja arquitetou para o seu prazer, sem pudor em admitir que a minha desonra moral será completamente castigada, na moldura limitante da sua cama sagrada. E se quero seu corpo mais profundamente do que jamais quis outro, quero-o sem pressa e sem censura. Mas o quero entre aspas, despido e desnudo de toda a sua proteção, e entregue em meias verdades a serem contadas aos poucos… entre aspas”.

A nossa história volta com um turbilhão de pensamentos. Será que eu não deveria ter dado uma chance ao nosso amor? Será que eu teria sido assim, tão infeliz, se tivesse ficado ao lado do meu amor? Sinto tanto cheiro de sexo nos arredores da minha nova vida, que não consigo me despir da minha sujeira moral e me deitar tranquila na minha cama de espinhos. Sou a causadora do meu inferno e dele nunca vou conseguir sair! Afundo-me cada vez mais no abismo em que minha alma insiste em se jogar…

Respondo ao e-mail com o mesmo conteúdo:

“…”

E ele me responde com um bonequinho sorrindo: 🙂

Eu respondo:

– Parabéns pelo nascimento do seu filho. Fiquei feliz em saber que você é pai de novo… – Merda! Não devia ter escrito isso! Anos sem falar com ele e coloco justo esse demoniozinho judeu ruivo no nosso meio???

– Saudades de você, Anna Lara. – Meu Deus! Meu coração parece que vai sair pela boca! Não me aguento dentro de mim! Isso deve ser obra dela, da minha Maria Scarlet já trabalhando nos meus pedidos!

– Me too.

– Vou para Holanda amanhã. Podemos nos encontrar?

Podemos. Em qual hotel você vai estar?

No InterContinental Amstel Amsterdã. – O melhor hotel de Amsterdã…

Ok. Te encontro na quinta lá às 12 horas e almoçamos juntos, pode ser?

Por que não amanhã à noite? E jantamos juntos? – Ui! Me arrepio inteira com a proposta.

– Ok! Que horas você chega?

– Às 21h. Te vejo às 23h no hotel?

– Ok. Nos vemos amanhã, então. Boa viagem.

– Vai ser… Ótima, aliás. Bj, bj, bj

Quase não me aguento em mim! Estou a ponto de explodir de tanta felicidade! Há tempos não sentia algo parecido… quero-o muito, muito, muito… não consigo dormir de tanta excitação. 1h20 da manhã de quarta. Ele deve estar embarcando… levanto-me da cama em direção à sala. Imagino-me na nossa sala no Leblon, no Rio. Nesse momento, estou dançando balé, nua, só para ele. Curvo-me para apoiar minhas mãos na bancada branca de pedra sabão marroquina de 1760, que suporta a enorme TV de 65 polegadas. Com as mãos apoiadas à frente, meu rabo fica exposto em um ângulo perfeito para ser explorado. Jota desce sua língua o máximo que pode até alcançar meus lábios já encharcados de prazer, continua a se movimentar até introduzir seu nariz nas profundezas da minha alma suja e, quando já não me resta alternativa, imploro por seu pau duro no âmago do meu corpo depravado. Gozo milhões de vezes em um segundo. Não consigo parar de me contorcer. Rudolf já havia me falado, mas eu não acreditei. Lembro-me de suas palavras sobre a verdade do gozo:

“A expectativa do gozo é sempre a melhor parte do sexo. Não transamos para gozar; transamos para alcançar o grau de excitação máxima que existe entre uma mente suja e um corpo em ascensão erótica. O prazer é sempre mais mental do que carnal. Somos todos pedaços de carne ambulantes com muito mais adrenalina sexual do que nos alcança o corpo. Somos receptores de uma energia que não está aqui, que recebemos e mandamos de volta. Somos pedaços de um todo mal-acabado. De um prazer que nos é concedido a cada segundo em que chegamos perto do gozo humano…”

Acabo de gozar no chão, no tapete persa que a Heidi tanto ama. Acabo de gozar para o meu ex-marido em um sinal de total desrespeito ao nosso templo sagrado. Mas minha mente não está aqui. Nem meu corpo. Eu não pertenço mais a este lugar. Estou completamente apaixonada pela ideia de ser de novo propriedade do Jota Jr. Adormeço ali mesmo, com meu copo de Blue Label e mais de dez cigarros, que me ajudaram a acalmar a minha conturbada mente. Acordo no dia seguinte com taquicardia, acho que o excesso de cigarros atacou a minha asma psicológica. Heidi me havia proibido de usar a bombinha de asma porque descobriu, por meio de vários exames,que eu realmente não tenho asma. Que é tudo um efeito psicológico devastador, que me faz crer que o ar está faltando em meus pulmões,quando na verdade não está. Mas é tão real para mim. Eu realmente sinto essa falta de ar. E agora estou sentindo mais do que nunca. A cada hora que passa em meu relógio, minha respiração fica mais prejudicada. Fumo um cigarro inteiro de maconha, mas me nego a tomar meu Rivotril. Não quero estar sonolenta quando encontrar o meu amor. Quero estar inteira para ele.

O telefone toca. É a Heidi. Diz que vai adiantar o voo para ficar comigo. Mas eu não quero! Não digo nada. Não sei o que dizer. Acho que qualquer coisa que eu disser agora vai me comprometer. Prefiro fugir. Fugir para os braços do meu Jota Jr. Desculpe-me “Kate”. Não quero magoá-la, mas simplesmente não consigo não ir ao encontro do Jota. Preciso desse encontro. Preciso dele com a mesma necessidade que uma mãe precisa do filho recém-nascido nos braços. Preciso dele hoje. E não consigo deixar de querer esse encontro. Não há culpa que me faça declinar do meu compromisso de hoje. Eu dependo desse encontro para continuar a viver.

As horas passam e já se aproxima o horário das 20h. Penso em fazer uma reserva no mesmo hotel para poder me arrumar com calma e depois, quando ele sair, ir para o quarto se eu quiser; ou, ainda, posso esperar pelo horário e subir direto para o quarto dele… não! Melhor não… não sei o que fazer. Olho o relógio de novo: 20h17. Meu coração acelera mais ainda. Melhor me arrumar aqui mesmo. Merda! Minha depilação está totalmente fora do contexto. Jota odeia pentelho. Mas aqui não existe método de depilação como no Rio. Vou fazer com a lâmina mesmo. Raspo-me inteira, não deixo nem rastro do que havia aqui. Heidi com certeza vai saber o que aconteceu. Talvez por isso não me quisesse depilada. Não sei. Mas não me importo mesmo.

Saio do banho e coloco a minha roupa preferida. Não é a mais sexy nem a mais feminina. É a que mais tem a minha cara. Uma camiseta branca de mangas curtas com a estampa na cor cinza de uma mulher de perfil, com pequenos detalhes de brilho na moldura da foto. A blusa é um pouco transparente e justa, fazendo aparecer um pouco do meu sutiã roxo de cetim. Minha calça é o meu jeans True Religion, com detalhe no bolso traseiro, e minhas botas de soldado Perry Ellis complementam o visual sapata-militar. Percebo que os anos em que vivi com a “Kate” deixaram-me bem mais masculina do que antes. Já ia sair sem nenhum brilho nos lábios, sem máscara de cílios ou mesmo um pó compacto. Nãome preocupei com os brincos também. Sempre gostei de usá-los bem grandes, caindo nos ombros. Com a Heidi, passei a usar brincos menores e mais discretos, como pérolas e pequenos diamantes.

Resolvo mudar tudo e coloco meu vestido preto justo. Procuro meus scarpins, mas não os encontro, então, vou com os de cor bege da Heidi. De repente, vejo Maria Scarlet no reflexo do espelho do banheiro. Ela me pede para colocar a minha maquiagem e meu batom vermelho. Negocio colocar a maquiagem sem o batom vermelho. Não gosto de batom vermelho, prefiro batons cor de nude ou os brilhos da Lâncome. Acerto meus longos cabelos loiros com a ajuda do secador. E para finalizar um pouco do meu perfume preferido, uma mistura das essências Lime Basil & Mandarin, da Jo Malone, uma loja de perfumes exclusivos, que fica em Londres.

Coloco minha parka preta e sigo para o hotel. Chego antes, por volta de umas 22 horas. O recepcionista do hotel me dá as boas-vindas e pergunta meu nome. Imediatamente, após dizer Anna Lara, ele me passa o cartão que dá acesso à suíte presidencial e diz:

– Boa estadia, Sra. Tavares. – Típico do Jota! Já deixou o hotel todo sob aviso. Agora sou a Sra. Tavares, em Amsterdã, terra do Império do avô da minha mulher. Mulher essa que é conhecida em todos os cantos desta cidade. Médica-referência, dona do maior hospital, curadora do Museu Stedelijk, um dos mais completos museus de Arte Moderna de Amsterdã, no qual trabalho. Se continuar nesse ritmo, eu não só vou perder meu emprego, como também serei expulsa desta cidade. Mas irei feliz, ao lado do meu único e verdadeiro amor…

Subo no antigo elevador em direção à “Penthouse Suíte”, a melhor de todas as suítes do hotel. Ao abrir a porta do quarto, uma garrafa de champanhe Krug Brut David Sugar, da edição limitada de Krug Brut, que possui o desenho da “codorna sentada na árvore florida”, a preferida do Jota – é um dos champanhes mais caros do mundo, cuja garrafa custa em média 1.080 libras esterlinas.

Espero o Jota chegar para abrir a garrafa. Enquanto isso, vou atéa varanda superior para admirar a vista. Passados longos cinquentaminutos, escuto a porta bater. Meu coração acelera. Minha respiração para por alguns instantes.

– Anna Lara. – Escuto sua voz e me viro. Ele está ali. Lindo. De jeans, camisa preta colada, olhos famintos, ávidos por mim. Está mais velho, com algumas rugas no entorno dos olhos e um pouco mais de cabelos grisalhos no contorno da cabeça, próximo às orelhas. Os fios prateados só lhe conferem mais estilo ainda, mais classe.

Sem falarmos sequer uma palavra nos aproximamos e, como em um filme, nos agarramos violenta e desorientadamente. Sem o menor pudor nos tocamos com o desespero que pessoas famintas tocam uma comida depois de um longo jejum. Com sede da saliva que cada um compartilha com seus outros pares, nos saciamos e a degustamos. Nos chupamos, trepamos. Ele me meteu mais do que em uma década inteira de vida. Me estuprou o rabo enquanto esmagava meus mamilos. Me teve na sua sintonia durante todo o momento em que sua língua habitava meu sexo. Deteve-se ali por muitos segundos, talvez horas… não sei. Esperamos o dia amanhecer para vê-lo através das frestas de nossas dobras amassadas; e, em nosso suor fétido, pudemos experimentar todos os ácidos desejos dos nossos excrementos mais sexuais possíveis. Fomos ao limiar da loucura com nosso toque, como se a vida parasse para nos deixar passar em pleno dia de carnaval. Era o carnaval de todos os demônios enlouquecidos por sacanagem que nos aplaudiam no enredo desse drama. Era ela, a minha pomba-gira, que gritava na cama junto comigo, em mais do que doses certas de sexo puto e ordinário, em doses cavalares de sexo promíscuo, no templo sagrado dos nossos corpos.

Continua…

FIM DA PARTE I

Próxima leitura -> PARTE II

***

Trilha Sonora:  Como Eu Quero – Paula Toller

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