Capítulo 19

Era o meu vício: estar sedenta por mais formas de sexo vulgar. Por conhecer além do que o corpo pede, conectar-me com esse lado promíscuo que havia em mim…

Durante as sete semanas que seguem…

Nesse período, que corresponde a exatas sete semanas da minha vida, nem mais nem menos, descobri o que me havia levado até Amsterdã e o porquê do meu envolvimento com Heidi. Os rumos da vida do Jota e sua filha-demônio não me perturbavam naquele momento, assim como as ausências ocasionais da Heidi para trabalhar ou estudar. Nem mesmo a minha própria inutilidade profissional me incomodava mais. Nada em torno da minha vida tinha tanta importância quanto a vida pregressa e imunda “dela”. Não me importava comer ou dormir. Não me importavam as horas em que eu me dedicava a cultivá-la. A única coisa da qual não prescindi nesse período foi a maconha. Era um canal natural para que eu pudesse me conectar a esse universo, como uma “chave” para acessar outro mundo…

E foi ali que, chapada de tanta maconha e afundada na minha poltrona de veludo verde, conheci o Rudolf. Numa sexta-feira chuvosa da mesma semana, eu estava novamente contemplando os olhares de prostitutas e clientes, que entravam esfuziantes e saíam embriagados e suados de seus recintos fétidos e desasseados, quando vi entrar esse homem alto, magro e com o rosto bem marcado com traços de rugas de expressão, que marcavam seus sofrimentos pregressos e suas dores mal resolvidas. Seu protuberante nariz entoava uma perfeita sintonia com seu visual sério e marcante. Seus olhos castanho-escuros hipnotizavam as pessoas, como se enxergassem além do corpo delas, marcando com extraordinário enigma as pessoas que cruzassem seu caminho.

Meu celular já havia tocado mais de trinta vezes com Heidi nervosa me procurando. Eu sabia que era canalhice sumir dessa forma e não a avisar. Sabia que não era digno fazer isso com a pessoa que me trouxe de volta ao mundo dos decentes, dos que creem, dos que têm fé nas pessoas que amam. Mas a verdade é que, apesar de estarmos vivendo juntas, eu não me considerava tão em dívida com ela – ainda. E eu não sabia como voltar. Era como uma droga, uma droga que me consumia pela curiosidade de saber o que havia por trás de toda aquela fantasia. Curiosidade por me perder um pouco mais nos caminhos escuros da promiscuidade que o Jota, indecentemente, me havia apresentado. Era o meu vício: estar sedenta por mais formas de sexo vulgar. Por conhecer além do que o corpo pede, conectar-me com esse lado promíscuo que havia em mim…

Ele me olhou fixamente e assim ficou por alguns minutos. Esses minutos pareciam uma eternidade. Me senti nua, invadida. Debulhei-me em lágrimas vaginais ao me sentir mais uma das putas desse prostíbulo moderno, à luz de tantos gozos e gemidos prazerosos. Quis ser mais uma delas, a deitar-me com esse completo desconhecido, só pelo prazer de tê-lo dentro de mim, em uma escala mais do que vulgar, em um momento de pleno abismo moral e impuro. Eu quis seu pau dentro de mim, como o náufrago que, cercado pela imensidão do mar, necessita de um gole de água para sobreviver na sua jornada pela vida. E o quis mais ainda pelo fato de ele ser velho e enrugado. Eu o quis para dar à minha genitália um pouco de “sujeira”, de verdade sexual, sem me esconder em músculos trabalhados por horas a fio em uma academia de ginástica, sem me perder em perfis físicos categorizados e preconcebidos.

Ele se aproximou de mim, estendeu suas enormes mãos e me disse em um francês com sotaque diferente:

– Parlez vous français?

– Oui — respondi.

– Brasileira?

– Sim, você também?

– Não, espanhol, mas com mãe brasileira… se importa de conversarmos no quarto?

– Não. Acho que você não entendeu, eu não…

– Entendi sim, “Mareu”. Entendi tudo. Não se preocupe, não vou tocar em você. Só quero conversar.

Eu sabia que era errado, que não deveria entrar ali. Mas, nesse momento, pela primeira vez em anos, consegui vê-la de novo. Ela, a “moça”, estava de volta à minha vida. Minha felicidade foi tamanha que não consegui esconder dele a companhia da minha amiga. Ele olhou para trás procurando o motivo do meu sorriso solto e, ao voltar o olhar castanho para mim com o mesmo sorriso, disse:

– Muito bonita sua amiga. Me acompanham as “moças”?

Ela me olhava com aquele olhar insistente, e eu não conseguia pensar direito. Foi quando entendi que ele também a via ali:

– Nós três vamos apenas conversar, te prometo.

E eu resolvi ceder. Subimos as escadas em direção a um dos quartos. Gerárd, o gerente, me olhou com profunda estranheza e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Rudolf entregou-lhe um grande bolo de notas de cem dólares e fez um gesto de silêncio. Assim, sem pudor e sem palavras, seguimos para dentro do quarto. Quando ele virou a chave, um frio intenso percorreu todo meu corpo até chegar aos meus pés gelados. Achei que fosse ser estuprada. Minha ousadia sexual terminara ali, em pleno Bordel da Red Light!

Ele se sentou na cama e retirou seus sapatos. Continuou a me olhar com o olhar indecente e faminto. Depois de alguns segundos disse:

– Olha, eu nem sei seu nome, mas sei que você não é uma prostituta. Obrigado por confiar em mim, mesmo sem nenhuma razão aparente para isso.

– De nada. Mas isso realmente é loucura! Não sei o que eu estou fazendo aqui. Sou casada e tenho que voltar pra casa…

– Não antes que eu faça o que vim fazer. Não se assuste, mas eu preciso conversar com vocês.

– Isso é loucura! Você está realmente vendo a “moça”? E como você sabe o apelido dela?

– Sei o apelido dela e sei o seu nome: Anna Lara. Sei muitas coisas sobre vocês… Bom, vou me apresentar: meu nome é Rudolf Bragança. Sou pianista da Orquestra Sinfônica de Berlim. Morei anos no Brasil quando era pequeno e conheci todo o tipo de cultos mediúnicos. Frequentei Centros de Umbanda e Candomblé, vi todo tipo de coisas do mundo oculto. Conheci várias formas de magia e me perdi nessa “transição de valores”, até entender que eu era um médium potente.

– Mas. O que você está falando? O que eu tenho a ver com isso?

– Sei que isso tudo pode parecer loucura, mas, por favor, me escute. Eu estaria preso a um desses Centros Religiosos se não tivesse feito um trato. Eu escolhi seguir minha carreira de músico, aproveitando o dom que me era enviado por meus mestres superiores e, em contra- partida, aceitei trabalhar para a mediunidade quando fosse solicitado. E é o que eu estou fazendo aqui. Estou te ajudando a entender o que se passa com você.

– Então, quer dizer que você veio até aqui só para me ajudar? — Um riso solto saiu da minha boca dormente do efeito da maconha que eu havia fumado há uma hora. Devo ter exagerado na dose do meu cigarro de maconha…

– Entrei aqui porque queria transar com essas prostitutas, pois tenho minhas perversões também. Quem não as tem, afinal? Mas meu mestre me pediu que eu me conectasse com seu perispírito e lhe desvendasse alguns mistérios que envolvem sua história cármica.

E foi assim que Rudolf tornou-se meu grande amigo de caminhada. Ele me explicou que Maria Scarlet é um espírito com pouca luz que vaga há mais de duzentos anos no plano intermediário entre os vivos e os mortos que transcendem. Ela não transcendeu, não pôde subir para outro plano até que alcançasse as “metas” propostas pela espiritualidade. No plano astral, tudo funciona à base de “pontos”, que são conseguidos por meio das ações de cada um neste plano. Quase como um colégio bem rígido, mas justo. Ele me explicou ainda que nada é tão definitivo no plano terreno, que ações “ruins” podem ser amenizadas com outras ações genuinamente “boas”. E que, diferentemente da teoria do “bumerangue”, na qual as ações negativas com outras pessoas voltam para a pessoa que as praticou, o acerto de contas não é feito neste plano, e o pagamento por tais ações vem depois. A consequência de fatos ruins neste plano seria apenas a energia captada na mesma frequência da intenção e ação negativas.

Enfim, entendi que são vários os fatores que movimentam o plano terreno, e que o plano astral não interfere tão fortemente quanto imaginamos. Que o livre-arbítrio é a artéria principal que nos guia por esta vida. As energias cósmicas são elencadas em diferentes níveis e dimensões e nos ajudam, em diferentes escalas, mas dependem de permissões para atuar entre nós. Os seres com menos luz são os que geralmente intervêm mais no nosso cotidiano, pois estão energeticamente mais sintonizados com a nossa vibração terrena. Por isso é tão difícil o mundo evoluir…

Mas o motivo pelo qual a Maria Scarlet me acompanha é um mistério que Rudolf não conseguiu — ou não quis — me desvendar ainda.

Terminadas as prévias explicações sobre o mundo espiritual que nos cerca, Rudolf pediu licença e saiu para sua dose diária de perversão no prostíbulo da Red Light. Tempos depois, descobri pelas meninas desta casa que sua perversão era ser possuído por três prostitutas, após receber algumas boas chicotadas em suas flácidas nádegas. Soube do fato e o guardei para mim. Jamais o deixaria saber que seu segredo havia sido revelado pela boca imunda das serviçais do sexo do distrito vermelho-sujo.

Combinamos, a pedido dele, de nos encontrarmos após seus ensaios no Teatro Municipal de Amsterdã. E todos os dias eu esperava ansiosa o horário das 18h para seguir em direção ao Teatro, só para poder respirar um pouco da vida “dela”, da Maria Scarlet, muito mais fascinante do que a minha vida miserável e incompleta… Heidi teve ciúmes de Rudolf, o que rapidamente foi contornado depois que lhe contei sua preferência sexual propagada constantemente no Bordel da Rua 17. Nunca fui mesmo muito boa em guardar segredos alheios, não seria agora que o faria… só esperava que Heidi soubesse guardar esse segredo melhor do que eu.

Próxima leitura -> Capítulo 20

***

Trilha sonora: Adele – Million Years Ago (cover) Feat. Scarlett Cherry and Jason Yang

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s