Décimo Oitavo Capítulo

…eram os meus pés culpados pelos caminhos tortos que eu havia seguido. E minha alma pouco evoluída não me deixava ver a luz em um local tão sagrado como esse.

Durmo e acordo no dia seguinte com a mesma sensação de vingança. Ela vai pagar muito caro por ter entrado na minha vida desse jeito, roubando-me uma parte de mim. Odeio-a tanto, tanto! Nunca mais vou conseguir tirar o nome dessa mulher da minha mente: o diabo Kauffmann. Como pude ser tão ingênua? Por que me entreguei dessa forma? Por que contei tudo a respeito da nossa intimidade? Da nossa intimidade de que ela se apoderou e tomou conta. Hoje ela deve fazer todas as indecências que fazíamos eu e o Jota. Mas duvido que na cama ela o satisfaça como eu fazia. O que ela entrega para ele é o status. Ela é alguém independente, importante. Tem dinheiro de família e dinheiro dela própria. Estudou medicina na UFRJ, uma das faculdades mais difíceis do Rio de Janeiro. É judia, como sempre quis a minha “ex-fútil-sogra”, vai dar a ele herdeiros legítimos, ruivos judeus circuncidados! Odeio-a com todas as minhas forças! Pecado ou não, eu só sei que a odeio… e quando sinto ódio eu começo a tremer… e sinto vontade de beber, de fumar e de cheirar. Sinto vontade de fazer tudo o que não se deve. E sinto vontade de transar. Transar mais e mais até a minha genitália arder. Só assim meu coração machucado consegue encontrar um pouco de paz. Já começo a sentir um pouco da vibração diabólica da minha pomba-gira, mas ainda não a vejo nem a escuto.

Tenho de buscar de novo a minha pomba-gira. Mas como? Penso na vó Lia e no “segredo de família” que ela guardava. Penso nas paredesque sangram do antigo apartamento. Penso nas energias ocultas que perseguem a minha família por anos. Tenho de resgatar esse elo, esse “eu”. Eu vou encontrar, em algum lugar da minha alma suja, uma forma de resgatá-la.

Havia me libertado da minha pomba-gira dois dias antes de embarcar para Amsterdã. Como havia combinado com minha mãe, fui mesmo ao culto no Templo Evangélico do Marco Aurélio. Ele não prega mais como Pastor dessa Igreja; na verdade, ele é o “dono” de lá e hoje recebe o nome de Bispo. Foi horrível. Lá o local é um templo de fé e de contemplação. Os fiéis saem “libertos” como se prega, mas para mim foi um local que me fez enxergar um lado escuro que habita em mim e que eu não consigo tirar. Vi ali a minha essência, parte do meu ser sujo e imundo nunca vai se encontrar com esse Deus que pregam lá. Esse Deus é um tanto preconceituoso e discriminatório. Não é livre como o meu Deus. Ou como eu imagino “Deus”. Lá eu encontrei um Deus que castiga, que pune os infiéis a ele. E tive de aceitá-lo perante o público que se apresentava diante do altar, com risco de ser amaldiçoada por todos, inclusive por minha mãe.

Subi ao palco ou, como o chamam, “altar”, no momento em que o pastor chamava os fiéis para a “libertação”. Nesse momento, o Pastor repreendia todos os espíritos malévolos, ou sem luz, que supostamente nos rodeiam e, em troca, entregava o verdadeiro Espírito Santo. Recebi uma carga de Luz muito forte. Foi lindo, foi sagrado. Mas hoje entendo que toda essa luz mexeu muito com a minha energia básica. Hoje consigo entender que a energia que movimento é a energia do chacra sexual, a energia mais básica, que é a fonte que rege as mulheres da minha família. Como sei tudo isso? Não sei. Simplesmente me apareceu na mente em algum momento, como se algum espírito tivesse me contado. Nesse momento, elevei-me à categoria que, na verdade, me enfraqueceu. Eu já não era mais a Anna Lara que sempre havia sido, já não tinha mais a fome de sexo selvagem que sempre havia tido, aquela vibração, aquele desejo. Saí de lá mais fria, mais seca. Minha vagina já não lubrificava tanto e eu não sentia necessidade de me masturbar todos os dias. Na verdade, antigamente, eu me masturbava sempre. Quase todos os dias desde os oito anos de idade, quando gozei pela primeira vez em cima do meu edredom fofinho de florescor-de-rosa. Eu era bem mais safada que quase todas as minhas amigas e sempre que podia falava em sexo. Tive curiosidade de fazer tudo o que estivesse relacionado ao tema sexual, e muito do que vivenciei no mundo sexual foi com o Jota. Ele me levou para caminhos que eu nem imaginava. E nunca me deixou sem um beijo, um abraço de conchinha, um carinho no meio da noite, ou mesmo uma poesia no dia seguinte. Foi ele quem me trouxe felicidade.

Voltando ao culto, o Pastor me pediu para dizer que eu aceitava Jesus Cristo como meu único Senhor, meu único Salvador. Eu O aceitei, é claro. Mas aceitava também outras formas de energia a me protegerem. E agora preciso de uma proteção mais carnal do que divina. Os assuntos da carne se resolvem mesmo em planos mais inferiores do que lá em cima, ao lado do Pai e da Mãe. Preciso das “primas” agora. Aliás, preciso de todo o exército de pomba-gira que possa reunir para destruir essa bruxa ruiva!

Esse é um mundo ao qual eu definitivamente não pertencia. Era como se algo dentro de mim gritasse ferozmente contra tudo o que era propagado no culto. Primeiro, a impressão que me deu das pessoas era de que nenhuma possuía algum grau legítimo de vaidade. Nunca fui uma mulher vaidosa propriamente, mas um pouco de cuidado com o corpo e com o que se veste é fundamental. Lá, todas as mulheres usavam saias abaixo do joelho e seus cabelos gigantes eram presos em rabos de cavalo baixos ou grandes “coques”; as maquiagens eram imperceptíveis e as estampas coloridas de roupas, provavelmente, compradas em feiras baratas, misturavam-se com o cheiro das colônias igualmente baratas compradas de promotoras de produtos de beleza. Tudo muito pobre e miserável dentro de um templo rico. Foi o que encontrei quando me juntei à religião salvadora da minha mãe, entoada pelo hino mágico do meu padrasto “charlatão”… sem sombra de dúvidas, existe nesse lugar uma energia poderosa que me deixou arrepiada desde o início. Não sei que tipo de energia é, mas, com certeza, não é uma energia do mal, uma energia pesada. Só que essa energia, definitivamente, não combina com a minha. Senti-me suja ao entrar nesse templo limpo. Era talvez limpo demais para os meus pés calejados por pisar em terreiros de Quimbanda e festas de pomba-gira… eram os meus pés culpados pelos caminhos tortos que eu havia seguido. E minha alma pouco evoluída não me deixava ver a luz em um local tão sagrado como esse..

À tarde Heidi viaja para defender sua tese de pós-doutorado, em Bruxelas, e eu fico completamente sozinha. Gosto da sensação; afinal, não estou mesmo em um momento muito bom com ela. Desço pelas ruas de Amsterdã sem rumo, sem norte, sem prumo. Vou em busca de qual- quer coisa, em busca de algo que me traga de volta à vida. Resolvo buscar um pouco de promiscuidade na “Red Light”. Há tempos não experimento um ato de infidelidade e no momento meu corpo pede isso. Lá chegando, vislumbro um local que me parece muito familiar. Chama-se “Tapiz Rouge” e é uma casa bem antiga, de esquina. A porta de madeira com uma pintura vermelha esmaltada contrasta com os puxadores de bronze com imagens de gárgulas, sustentando duas argolas redondas que servem de sino. Fico olhando para essa porta por alguns segundos, sem entender o porquê de tamanha aflição. Não consigo tocar na porta… Por sorte, uma das “funcionárias” do local aparece e pede licença, abrindo a porta, que se escancara para um cenário novo e, ao mesmo tempo, antigo.

Uma mulher, com aparência de faxineira, com cabelos brancos desgrenhados e uma roupa de moletom de cor azul-marinho, aparece no hall de entrada, me olha e me explica que ainda não estão no horário de atendimento. Mas insisto em ficar somente observando o lugar, até a chegada do gerente do local com quem eu precisaria falar. Ali, em um sofá de veludo verde, bem no canto da sala, eu me sento e começo a vislumbrar toda a história “dela”.

Fico inerte, em um estado de transe por muito tempo, não sei ao certo quanto tempo, mas sei que é o bastante para chamar a atenção das meninas que trabalham ali e do gerente do local, que me desperta com um forte abanão. Ele está visivelmente irritado e me pergunta se estou drogada. Imediatamente invento uma história de que sou escritora e que estou ali fazendo uma espécie de “laboratório” para o meu livro. Ele melhora seu humor e até ensaia um breve sorriso. Mas lamenta e diz que ali não é local para “escritoras jovens e bonitas”. Peço, então, pequena concessão e ofereço uma nota de cem dólares para que ele aceite minha singela presença no local. Não me importa… pagaria dez vezes mais só para estar ali, observando o andamento e o preparo de todas as prostitutas que circulam pela casa livremente…

Em resposta à minha proposta, o homem gordo e barbudo finalmente sorri. Estabelecemos um acordo no qual a minha presença seriatolerada na medida do meu pagamento. E, apontando o dedo parauma placa que ficava bem na entrada do recinto, ele me explica o princípio fundamental que rege essa e todas as outras casas da Red Light, e que está escrito nesta placa: “Tudo é possível mediante pagamento”.

E foi assim que, gradativamente, fui entrando no universo vermelho da minha “acompanhante”. No mundo da Maria Scarlet. Foi assim que entendi quem era de fato a “Maria Scarlet” e como funcionava o famoso local onde ela governou absoluta, em sua era de promiscuidade e luxúria, conquistando o mundo de clientes e fazendo sua fama e fortuna em 1769, em que ela revolucionou uma era, criando o primeiro sistema de marketing do sexo, com a “Red Mary Street”, hoje conhecida como a “Red Light District”.

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Trilha Sonora: Alive – Pearl Jam

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