Décimo Sétimo Capítulo

Deu-me a comida de todos os Deuses Imorais para saciar a minha fome de outros homens. Abasteceu-me de luxúria e entorpeceu-me de prazer.

 

Ainda no domingo, dia 31 de outubro de 2010. Às 23:42 h

Heidi já está dormindo porque amanhã acorda cedo para uma cirurgia. Estou na sala tomando uma taça de Cabernet Sauvignon e escutando minhas partituras preferidas de piano. Já sei tocar piano. Heidi contratou um amigo dela, Groig, um dinamarquês gay e um dos melhores pianistas da Holanda para me ensinar.

Resolvo entrar na internet para dar uma olhada nas últimas notícias do Brasil. Há tanto tempo não sei o que se passa por lá… quando abro a primeira página do jornal, detenho-me instantaneamente na coluna de entretenimento, na qual aparece em letras gigantes a notícia do nascimento do neto de Elisabeth Spielberg, filho do seu único herdeiro Jota Jr, o CEO da Trevon TV. Não me contenho de emoção e lágrimas começam a saltar dos meus olhos.Entro na página e vejo o sorriso lindo do meu Jota, ao lado dessa vaca ruiva, destruidora de lares. Tamanha felicidade me dá náuseas. Ela teve o filho perfeito que o Jota sempre quis. É um menino, saudável, lindo, forte e ruivo. Claro, deve ter sido circuncidado, segundo as tradições judaicas, e receberá todos os créditos da comunidade por ser filho de um legítimo útero judeu. Vai ser o herdeiro de uma fortuna e herdará também toda a vasta cultura do paie da mãe.

Começo a tremer de ódio. Minhas mãos estão trêmulas e escuto um estalar de vidros. Quando vejo, minhas mãos estãosangrando, fruto dos estilhaços da taça de cristal que quebrei sem perceber. É muito ódio dentro do meu peito. Não tenho falta de ar, tenho, ao contrário, excesso de ar nos meus inflados pulmões. Preciso gritar, preciso socar alguém…

– Anna, o que foi, meu amor? Suas mãos! Deixa eu ver.

– Não foi nada, Heidi! Está tudo bem.

– Você está tremendo… claro que não está tudo bem. – Nesse momento, ela se distrai na tela aberta do computador e percebe o que está na tela, mesmo sem entender direito o idioma português, já entendeu tudo o que precisava entender.

– Minha vida, vamos curar essa cicatriz. – E me encara firmemente precisando que eu entenda o duplo sentido sugerido. Não respondo nada, só a beijo enquanto uma lágrima escorre pela minha face direita. Tento disfarçar minha dor, mas percebo que é impossível nesse momento. Estou entregue, devastada pelo sofrimento da perda do meu grande amor e peço, de forma desavergonhada, um pouco de alento para minha companheira de vida.

Depois de feito o curativo, fomos dormir. Tomo um Rivotril para conseguir apagar depois da foto que vi. Acordo no dia seguinte muito mal, com vontade de morrer. Heidi já saiu e estou sozinha. Acendo um cigarro que estava escondido da Heidi entre minhas coisas proibidas. Coloco minha dose de Blue Label e degusto em plena segunda-feira o prazer do desvio compulsório. Não vou ao Museu hoje e não sei que dia voltarei. Estou completamente revoltada com a vida. Como pude perder o meu amor para uma vadia como essa Mariana? Não é justo o que fez comigo, e a única coisa em que consigo pensar é em vingança.

Resolvo pegar meu gravador e escutar de novo a gravação da consulta que fiz com a Mãe Dalva, há anos atrás:

Carta da traição:

“- Vejo uma mulher saída do fogo que vai traí-la. Vejo-a enfiando uma estaca em seu coração. Essa mulher vai vir de mansinho e vai conquistar tudo o que é seu, Anna Lara. Cuidado com ela!”

Essa mulher é a Mariana, que saiu do fogo com seus cabelos vermelhos e me espetou um punhal nopeito. E eu não tomei cuidado com ela! Acho que eu nem acreditei muito nas palavras da Mãe Dalva… Quando eu perguntei o nome dela, aMãe Dalva disse não conseguir ver porque era um nome estrangeiro… Kauffmann! Maldita psiquiatra!

Carta da Sacerdotisa:

“- Aqui eu vejo clemência, misericórdia. Eu vejo o plano astral abençoando você e trazendo de novo a felicidade para a sua vida. Tudo o que for tirado de você retornará de outra forma, mais leve e mais evoluído. Você vai ter amor na sua vida e a luz brilhará na sua estrada.”

Essa é a parte em que a Heidi entra na minha vida. Ela é a minha luz, a minha salvação.

Carta da Carruagem:

“- A chave para as suas respostas está em uma outra terra, distante da- qui. Você vai para muito longe para encontrar você mesma. Vai ser uma longa viagem até chegar no seu destino. Está distante, mas você vai encontrar.”

É Amsterdã, onde moro. Meu Deus! Agora tudo faz sentido! Continuo escutando…

“- É, sim. E é um lugar onde os antigos habitavam, um lugar com história. Eu vejo um castelo. E vejo que você só vai alcançar a sua paz depois que percorrer o caminho em direção a esse castelo…”

Que castelo será esse? Não importa, o que tenho que fazer agora é acabar de vez com essa mulher que acabou comigo. Odeio essa mulher e me odeio mais ainda por ter permitido que ela entrasse na minha vida dessa forma. Ela me roubou o que eu tinha de mais precioso na vida: o meu Jota. Começo a chorar muito, por horas a fio. Dou-me conta de que o amor da minha vida sempre vai ser o meu Jota. Ele que me fez fazer as maiores putarias da minha vida, ele que me marcou para sempre com seu jeito sacana e livre. É ele quem eu quero. É nele que eu penso quando gozo para a Heidi. É no pau dele, entrando em mim e me machucando, que eu penso quando chego ao meu orgasmo maldito. Ele me enfeitiçou de uma forma da qual não consigo mais sair. Ele viciou meu gozo com seu toque. Só consigo dar o gatilho com o pensamento nele. Com as mãos entre as pernas, aperto forte minha vagina, fazendo movimentos giratórios em torno do meu clitóris. Deixo-o enorme a ponto de gozar e, quando meu corpo se contorce com a primeira estalada de prazer, meu pranto explode em um grito de desespero, acompanhadode inúmeras lágrimas impossíveis de se conter. Gozo e choro ao mesmo tempo. Sinto uma dor incalculável, a dor de perceber, ainda que tarde, que abri mão do maior amor da minha vida por um capricho. Por ódio. O ódio dessa filha que ele teve me afastou dele. O meu ódio me destruiu e abriu caminho para outra tomar meu lugar. Se a culpa por ter perdido o Jota é de alguém, essa culpa é muito mais minha do que dessa bruxa ruiva.

Eu fui a menina mimada que não quis escutar, que estava embriagada demais com a minha própria dor, envaidecida demais no papel de vítima, que não pude descer as escadas para ver com maturidade o que se passava à minha volta. Talvez por isso ele sinta raiva de mim. Por isso ele me tratou friamente quando nos falamos pela última vez. Talvez, quem sabe, ele ainda possa sentir alguma coisa por mim. Talvez…

Mas, antes de buscá-lo, tenho de me fortalecer. Não posso chegar assim, arrasada, magoada, fraca. Preciso retomar a minha pomba-gira. Eu era feliz com ela ao meu lado e, depois que a mandei embora, só fico chorando e lamentando pelos cantos. Não me sinto mais a Anna Lara que sempre fui.

Costumava ser malhada, tinha pernas e bumbum musculosos, braços fortes, longos cabelos lisos com mechas loiras por todo o comprimento e nas pontas. Meus seios de silicone nunca foram grandes, mas formavam um equilíbrio com o resto do meu corpo sarado. Era uma típica “garota de Ipanema”, forte, esbelta e linda. Era gostosa e sedutora. Vestia-me com um estilo próprio, um pouco masculino, mas com estilo. Desde que vim morar com Heidi, meu corpo está bem mais flácido do que era e agora tenho uma quantidade de massa gorda na região do meu abdômen. Tomamos vinho todos os dias e comemos comida gordurosa quando saímos para jantar. E saímos quase todos os dias. Heidi não se preocupa com a estética, só se preocupa com a saúde. Ela também aumentou suas curvas desde que nos casamos. Definitivamente, não sou mais a Anna Lara que costumava ser. Acho que teria até vergonha de participar de um sexo grupal com luzes acesas. Minha depilação já praticamente não existe. Heidi é a favor do estilo natural, de como eram nossas mães. Na Europa, as mulheres são mesmo bem mais conservadoras com relação ao tema depilação….

Embora esses pensamentos insistam em me fragilizar, não os deixarei que tomem conta de mim; não vou mais me preocupar com minha aparência nesse momento, ao invés disto, vou me ater a buscar o meu Jota onde quer que ele esteja.Nossa sintonia ultrapassa a questão corporal, somos tarados um pelo outro por meio do cheiro, da pele. Fazíamos nossas necessidades ali, na frente um do outro. Ele sempre quis manter a porta aberta para que não tivéssemos, desde o início, nenhum tipo de pudor um do outro. Ele dizia não ter nojo de nada que viesse do meu corpo porque o meu corpo era propriedade dele. Só dele. E ele fazia com meu corpo tudo o que ele quisesse. Alimentava, mandava exercitar e emprestava para os amigos. Eu era seu brinquedo e sua puta. Sua boneca de luxo. Mas não era só tratada como um objeto; ele cuidava do meu corpo e da minha alma. Alimentava meu desejo com todo tipo de poesias e me acariciava sempre com elogios caretas e sutis. Era um “gentleman” por baixo da carcaça de lobo faminto. Era maníaco por controle e gostava de quebrar todos os limites. E quebrou mesmo os meus limites. Aprisionou-me com a sua proposta de liberdade. Deu-me a comida de todos os Deuses Imorais para saciar a minha fome de outros homens. Abasteceu-me de luxúria e entorpeceu-me de prazer.

E agora que desfruto a minha liberdade sexual com a minha esposa, sinto-me ainda mais presa a ele. Preciso recuperar a minha vida ordinária. O meu gozo puto, o meu prazer verdadeiro. Amo minha mulher, mas não consigo viver sem o gosto da porra do meu homem.

***

Trilha Sonora: Don’t Stop Dancing – Creed

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