Capítulo 16

Não podia permitir que nosso passado fosse invadido pelo futuro dele com outras. Toda a promiscuidade de amor que tivemos deveria permanecer ali, intacta. Preservada como a vagina de uma virgem que morre precocemente.

Mas nem tudo na nossa trajetória foram flores… no começo da nossa relação, passamos por muitos altos e baixos até eu poder me encontrar.

Dois meses e meio depois de ter terminado com o Jota, recebi um e-mail da Maria Amélia dizendo-me que, no dia anterior, havia sido a festa de aniversário de um ano da Rebeca, a filha do Jota com a Joana. Ela me disse que todos estavam comentando o que acontecera, e que nosso caso era o assunto de todas as festas e reuniões na academia e na praia. Fiquei com tanto ódio, com tanta raiva dele, que não consegui terminar de ler o e-mail e, imediatamente, liguei para ele, para pedir que agilizasse os papéis do divórcio.

Lembro-me, como se fosse hoje,que ele ficou indiferente à minha ligação: “Certo, Anna Lara. Você já tomou a sua decisão e eu a minha. Fique tranquila que eu vou providenciar o acordo e te envio. Você será uma mulher livre, livre de mim. Espero que você seja feliz. Agora, se você me der licença, eu tenho que trabalhar. Tchau.”

Fiquei imóvel por um tempo sem acreditar no que acabara de ouvir. Como o Jota pôde ser tão frio? Nem parecia ele. Com certeza devia estar com muito ódio de mim para falar assim. Mal sabia ele que eu ainda o amava. Que ainda o amo! Mas algo pior estava por vir. Resolvi voltar ao e-mail e terminar de ler o que a Méli me havia escrito. Ao final do e-mail, ela me disse para me preparar com o que eu veria no anexo. Abri e não consegui acreditar no que estava vendo: o Jota na mesa dos parabéns. Estavam todos lá: a Joana com a menina nos braços, ao lado dela o Rômulo, o “corno assumido”, um casal de velhos japoneses que deviam ser os pais dela — pela cara redonda—, edo outro lado da Joana estava o Jota, com um sorriso enorme no rosto, ao lado da… Mariana! Meu Deus! Eles estavam juntos! Não acreditei que ele a levou para o aniversário da filha! Não acredito até hoje que ele fez isso. Um desespero tomou conta de mim. Perdi o meu Jota para sempre. Por isso ele estava tão seco no telefone. Porque ele já não ligava mais para mim. Ele já não me amava mais…

Lembro-me de que na época fiquei desesperada. Não sabia o que fazer e, de fato, não fiz nada. Estava paralisada, vítima do que a vida havia me entregado. Tinha conhecido a Heidi, que estava me fazendo muito bem. Eu pensava que havia finalmente acertado na minha escolha e, de fato, havia. Não pensava em vingança. Pensei algumas vezes em processar a Dra. Kauffmann por assédio, por ter conseguido informações preciosas sobre a minha vida, que mais tarde a levaram até os braços do meu marido. Pensei em muitas coisas, mas não tive coragem de fazer nada.

No dia seguinte, recebi um e-mail do Jota encaminhando uma proposta de acordo para a nossa separação amigável. Pela proposta eu ficaria com o carro, a casa de Búzios, a casa de Itaipava e com a metade dos bens da aplicação. Claro que não aceitei esse acordo. Meu objetivo não era o meu maior ganho financeiro, mas a impossibilidade de o Jota criar sua filha no apartamento em que idealizamos uma vida juntos. Não! Jamais aceitaria uma criança saudável e linda correndo em cima do piso que os pés do meu filho jamais tocarão. Esse chão, essa criança não conhecerá!

Encaminhei minha contraproposta nos seguintes termos:

– Quero o apartamento e a metade das aplicações. Quanto aos outros bens, pode ficar com tudo! – No apartamento estava escrita toda a nossa história. Precisava preservar aquele lugar como um santuário, uma espécie de “mausoléu” do nosso amor. Precisava me certificar de que ninguém compartilharia aquele espaço com ele. Na minha mente estava claro que ele poderia dividir o corpo, as emoções e até o amor dele com outra, mas nunca dividir o espaço que era só nosso. Não podia permitir que nosso passado fosse invadido pelo futuro dele com outras. Toda a promiscuidade de amor que tivemos deveria permanecer ali, intacta. Preservada como a vagina de uma virgem que morre precocemente. Assim como morreram todos os nossos sonhos. Assim como morreu nosso Miguel…

Como o patrimônio do Jota era inacreditavelmente enorme, eu não tive problemas para que ele aceitasse a minha oferta, até porque essas aplicações no Brasil eram uma parte ínfima da fortuna do pai, que ele herdaria sozinho, inclusive.

Acordo fechado, nem precisei ir ao Brasil. Assinei e registrei o contrato no Consulado e enviei para o Jota. Nunca tive dúvidas de que ele agiria de boa-fé comigo. Ele era uma pessoa íntegra e honesta. Pervertido, mas leal aos seus ideais. Ele também queria terminar tudo de uma forma menos dolorosa, até porque já estávamos demasiadamente machucados…

Eu, em especial, estava muito machucada. E Heidi estava morta de ciúmes, não entendia que o final de um relacionamento é difícil, ainda mais quando é com o amor da nossa vida…

***

11 de março de 2007

O meu celular tocou. Era a Heidi; ela estava preocupada comigo. Não consegui disfarçar minha irritação com tanto controle. Sempre tive uma relação livre com o Jota, na qual não havia cobrança nem controle. Eu era sua mulher, e não seu objeto!

– Oi, Heidi. O que foi?

– Estou preocupada com você, Anna Lara. Ainda está aí? Por que não vem para casa?

– Estou ocupada Heidi! Você não pode esperar um pouco?

– Anna Lara, você se lembra de que meu avô vem jantar hoje conosco? Que eu vou te apresentar oficialmente para ele? — Putz! Eu havia esquecido completamente…

Na verdade, não estava interessada em conhecer a família de Heidi. Eu gostava dela… realmente gostava, mas não estava na mesma sintonia que ela. Foi quando tivemos nosso primeiro término. Eu precisava desse tempo só para mim, não estava preparada para todas as obrigações que uma vida de casal impõe. Precisava me encontrar, e a Heidi não estava me dando espaço suficiente para isso.Lembro-me de que foi horrível. Que ela chorou demais e não me deixou explicar o motivo pelo qual eu estava me afastando dela. E,no meio da nossa discussão, o avô de Heidi chegou, pois ela não conseguira cancelar o evento a tempo. Ele parou por alguns instantes e não me disse uma única palavra. Tive certeza de que ele não havia gostado de mim. Saí correndo de onde eu acreditava que nunca deveria ter entrado. Segui para um hotel e continuei a gastar todas as minhas economias dos meus seis anos de casada com o Jota. Ainda tinha muito crédito no meu cartão internacional, mas eu sabia que todo esse crédito rapidamente iria terminar, pois o Jota não aceitaria patrocinar minha vida separada dele por muito tempo…

Minha mãe vinha passar duas semanas comigo. Não sabia se a aguentaria por tanto tempo. E ainda teria de esconder o caso com a Heidi! Afinal, minha mãe não suportaria saber que a filha, além de drogada, assassina e promíscua, ainda era gay…

***

12 de março de 2007

Minha mãe chegou no voo das 20 horas. Fui buscá-la no aeroporto e seguimos para meu hotel. Ela estava vestindo a echarpe de seda azul-clara da Caroline e um conjunto de blusa e calça social bege. Minha mãe melhorou seu guarda-roupa com a ajuda da Elisabeth. Elas acabaram virando amigas virtuais e trocam dicas providenciais. Elisabeth a atualiza com relação ao mundo da moda, minha mãe a ajuda com conselhos caretas para seu novo programa popular sobre “casamentos felizes” na TV Trevon. Incrível como a vida dá voltas. Não consigo imaginá-las amigas… destoando do novo visual chique da minha mãe, eu ainda continuo com meu guarda-roupas composto por roupas pretas, cinzas e jeans. Sempre amei a cor preta. Talvez porque combine com a minha alma escura…

Fiquei muito feliz por ter a minha mãe ao meu lado. Nunca estive tão próxima dela como nesse momento. Desde que ela se casou com o cafajeste do meu padrasto, a vida dela se tornou um utópico conto de fadas, cercado por todo tipo de fantasia e alegorias. Nem a morte da Caroline a fez enxergar o abismo em que estava submersa, de onde provavelmente nunca sairá. Minha mãe se separou do meu pai porque ele batia nela. Na época, eu e Caroline éramos muito pequenas e não entendíamos muito bem o que acontecia. Marco Aurélio pareceu ser a solução perfeita, mas não foi…

Depois de um tempo juntas, acabei contando para minha mãe sobre a minha relação com a Heidi. Tive muito medo da sua reação, mas preferi falar com ela, pois sentia muita saudade da Heidi e não queria mais viver uma vida de mentiras e coisas obscuras que não podem ser mencionadas. Para minha surpresa, minha mãe não se opôs e até esboçou uma certa receptividade em conhecer a Heidi. Pena que essa vontade acabou no mesmo instante em que comecei a teclar uma mensagem para a minha Kate para nos encontrarmos…

Mesmo não querendo conhecê-la naquele momento, minha mãe me aconselhou a ficar com Heidi. Ela sabia que nos braços da Heidi eu havia encontrado um pouco de paz depois de tudo o que eu havia passado. E para uma mãe é sempre melhor saber que sua filha está feliz, mesmo ao lado de uma homossexual do que ao lado de um homem em uma relação desequilibrada e conturbada. Minha mãe não sabia dos detalhes sórdidos da nossa relação, mas sabia que não era um casamento como qualquer outro, com uma rotina “normal”.

Voltei com Heidi logo depois que minha mãe voltou para o Brasil. Não aguentei a solidão da minha vida por mais de uma semana. Acho que no fundo sempre fui uma pessoa carente emocionalmente e sempre busquei alguém em quem me apoiar na caminhada da vida. Esse alguém era definitivamente “minha Kate”, minha amiga, minha salvadora…

Segui, então, minha vida tranquila com Heidi por longos e demorados anos, como se vivesse em uma realidade paralela que tivesse feito o tempo parar. Não me preocupava com o passado com o Jota nem com o futuro ao lado da Heidi. Estava machucada demais para pensar no que seria minha vida. Apenas a vivia cada dia de uma vez.

Próxima leitura -> Capítulo 17

***

Trilha Sonora:  Just give Me a Reason – Pink

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s