Décimo Quinto Capítulo

… me conectava com o que havia de melhor em mim: meu vazio. Nele, eu era absoluta e livre de todos os meus vícios. Nele, no meu vazio mais profundo, eu estava protegida de pensar e também de desejar.

Domingo, dia 31 de outubro de 2010

Parece que foi ontem. Já se passaram quatro anos e eu ainda não consigo esquecê-lo… quando penso que desisti do amor da minha vida por um capricho, um ciúme, uma vaidade, tenho vontade de morrer de tanto arrependimento. Mas é na hora de dormir, na hora em que me deito de bruços na cama, e que começo a me masturbar pensando na vida promíscua e em todos os sexos pervertidos que eu tive, que realmente tenho vontade de morrer. E morro um pouco a cada dia. Não consigo me livrar dele nem por um dia. Sou totalmente dependente dessa droga, desse vício maldito que entrou no meu corpo e me dominou por completo…

E a cada dia 31 de outubro, saio em busca de um novo parceiro sexual, buscando em todos o meu Jota que sempre vai estar por aí, escondido em algum gesto promíscuo, em alguma foda sacana, em um olhar voyeur ou em alguma poesia erótica. Busco ser olhada de novo por alguém como “ele” sempre me olhou: com tesão de verdade. Com aquele tesão que era só nosso, mesmo com tanta gente participando ativamente das nossas maratonas sexuais…

Mas hoje, mesmo com toda saudade que sinto do Jota, sinto-me amada e correspondida. Tenho um novo amor na minha vida, um alguém que me entrega muito mais do que eu jamais imaginei receber. 

É uma outra história, uma história muito mais “limpa”, muito maiscolorida… era para ser o amor da minha vida, na forma exata de amor,e não de vício, como eu tinha com o Jota… ela se chama Heidi Vlaar, é uma importante médica neurocirurgiã e conceituada pesquisadora de atividades cerebrais relacionadas à memória. É também a responsável por hoje eu estar há três anos à frente do Museu Stedelijk, um dos mais completos museus de Arte Moderna de Amsterdã.

Minha vida com ela é estável e boa. Saímos muito para jantar com casais amigos e frequentamos a vida noturna de Amsterdã. Heidi é monogâmica, religiosa e superfeminina. Ela me traz um amor quase maternal e cuida muito de mim, mas, constantemente, temos crises porque ela morre de ciúmes do meu passado com o Jota. Acho que ela sente que eu ainda não o esqueci… que na verdade nunca vou esquecê-lo…

Minha família a adora. Minha mãe a trata como uma segunda filha, como se, de alguma forma, ela tivesse preenchido uma lacuna que a Caroline deixou… meu pai não gostou muito da ideia a princípio, mas depois se acostumou. Ele é feliz por eu ter a meu lado alguém que me faça viver a vida com parâmetros sociais bem definidos. Ele gosta do fato de a Heidi ser “careta”. Ela vem de uma família muito, muito rica. É filha única e herdeira de uma verdadeira fortuna. Seus pais morreram em um acidente de carro quando era adolescente e, desde então, a única presença familiar em sua vida, além de mim, é seu avô Vladmir Vlaar, um dos maiores benfeitores do Museu Stedelijk, e um dos homens mais influentes e poderosos de Amsterdã.

Moramos na Van Eghenlaan 25, em uma casa em frente ao Vondelpark, a apenas algumas quadras do Museu. Quando conheci Heidi, ela morava com seu avô, em uma casa enorme, em um local mais afastado do centro. Comprou essa casa para nós, por estar em um local perto do verde e perto de onde eu iria trabalhar. Ela nunca mediu esforços para me agradar e sempre procurou fazer de tudo para me ver feliz. Mas, no entanto, sempre fez parte de sua conduta ser extremamente contida em suas referências e declarações. Sua forma de amar sempre foi mais por meio de gestos específicos e presentes indecentemente caros. Ela não gosta do uso da linguagem textual e jamais secomunicou com palavras antes, durante ou mesmo depois do sexo. Sua forma de amar é corporal, instintiva. Toca-me com suavidade e me levaao seu universo particular com toda doçura que lhe é peculiar. Ensinou- me a amar sem pressa e sem expectativas. Trouxe-me paz. E amor…

Sua forma de amar é corporal, instintiva. Toca-me com suavidade e me leva ao seu universo particular com toda doçura que lhe é peculiar. Ensinou- me a amar sem pressa e sem expectativas. Trouxe-me paz. E amor…

Heidi tem a pele branca e os cabelos pretos. Suas sobrancelhas grossas e seu rosto triangular parecem com os da atriz Kate Winslet, motivo pelo qual muitas vezes a chamo simplesmente de “minha Kate”. Seus seios pequenos contrastam com os mamilos grandes cor de rosa e os bicos protuberantes que mais parecem clitóris prontos a explodir na minha boca. Sua depilação, quase inexistente e nada contemporânea, de modo algum lembra a das brasileiras com quem eu costumava transar nas minhas orgias intermináveis com o Jota, mas, mesmo assim, eu gosto. Gosto dos pelos excessivos saindo para fora da calcinha, do ar retrô dos anos 70 invadindo nosso cotidiano, das pequenas dobras na barriga e lateral do corpo da Heidi. Gosto do cheiro dela e dos pés sempre limpos e sem calos. Gosto das axilas lisas, com a mesma textura da pele das costas e ombros, formando um único e homogêneo conjunto. Gosto dela. Amo essa mulher, de todas as formas e com todos os seus contornos.

Jamais, em minha vida pregressa, me imaginei amando uma mulher. E, mais ainda, jamais imaginei uma mulher no centro das minhas emoções e sentimentos… Sempre me vi como fêmea de um homem bem másculo. Sempre me vi mais feminina e mais leve do que o meu parceiro de cama. Hoje me vejo como uma “igual”, em forças e tarefas. A diferença é que Heidi carrega uma leveza na alma, uma ingenuidade nata, que a transforma em um alguém quase “inocente”, como um ser tão puro em forma e cor, que não possui pecados aparentes nem escondidos… eu a vejo como a forma mais reta de toda a minha torta existência. E por ela eu tenho vontade de ser a Anna Lara mais virgem e puritana que jamais existiu.

Mas não posso negar que o fantasma do Jota me persegue… Hoje eu entendo que um dos motivos que me fez “enxergar” a Heidi na minha vida foi uma fuga. Uma fuga de tudo o que me lembrava do Jota. Não poderia ter me casado com um homem, com um alguém que seria sempre comparado e, obviamente, excluído. Precisava ter alguém ao meu lado que fosse completamente diferente do que eu tinha. Um alguém que me trouxesse carinho em diferentes formas e, finalmente, precisava de alguém que me desse um sexo tranquilo, com carinho e afeto. Precisava dela, da “minha Kate”…

Lembro-me de que ela me salvou desde o primeiro momento em que nos conhecemos. Na verdade, ela não sabe, mas me “salvou” de mim mesma… depois que me separei do Jota, naquela fatídica terça-feira de 31 de outubro de 2006, resolvi, na mesma semana, viajar pela Europa por um tempo indefinido. Poderia passar de três meses a um ano até que eu conseguisse me encontrar. Comecei a minha viagem por Amsterdã pela facilidade em comprar maconha, da qual não consigo viver longe… nessa primeira — e única — parada, fiquei encantada com a cidade e resolvi esticar minha estadia por lá… Todos os dias acordava umas dez da manhã, tomava meu prolongado café da manhã, lendo livros de história que havia trazido na bagagem, e depois seguia com minha bicicleta retrô até o Cais. Lá encontrava um grupo de maconheiros habituais, recém-saídos da adolescência, com os quais passava a maior parte do meu tempo. Falávamos bobagens e coisas sem sentido. Ríamos muito, na verdade, acho que só ríamos. Mas era bom. Eu não era julgada por mim mesma, sobre quem eu era ou sobre as escolhas que fazia. Não estava conectada realmente com eles, mas me conectava com o que havia de melhor em mim: meu vazio. Nele, eu era absoluta e livre de todos os meus vícios. Nele, no meu vazio mais profundo, eu estava protegida de pensar e também de desejar.

O tempo passava assim. Sem pressa. E eu ia, a cada dia, cicatrizando um pouquinho a dor de ter perdido o meu amor para um “bebê odiado”. Eu queria fugir… fugir de tudo que me lembrava dele e da vida que tínhamos. Certo dia, eu estava voltando do Cais, depois de ter fumado uns dois cigarros inteiros de maconha com meus parceiros de “ménage esporádica” — dois Sul-Africanos lindos, um loiro com olhos azuis fluorescentes e outro negro-azulado —, quando sofri um acidente. Um carro jogou-me para o outro lado da rua, e eu só conseguia rir quando vi meu tênis em cima do capô do carro. Fui levada para a emergência do Sint Lucas Andreas Ziekenhuis, um dos hospitais mais conceituados de Amsterdã. Meus amigos foram muito queridos e não me largaram nem um segundo. Gesso posto, documentos entregues e hora de voltar para o hotel.

Não, ainda não…um policial entrou na sala de emergências perguntando por mim.Levantei timidamente minha mão direita esperando que não fossenada grave. Foi quando uma voz se aproximou dos meus ouvidos e me disse para não declarar absolutamente nada ao policial. Virei-me para encontrar a dona da voz e, para minha surpresa, ela era uma médica. Linda, com um ar angelical e, ao mesmo tempo, sacana. Ela apertou minhas mãos, sorriu e me disse que ficaria tudo bem, para que eu ficasse calma. Senti-me extremamente acolhida e cuidada, como há muito tempo não me sentia. Foi estranho, mas confiei nessa mulher. Ela conversou com os policiais e disse que estava responsável por mim, que eu ainda estava muito abalada por causa do acidente e que não poderia sair do hospital naquele momento, já que deveria fazer uma ressonância para avaliar algum possível dano cerebral. Os policiais se conformaram com a explicação da doutora e deixaram o endereço da delegacia para que eu me apresentasse assim que fosse possível. Ela rapidamente buscou minha ficha atrás do balcão e ordenou que as enfermeiras preparassem a sala para a ressonância magnética. Guiou minha cadeira de rodas e gentilmente dispensou o enfermeiro que iria conduzi-la. Também sinalizou aos meus amigos que eu deveria demorar um pouco e que eles poderiam dar uma volta para comer algo e retornar em seguida para a antessala da ressonância, caso quisessem. Com o efeito devastador da grande quantidade de maconha consumida e somada às horas em que aguardaram, acredito que estavam realmente famintos e, claro, concordaram imediatamente com a proposta.

Quando entramos na sala de ressonância, ela se apresentou como Dra. Heidi Vlaar e me disse que era uma das responsáveis pelo setor de neurologia do Hospital – tempos depois, eu vim a saber que ela, na verdade, era uma das “donas” do hospital… – Ela também me disse que interviera na situação com os policiais porque, se eu declarasse que havia consumido maconha, seria presa em flagrante e, provavelmente, deportada para o Brasil por dirigir uma bicicleta nesse estado. Disse-me que em Amsterdã é possível comprar maconha, mas não se pode consumi-la em locais públicos, muito menos sair “doidona” pelas ruas. Fiquei apavorada com as informações e, ao mesmo tempo, aliviada… agradeci com um sorriso sincero e olhei profundamente em seus olhos de cor verde-esmeralda, esperando alguma sinalização de comopoderia retribuí-la. Nos segundos silenciosos que se seguiram, fiquei completamente paralisada admirando sua beleza. Não havia me dadoconta de que ela era realmente linda, com o rosto que lembrava a de uma conhecida atriz. Perguntei-lhe se algum dia a haviam comparado com a… e ela imediatamente me cortou dizendo que sim, que todos a comparavam com a Kate Winslet. Após a ressonância, ela me disse que deveria ir porque tinha uma cirurgia em seguida e tinha de se preparar. Agradeci de novo e, antes que ela saísse pela porta, perguntei: “Mas Heidi, quero dizer, Dra. Heidi, como você sabia que eu tinha fumado maconha?” ela sorriu e me respondeu: “Porque eu também fumo.” E saiu pela porta, firme, decidida, enigmática.

Uma curiosidade extrema assolou-me nos dias que se seguiram e não consegui evitar de ir ao seu encontro. Voltei ao hospital para lhe levar uma caixa de chocolates Godiva, juntamente com um cartão com poucas palavras cordiais de agradecimento e, dentro do envelope, um pequeno cigarrinho de maconha nele. Ela me deu seu melhor sorriso, na versão “Kate livre” e disse que só poderia aceitar os presentes com uma condição: a de que eu os degustasse com ela. Senti-me constrangida e, ao mesmo tempo, “molhada”. Nunca havia me interessado por nenhuma mulher, mas algo me enfeitiçou nela.

Combinamos de nos encontrar em um Pub próximo ao Redlight Distrit às 18 horas. Logo pensei: “hora aberta”… puta merda! Hora aberta significa o momento em que todos os portais do inferno estão abertos para o “povo que habita esta morada”, sair em direção à caça. Seu alimento é a alma das pessoas espiritualmente fracas que, desvalida de qualquer caráter, é facilmente corrompida e levada ao extremo do caos. Esse extremo é perigoso em qualquer área do arbítrio negativo, que é o ato de fazer qualquer ação de conduta imoral. E a conduta imoral seria tudo o que atenta a prejudicar liberdade de vida do outro, em vários segmentos, de várias formas…

Pois bem, hora marcada, Pub encontrado, cerveja pedida. Hora de esperar por ela. E eu sempre odiei esperar… mas esperei. Uma, duas, quase três horas. Já ia embora quando ela chegou. Eu estava muito irritada, mas ela me olhou com aquele olhar charmoso e me pediudesculpas sinceras. Disse-me que teve de entrar em uma operação deemergência. Perguntei se havia corrido tudo bem e ela disse que não.

Infelizmente, a paciente dela morrera na mesa de cirurgia. É claro que ela estava triste, mas parecia conformada. A morte não deve mesmo ser algo tão dramático na vida de um médico.Mesmo assim, percebi que, em algum lugar dentro daquela frieza, estava uma tristeza profunda por não ter salvado aquela pessoa. Tentando consolá-la disse que a alma da mulher descansaria agora em paz. Foi quando ela me olhou firme e disse que não. Que jamais a alma daquela pobre mulher iria “descansar”. Ela me disse que a mulher era uma suicida e que para esse tipo de crime, que atenta contra a própria vida, não existiria salvação. Dentre outras explicações religiosas, entendi que Heidi não era unicamente uma médica bonita e “doidinha”, que gostava de beijar mulheres e fumar maconha esporadicamente… ela era uma pessoa religiosa e careta, mas tinha evidentemente sérios problemas psicológicos de aceitação própria. Seus pensamentos, apesar de muito ortodoxos com relação a alguns temas de conduta e hierarquia social, não conversavam com a identidade católica ortodoxa de parte da sua família alemã, por parte de mãe. Sua aceitação homossexual e sua crença no absolutismo da ciência, já que havia passado toda a sua vida sendo devota dos estudos sobre a natureza humana, eram descolados de qualquer parâmetro religioso, ainda mais de natureza extremista. Isso fez com que Heidi se isolasse de parte de toda a sua família materna e fosse conviver unicamente com seu avô paterno, que, antes ateísta, passara a praticar o espiritismo por meio de grupos que faziam as traduções de Allan Kardec, tornando-se membro do Conselho Espírita Holandês em 2002.

É claro que depois de vários chopes e boas risadas fomos até um hotel. Estranhamente Heidi não tentou fazer sexo comigo. Ela me beijou, me abraçou, me deu carinho. Não sei se estava ainda muito abalada com a cirurgia malsucedida ou se, simplesmente, não quis precipitar as coisas, mas eu gostei da sua atitude. Ela entendeu que eu não era homossexual — pelo menos não até aquele momento — e decidiu esperar que eu a procurasse sexualmente. Ela me deu espaço e buscou entender minhas vontades, em vez de impô-las. Me fez decidir o que eu queria ou “se” eu queria. Ela me deixou conduzir essa questão até oponto em que eu estivesse pronta para ela. E essa sensação me deixou extasiada de felicidade. Pela primeira vez em muito tempo, eu estavano comando da minha sexualidade, direcionando o meu tesão para o momento e forma que fossem mais adequados. Eu estava sendo “respeitada sexualmente” e isso era uma novidade para mim.

No dia seguinte ela viajou, o que me deixou no vácuo de uma semana inteira de espera e aflição. Não pensei – muito – no Jota nessa semana. Fiquei realmente encantada. Até que recebi uma passagem de avião com um bilhete:

“Anna Lara, estou em Dubai, em uma convenção de neurologia, e queria muito vê-la de novo. Se você puder e quiser me fazer companhia, ficarei muito, mas muito feliz. Estou com saudades… beijos H.”

Eu fui. E, desde então, nunca mais nos desgrudamos…

***

Trilha Sonora: Brand New Me – Alicia Keys

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