Décimo Terceiro Capítulo

Tudo o que acontece neste plano tem uma razão de ser. O sofrimento é gerado pelo próprio homem. Ele é o senhor do seu destino, é a sua salvação e a sua perdição. A luxúria, a vaidade, o poder. Todos criados pelo homem. Dele extraídos, nele condenados.

Adormeço em posição fetal e, depois de alguns minutos ou horas, vejo-a em pé ao meu lado. Está com a mão estendida como se me pedisse para levantar. Seu cabelo está bagunçado e seu rosto com sua pele alva ainda está com o corte de navalha. Esse corte parece brilhar agora. Como se feito recentemente. Estranho que, toda a vez que entro no meu labirinto de depressão, eu a encontro assim, com sua ferida aberta, como se dissesse à minha alma o quanto o meu sofrimento a machuca.

Percebo que seu vestido preto também não está bonito como sempre… está rasgado na barra da saia e com ligeiro pó branco nas extremidades. Seu corselete vermelho está com os fios de seda, que o prendem em suas costas, soltando e seus pés estão sujos de terra.

Ela me convida a ouvir uma história e juntas seguimos para outro lugar…

Fecho novamente os olhos e, de repente, começo a me lembrar de uma cena que não faz parte da minha vida. Começo a me lembrar de um cavalinho de porcelana caído de uma estante, em uma casa velha. Lembro-me de um homem ruivo, de nome estranho… Henry Sto… Stoback. “Henry Stoback”, isso! E a história fica clara na minha mente. Consigo vislumbrar a cena. E percebo que “ela” está presente nessa cena:

Envolta nos braços de Henry Stoback, depois de horas intermináveis de sexo violento, Maria Eugênia deteve-se por um instante a observar um pequeno cavalinho de porcelana que havia caído de sua estante no momento em que foi jogada contra ela. O delicado objeto estava sem uma de suas patas, resultado do impacto ao chegar ao piso. Seus olhos mantinham-se firmes, e uma lembrança recorrente se fez presente, como se dissesse à sua alma:

– Não vou deixar que você me esqueça, mamãe… – Nesse momento a emoção tomou conta de Maria Eugênia e seu ódio, que há muito não a visitava, veio à tona brutalmente evocado. – Saia agora! Não quero ver-te nunca mais! – exclamou uma eufórica e raivosa Maria Eugênia.

– Não é assim que se trata o seu melhor cliente, Euge! Ora, ora. Enlouqueceu de vez? O que foi desta vez? – perguntou Stoback, enquanto colocava sua ceroula.

– Não me irrite mais, Henry. Não quero mais conversa. Só quero que… saia!

– Mas, Euge…

– Saia agora, “tu hombre de mierda”! Você não é mais bem-vindo nesta habitação!

Antes de sair, o homem de cabelos cor de fogo pôs seus sapatos e deixou em cima da mesa de cabeceira a quantia que devia pelo serviço. Maria Eugênia, enfurecida, correu em direção à porta e bateu-a fortemente contra Henry, deixando transparecer toda sua raiva. Lentamente, encostou sua testa na madeira escura e desgastada da porta e fechou os olhos. Uma dor profunda, avas- saladora, que vinha desde muito tempo, encontrou um lugar em meio ao tempo presente de Maria Eugenia. Como uma explosão de sentimentos, sentiu uma lágrima começar a escorrer pelo seu rosto. E, em seguida, o fluxo natural de um pranto sem fim. Lentamente virou-se com suas costas para a porta e desceu, aos poucos, até alcançar o chão sujo de sua masmorra sombria. Enxergou-se pequena, incapaz.

Lembrou-se de seu filho. Seu Miguel. Morto em seu ventre quando tinha somente quatro meses. Fora arrancado. A visão de seu lânguido corpinho jogado no chão acompanhava-a. Estava ali, indefeso, inócuo, morto. O feto, fruto de amor proibido, saído corrido de uma história infeliz para dar fim à vida de encantamentos de uma triste menina. Morto, ao lado do corpo de Miguel, estava o sonho de ser mãe, de ver o milagre da vida formar-se dentro dela. Nesse útero maldito só cresceria o ódio, o rancor, a mágoa.

A sua fragilidade e a sua monstruosidade transformaram-na em uma inimiga de si mesma. Era podre demais para deixar que um ser de luz invadisse seu corpo e lhe trouxesse a paz. Era pequena. Era puta e filha de puta.

A dor de conviver consigo era a pena máxima que podia alcançar. Sua culpa dilacerava sua alma a cada instante em que se lembrava… e todo dia enxergava um arcanjo caído ao lado da sua cama. E todo dia amanhecia com sangue nas mãos.

Em meio a esse turbilhão de pensamentos, Maria Eugênia levantou-se e decidiu partir. Para onde não sabia. Só sabia que não podia mais continuar a ser escrava sexual de homens famintos de obscenidades. Se viver de forma indecente fosse o carma de sua vida, que fosse ao menos de uma forma mais digna; se digna pode-se chamar alguém que é puta, que vende o corpo para carícias pagas em troca de vantagens materiais. Tinha boas intenções, mas era realista. Não conseguiria viver à sombra de um homem, como viu sua mãe viver. Agarrou, então, seu cavalinho de porcelana e suas poucas trouxas de roupas. Olhou pela última vez o prostíbulo em que vivia, em um quarto alugado nos fundos da mansão de Louise Becker.

Maria Eugênia levantou-se, abriu a porta de seu quarto e desceu as escadas do prostíbulo em direção à porta principal. A enorme escadaria de mármore não parecia gelada como de costume, e os adornos dourados do corrimão e dos quadros pendurados luziam incrivelmente brilhantes, como se estivessem refletindo muita luz vinda em sua direção. A porta principal estava aberta e não havia clientes ou outras putas. Era somente ela, Maria Eugênia, rumo à sua liberdade. Passou pela porta e seguiu adiante.

Saiu à rua. Começava a chover. Ela estava descalça, quase desnuda. Seus cabelos curtos, maltratados pela faca afiada de Louise, produto da vingança da senhoria, quando soubera que a “rapariga” havia se vendido a seu marido, não conseguiam esconder sua cicatriz. Maria Eugênia não tinha para onde ir. Já havia passado por vários lugares, vários homens e várias mãos. Já não identificava mais os limites que deveria impor a si mesma pela sua honra. Já não entendia o que poderia ser decente e moral. Sentia-se suja, imunda. Aos 21 anos de idade, havia se transformado em alguém que ela desconhecia. Era jovem, bonita e sombria. Trazia consigo uma bagagem tão pesada, que era praticamente impossível suportar suas dores, seus fracassos. Naquele dia, tudo mudou para Maria Eugênia. Ela decidiu acabar com seu sofrimento.

No momento em que Maria Eugênia pisou na terra batida que ficava à frente da “Casa Grande”, assim chamado o bordel em que Mareu trabalhava, começaram a cair pequenas e espessas gotas de chuva que, em pouco tempo, encharcaram seu molambento vestido preto. Mas Maria Eugênia não se sentiu encharcada nem molhada. Tocava em seus negros cabelos pesados pela umidade que retinham, mas não sentia a água escorrer por suas mãos. Simplesmente “não sentia”.

As distâncias também se comprimiam e a sensação de chegar mais próxima ao local que queria era fascinante. Não precisava se esforçar para alcançar. E, em um trocar de passos, começou a correr como se fosse uma criança. E um sorriso apareceu em sua triste expressão. Sentia-se renovada. Já não havia mais dor ou lamúria. Seu peito estava leve e sua respiração novamente serena. A frondosa árvore em cima da distante colina, que estava tão longe, de repente, apareceu à sua frente.

Nesse momento, eu não estou somente vendo essa cena, eu estou dentro da cena! E consigo sentir a água da chuva molhar meu corpo. Tento dar a mão para Maria Eugênia, mas ela está muito gelada! Não consigo tocá-la… quando a vejo, sua silhueta está ficando transparente e consigo enxergar a árvore por trás do seu corpo. Alguma coisa está errada… ela está… morta!

Uma tristeza profunda invade minha alma e eu sinto pena pela desgraça dela. Vejo o corte em seu pulso aberto, sangrando em pequenas e constantes gotas de sangue cor de vinho. Percebo que ela se suicidou dentro do seu quarto. Que jamais saiu de lá com vida. Que foi fraca. Que perdeu na sua batalha pela vida, foi sufocada por ela…

É quando uma entidade aproxima-se da alma dela e diz:

— Meu nome é Nefertite. Sou uma Deusa. Trabalho na linha entre o bem e o mal, a magia branca e a negra. O limite entre a vida e a morte. Em vários momentos da humanidade, fui confundida com as piores assombrações dos seres humanos. Não sou o mal completo. Apenas absorvo dele o que necessito para fazer sofrer os pecadores. Se perceber bem, não existem os “injustiçados” no mundo. Isso é tão somente uma perspectiva, um ponto de vista. Tudo o que acontece neste plano tem uma razão de ser. O sofrimento é gerado pelo próprio homem. Ele é o senhor do seu destino, é a sua salvação e a sua perdição. A luxúria, a vaidade, o poder. Todos criados pelo homem. Dele extraídos, nele condenados. Você é forte, guerreira. Preciso de soldados assim no meu exército. Quero sua alma a favor da “Legião da Justiça Divina”. Por alguns séculos, você vai fazer a justiça com as almas perdidas que reencarnam. Vai seduzir para que matem ou morram. Seduzir para que sofram. Muitas doenças existirão para ajudarmos a trabalhar na limpeza deste espectro de imundices. Muitos já se uniram à causa. Trabalhamos com as blasfêmias da humanidade para fazer com que provem do seu próprio néctar. Às vezes, não chegamos a tempo em alguma existência, mas intercedemos na próxima existência. Isso influi no processo de crescimento de cada alma perdida e faz, principalmente, com que a geração desta era evolua em uma corrente de Luz mais evoluída.

Agora, peço seu consentimento para a incluirmos em nossa Legião, como uma trabalhadora da corrente vermelha, de tudo que é relacionado com o sexo, nos seus extremos de dor e prazer. Você trabalhará em todas as causas pesadas que envolverem o uso do corpo como instrumento de prazer carnal e pueril. Vai causar a dor para ajudar a evolucionar. Se concordar com tudo o que ouviu, lhe darei uma segunda chance ainda nesta vida. Acordará em seu prostíbulo e retornará à vida. Você não se lembrará de nada do que aconteceu, apenas saberá que precisa chamar-se Maria Scarlet, pois a Maria Eugênia que você conheceu estará morta, exatamente aqui, nesta árvore, que é para onde sua alma virá depois de sua nova morte. Esta vida será sua última vida terrena e trabalhará em várias encarnações de seus amigos e familiares desta vida.

Anna Lara não estava sozinha. Nunca esteve. Sempre, em todos os momentos de sua vida, ela teve a presença da sua entidade, a Formosa Maria Scarlet, que desfilava com trajes negros de dançarina Guawasi e com muitos adornos dourados. Era ela que muitas vezes alçava Anna Lara do abismo em que estava. Sempre que se conectava com seu eu interior, Anna Lara encontrava-se com ela, sua dançarina. Era sua protetora, sua mestra, sua santa e sua puta. Estava em sintonia consigo mesma e enxergava uma luz brilhando forte, destacando-se do limbo da sua vida miserável. Era ela quem lhe dava as forças para seguir e renovava sua fé diante de todos os desastres aparentes.

E foi assim que entendi quem era Maria Scarlet e como ela havia se torna- do uma “Pomba-Gira”. A minha “Pomba-Gira”…

Acordo no dia seguinte, na cama, coberta e com meu pijama de cavalos. Não me lembro em que momento eu fui para cama ou troquei de roupa. Mas estou bem, sem ressacas ou tonturas. Foi como um sonho profundo, um sonho revelador, em que pude me conectar mais profundamente com a minha essência. Descobri, finalmente, quem é ela, embora ainda não saiba o porquê de ela ter me escolhido. Será que eu sou uma “pecadora”, será que sou pecadora pelo sexo sujo que faço?

Começo a entender meus desejos sexuais desde menina. A minha primeira masturbação aos oito anos, meu primeiro orgasmo e a minha primeira transa aos treze anos. Começo a me entender melhor.

Próxima leitura -> Capítulo 14

***

Trilha Sonora: Maria De Verdade – Marisa Monte

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