Décimo Segundo Capítulo

Ele me seduziu na cama e em todos os momentos em que não estávamos nela. Era nisso que meu corpo havia se viciado: no desejo dele por mim. Não saberia descrever um amor mais profundo do que o que ele me apresentava.

No dia seguinte, saio cedo para o trabalho porque tenho uma reunião com o dono da agência sobre uma nova conta que ganhamos, a conta da Zeedy, uma loja fashion de roupas femininas. A caminho do trabalho, resolvo olhar meu celular para checar meus e-mails. Acho que o efeito dos remédios me deixa um pouco distraída e, quando me dou conta, estou quase ultrapassando um sinal vermelho. Piso no freio bruscamente e o carro faz aquele barulho estridente de rodas queimando no asfalto. O celular cai embaixo do banco e meu rosto quase bate no volante. Refaço-me do susto e busco o meu celular. Depois que o encontro, levanto a cabeça e vejo a moça ao meu lado no banco. Levo mais um susto, dessa vez maior ainda, e fico completamente paralisada. Nunca a tinha visto com tamanha perfeição na minha frente. Parece uma pessoa de verdade, só que está um pouco transparente. Os carros atrás de mim começam a buzinar e, antes de sair com o carro, vejo-a soletrar o nome “Kauffmann”. Olho para a frente e, em um segundo, ela não está mais lá.

Passo o dia pensando no que aconteceu. Não sei se devo comentar sobre isso com a Dra. Kauffmann ou se guardo para mim a história da moça. Opto por esconder esse fato um pouco mais, em função do meu passado trágico, no qual fui submetida a vários exames e tratamentos para tirar a “moça” da minha mente. Mas fico com umaimpressão de que deveria ir à consulta hoje. Tento arrumar uma desculpa para aparecer lá sem parecer para a Dra. Kauffmann e para o meu marido que estou com algum tipo de ciúmes. Jamais gostaria de passar essa impressão para o Jota. Mas, pela primeira vez na minha vida, sinto realmente uma espécie de ciúmes dele. Não sei se é pelo fato de ela saber tanto e tão profundamente sobre nós, que me deixa mais vulnerável do que com as outras mulheres, que só conhecem o Jota na cama, quando elas o tocam superficialmente. Nenhuma delas o conhece tão profundamente; elas não conhecem a sua alma. Só eu e, agora, a Dra. Kauffmann.

Depois de quatro bombadas de Aerolin e o dia todo com taquicardia, resolvo ir até o consultório. A consulta do Jota é às 17 horas. Chego atrasada, às 17h20. Quando ia tocar a campainha, a Talita, secretária da Dra. Kauffmann, abre coincidentemente a porta. Ela me diz que a Dra. Kauffmann já está atendendo o Jota e que ela está saindo mais cedo hoje. Ela se oferece para subir comigo, mas eu digo que não necessita, que a consulta é conjunta e eu que havia me atrasado. Digo para ela ir tranquila que vou fechar a porta por dentro. Ela vai. Eu fico gelada. Subo as escadas com medo de ser ouvida. Não quero que eles me vejam espionando, mas não resisto à tentação de saber o que está sendo falado sobre mim.

Chegando ao segundo andar, percebo uma certa tensão sexual no ambiente. Minha respiração também se torna ofegante nessa “manjedoura psicossexual”. Escuto um pouco da conversa:

– Jota, o que você gostaria de fazer sexualmente com sua esposa, que ainda não fez? Ou que ainda não teve coragem de fazer?

– Ora, doutora… não me faça uma pergunta dessas… – Ele ri. – Coragem? Tenho coragem para foder qualquer pessoa de todas as formas possíveis… não me falta coragem… O que eu ainda não fiz com minha esposa? – Conheço meu marido melhor do que ninguém. Ele deve estar desesperado para pôr em prática as milhões de safadezas que declara em palavras, com todos os acentos, sílabas e pontuações… torço para que ele não fale nada desrespeitoso para minha médica. Ela não deve saber com quem está falando…

– Sim, Jota. O que você ainda não fez com sua esposa que gostaria de fazer?

Várias coisas… tenho vários planos para o nosso sexo. Na verdade, sou um homem muito criativo, doutora… muito criativo.

– E o que você tem vontade de fazer sem a sua esposa? – Nessa hora, eu percebo que essa consulta não é sobre mim nem sobre o Jota. É sobre ela! Essa mulher está me manipulando há semanas e eu só descobri agora! Ela já havia planejado esse encontro. Como não pensei nisso? Todo o tempo ela estava planejando transar com o Jota!

– Eu gostaria de fazer várias coisas, doutora… a primeira delas é te comer, te comer muito… te comer de verdade, com força e com maldade… quero te comer de quatro, como uma cadela, em cima dessa sua mesa.

– E o que você está esperando, Jota? — pergunta uma entusiasmada Mariana, já desfigurada da personagem de médica e “vestida” de mulher. Lentamente abro uma fresta de porta e vejo a seguinte cena:

Ele se levanta rapidamente e começa a abrir os botões do seu jeans rasgado. Tira a camisa e mostra seu abdômen impecável, cheio de gomos de músculos expostos na horizontal, em contraste com os músculos laterais que descem como uma cachoeira em direção à sua virilha. Suas veias se ressaltam deixando à mostra sua pulsação acelerada. Ele coloca seu pau lindo para fora, já duro, rosado, circuncidado, limpo. Os olhos da Dra. Kauffmann se arregalam, ao mesmo tempo em que se contorce na sua poltrona. Ele puxa os cabelos vermelhos da mulher devassa e manda que o chupe.  Ela o engole com vontade e, em movimentos bruscos e desesperados, enfia o júbilo o máximo possível para dentro de sua cavidade, chegando a atingir sua laringe. Suas mãos circundam as esferas do bumbum, apertando com toda a vontade primitiva. Ele, de repente, a afasta, puxando-a pelo cabelo para trás e, com a cara mais aficionada do mundo, diz: “tira a roupa”. Ela começa a tirar delicadamente até mostrar todo o corpo branco com sua pele aveludada e pelos púbicos alaranjados. Ele pede que ela abra sua genitália rosa e exponha seus lábios gordos e molhados. Começa a lambê-la incessantemente e, em poucos segundos, escuto-a gozar na boca do meu marido. Eu me encharco de tesão, ao mesmo tempo que a odeio com todas as minhas forças. Ela conseguiu quebrar uma barreira nunca antes penetrada. Conseguiu seduzir meu marido a ponto de fazê-lo me trair.

Penso em entrar nessa sala e acabar com a alegria deles, mas continuo ali, paralisada. Uma força me mantém presa àquela cena. Não consigo parar de ver a cena em que estou sendo traída. Essa dor me machuca e me humilha. Não sei por que, mas quero esperar até o momento em que o Jota goze. Aí, sim, posso entrar e deixar um gosto amargo na alma dele. Depois de beber o gozo da desgraçada, ele a levanta da poltrona, vira-a contra a mesa e a come de quatro, com exatas sete entradas bruscas em seu interior. Goza pecaminosamente de olhos fechados com seu rosto levantado. Acalma sua respiração, ao mesmo tempo em que espera seu tesão diminuir de tamanho. É o momento certo para entrar. Mas não entro. Sinto-me muito envergonhada para entrar em uma cena em que nada posso fazer. Já está consumado o ato de traição. Eu prefiro me colocar no meu lugar, no lugar da esposa maluca que é traída pelo marido e por sua própria psiquiatra. Saio devagar sem fechar a porta para não ser ouvida. Desço as escadas e saio em direção à Rua Vinícius de Moraes. Começa a chover. Não sei para onde ir, mas não quero pegar meu carro. Caminho em direção à praia, na chuva.

No caminho, percebo que estou passando em frente ao antigo prédio onde morava a vó Lia. Lá moraram a minha mãe e a tia Amélia com a vó Lia por quase toda a sua vida. Fico parada observando o edifício velho com cor amarela. É um prédio antigo, construído na década de trinta, com uma portaria de madeira com um grande vidro por toda a sua extensão. O apartamento fica no primeiro andar e nele estão escondidas várias histórias da minha família. Nele,“as paredes sangram”, foi o que disse vó Lia antes de morrer…

Chego à praia e me sento na areia. Estou só, a chuva aperta. Fecho os olhos e lembro-me de quando era pequena. Consigo me ver brincando na casa da vó Lia…

O grande corredor levava até o jardim de inverno, localizado no vão central do apartamento. À direita, um corredor levava para a suíte da minha avó; para a esquerda, outro corredor se formava para os dois quartos restantes, um da tia Amélia e o outro que havia sido da minha mãe. Lembro-me de ir para o lado esquerdo em direção ao antigo quarto da mamãe. Lá estava um homem de costas sentado na escrivaninha. O homem tinha costas largas e cabelo escuro. Olho para o corredor do outro lado e vejo, em frente ao jardim de inverno, a silhueta da moça. Agora me lembro de que foi o primeiro dia em que a vi. Ela me chama e eu não vou, fico com medo. Corro para dentro do quarto, em direção ao homem que está sentado. Tudo fica escuro de repente. Escuto a música de piano, alguém a está tocando na sala. Quando percebo estou no banheiro da vó Lia, toda ensanguentada. O sangue escorre pelas minhas pernas e eu não consigo fazer parar.

Sinto vergonha, muita vergonha. É uma vergonha que me paralisa, me imobiliza. Não consigo me mexer, não sei o que fazer. Vó Lia bate à porta, eu não abro. Ela insiste e eu pego a gilete da tia Amélia e corto minha virilha, perto do local onde sangra. Vejo minha carne abrir como um corte de rosbife bem malpassado e suculento. Sinto nojo e vomito. Os restos de comida misturam-se com o sangue que agora encobre todo meu pequeno corpo feminino de apenas sete anos. Abro a água do chuveiro e me encolho dentro da banheira amarela. Lembro-me de ter voltado à vida somente duas semanas depois disso… foi o período em que “saí do ar”.

Quando abro os olhos, a chuva já havia passado. Não quero voltar para casa. Não quero ver a cara do Jota… resolvo ir para a casa da tia Amélia e lá passar a noite. Desligo o celular para que o Jota não me encontre.

No dia seguinte, volto para casa. Jota está acordado me esperando. Começa a gritar antes que eu possa falar qualquer coisa. Faço um gesto de silêncio e mando que se cale. Ele soca a porta e se torna mais agressivo. Eu lhe dou um tapa na cara e ele me agarra pelo pescoço.

– Chega, Jota! Pra mim chega! Nosso casamento termina aqui! Eu não aguento mais você!!!

– O que está acontecendo, sua maluca??? Por que você sumiu desse jeito? Você quer ir embora?Então vai!!

– Eu vou sim, Jota! E aí, você fica com esse apartamento liberado para colocar a sua ruiva aqui dentro…

– O quê? – Seus olhos arregalam-se de terror. – Do que você está falando? – Ele tenta se certificar do que estou falando antes de se entregar.

– Estou falando da minha médica, Jota. Da mau-caráter da psiquiatra que deveria cuidar da minha cabeça fodida, mas que, em vez disso, prefere foder com o pau do meu marido! Estou falando de você, seu babaca, que, mesmo sabendo pelo que estou passando, é tão pervertido que não aguenta ficar com esse pau dentro das calças e acaba comendo a primeira mulher que abre as pernas. – Nessa hora sou interrompida com um beijo demorado. Sinto suas lágrimas molharem minhas bochechas. A nossa respiração iguala-se.

Anna Lara, perdão. Perdão. Eu errei. Não tenho o que falar. Vamos fazer o seguinte: eu vou para um hotel e te deixo um tempo sozinha. Você me procura quando estiver mais calma. Tome o tempo que quiser. Eu só posso pedir perdão…

– Jota, você está acabando comigo. Você está me destruindo! Não sou mais quem eu costumava ser, e não gosto da pessoa que me tornei. Sou uma escrava sexual sua que tem que aturar tudo em nome de um jogo perverso e imoral. E o pior é que você joga sujo. Você mesmo quebra as suas regras idiotas! Você coloca nossa relação em um nível em que tudo é muito fácil, só que na realidade não é…

– Anna Lara, eu sempre fui fiel do jeito que combinamos. Essa foi a primeira vez. — Nesse momento, ele engasga com sua própria saliva, fruto da sua reação cínica e típica do cafajeste que é. – Quero dizer, foi a primeira vez que aconteceu desde que nos casamos…

Lembro-me bem da primeira vez que fui traída. Levei um choque por ver meu amor com outra mulher na cama dele, quando ainda namorávamos. Ele me deixou em casa e foi buscar a Marcelle, uma amiga íntima dele que se julgava a “melhor amiga” – depois entendi o porquê… – Eu recebi um telefonema da Rosana, minha prima que, coincidentemente, era vizinha de porta da Marcelle. É claro que o Jota nunca imaginou que eu tivesse uma prima morando no mesmo prédio da sua “amante ocasional”.

Foi a primeira vez que terminamos depois de quatro meses intensos de namoro. Ele ficou devastado. Me procurou por semanas, mas eu me mantive firme na minha posição. Não aceitaria jamais ser traída pelo homem que amava. Mas com o tempo fui sentindo falta dele. Acho que, na verdade, senti mesmo foi falta do seu toque, do seu cheiro. Falta do olhar dele. Porque nunca ninguém havia me olhado daquela forma. Eu era admirada por muitos minutos seguidos, sem nenhum momento de distração. Era o objeto dos seus desejos quando seus dedos tocavam delicadamente a lateral do meu corpo, fazendo um desenho imaginário da minha silhueta nua. Ele me escrevia as mais lindas poesias sexuais e me mostrava as mais diversas formas de fazer sexo a dois. Ele me seduziu na cama e em todos os momentos em que não estávamos nela. Era nisso que meu corpo havia se viciado: no desejo dele por mim. Não saberia descrever um amor mais profundo do que o que ele me apresentava. Foi ele e sua forma poética de me amar que me fizeram voltar aos poucos ao mundo negro do meu Jota viciado em drogas e putaria.

No começo, resolvemos “ficar” por umas três semanas, apenas transando e buscando um ao outro em trocas de olhares que diziam muito subliminarmente o que estava para acontecer. Um dia, Jota me buscou na faculdade e me disse que teria de ter uma conversa séria sobre o nosso futuro. Fomos até o mirante do Leblon e pedimos duas caipirinhas. Jota, providencialmente, havia levado um cigarro de maconha com skank, que fumamos um pouquinho no carro, até que o vidro ficasse completamente embaçado e tivéssemos de sair, às pressas, rindo e cambaleando. De repente, Jota parou e me encarou como nunca fizera antes. Ele me disse que me queria para a vida toda, mas não para uma vida medíocre e quadrada, na qual eu havia sido criada. Ele me disse que me queria para ele, do jeito dele, inserida na vida dele.

Lembro-me bem das suas palavras:

“- Anna Lara, eu quero me casar com você. Mas não quero me casar da forma com que você está acostumada. Quero me casar com seu corpo e com sua alma. Quero fazer um “pacto de vida”: quero você toda para mim, como minha mulher, meu objeto de prazer, minha deusa e minha puta.”

Nunca havia escutado em toda a minha vida uma proposta de casamento tão estranha e tão sedutora. Ser dele? Como uma deusa e como uma puta. Como eu poderia resistir a essa proposta? Mas o encanto logo se foi quando ele continuou a explicar sua “proposta”.

“- Anna Lara, para termos uma vida juntos, você primeiro precisa me conhecer e depois você tem que me aceitar. Não quero te obrigar a fazer nada que você não queira, nunca. Mas vou precisar mudar você. Mudar seus conceitos sobre exclusividade no relacionamento.”

Na hora entendi que se tratava de aceitar as traições ocasionais com a Marcelle ou com outras mulheres que ele desejasse, mas não. A sem-vergonhice dele era tanta que a realidade era ainda mais intrigante.

“- O que eu quero te propor, Anna Lara, é um relacionamento “aberto”. Um relacionamento no qual nós vamos poder delirar de prazer com os corpos de outras pessoas, como instrumentos para nos excitarmos mais ainda. É um caminho sem volta, então você tem que pensar bem se o quer. Mas eu te garanto que você vai gostar. Você vai estranhar no começo, mas, depois que essa prática entrar na nossa rotina, você vai querer sempre. É como um vício. É um vício puto. E eu sou completamente viciado nisso! Não vou conseguir viver sem isso, Anna Lara. Essa é a forma que eu sei amar, me apoderando da pessoa que eu amo e fazendo com ela tudo o que me dá prazer…”

Hoje percebi que nunca deveria ter aceitado essa proposta suja de um casamento promíscuo, mas foi a única opção que ele me deu para continuarmos juntos. Fui fraca, eu sei. Mas não consegui resistir à tentação de entrar pela porta que se abria para mim. Era uma vida de luxo, de festas, de amor incondicional cem por cento do tempo e, também, uma vida de orgias rotineiras. As minhas exigências, as únicas que fiz, foram a de que nunca existisse sexo com outras pessoas sem mim e que fosse sempre algo combinado antes. Ele me jurou que jamais tocaria em qualquer mulher que não fosse tocada antes por mim e sob meu olhar.

Confesso que, no começo, quando o sexo era a três, com a presença de uma mulher, eu conseguia me excitar acariciando peitos e vaginas, mas não conseguia relaxar vendo meu homem beijando e transando outra mulher. Foi muito difícil, mesmo com a ajuda de ecstasy e álcool… com o tempo, fui me acostumando a essa dinâmica e acabei gostando de fazer esse tipo “alternativo” de sexo. A primeira vez que um homem me penetrou na frente do Jota, vi algumas lágrimas nos seus olhos e, para minha surpresa, algo inesperado aconteceu! Ele se levantou da poltrona, em que estava sentado assistindo ao “espetáculo”, e começou a beijar o homem que antes estava transando comigo! Em pouco tempo, ele estava curvado, apoiado na sua cômoda chinesa, e completamente entregue ao homem que pouco antes estava me comendo. Fiquei paralisada e ele me encarou o tempo todo em que estava sendo penetrado. Nunca achei que meu Jota seria capaz de fazer isso porque ele jamais me pareceu ser gay. Ele era sempre muito másculo e até irônico com os temas relacionados aos homossexuais…

Mas, depois dessa experiência, entendi o sentido do “sexo aberto”. Não era um sexo aberto somente para mim; era um sexo aberto para os dois para que, juntos, pudéssemos encontrar o “prazer proibido”. Era uma espécie de libertação de todas as regras e condutas sociais opressoras. Era um ato sublime de nos entregarmos a todo tipo de perversão em um mundo só nosso. Todos os parceiros de orgia sempre foram reles e, somente, parceiros de orgia. Eram pênis e vaginasprovidenciais à nossa esbórnia… e, no final de cada orgia, havia sempre uma nova poesia a ser recitada ao som de partituras de piano, entorpecidas por mãos calejadas de tantos toques pecaminosos e, invariavelmente, prazerosos.

Toda essa liberdade havia sido conquistada. Em um primeiro momento, eu aceitei algo que não me parecia certo. Mas com o tempo eu entendi que essa dinâmica me faria ser a única mulher importante na vida do meu Jota. A mulher com quem ele se casaria, que reconheceria perante toda a sociedade, que ele amaria mais que a própria vida e, finalmente, a mulher com quem ele teria vários filhos. Essa mulher não poderia ser alguém que não eu mesma. Nunca aceitaria dividir o olhar de desejo do meu homem com outra mulher. Aceitei o desejo carnal, mas jamais aceitaria o desejo de possuir essa mulher por completo. Esse olhar, o olhar que ele me dá, na nossa cama, todas as noites antes de dormir, esse olhar é só meu.

Voltando a encará-lo, depois de todos esses pensamentos do passado, começo a chorar muito. Grito para que ele saia da minha frente e arremesso o primeiro objeto que vejo na minha frente. É uma caixinha de cerâmica onde guardamos todo o nosso estoque de drogas caseiras. O quarto fica cheio de maconha e cocaína espalhadas pelo chão.

Ele baixa sua cabeça e vai embora. Encosto a testa na porta branca e fecho os olhos. Viro-me com as costas para a porta e desço lentamente até alcançar o chão sujo de tantas drogas. Sinto frio, muito frio. O frio incontrolável de um momento que não pode ser resgatado. O frio do arrependimento, do sentimento de fracasso, de um triste fim. Esse frio faz eu me sentir só como eu nunca me sentira antes. Um frio profundo, sombrio. Vejo meu passado passar por mim e me empurrar mais uma vez para o abismo.

No meio de tanta dor, só consigo pensar que sou mesmo uma desgraçada. Uma pessoa merecedora de toda a desgraça de ver partir o amor da sua vida. Acho que é o troco que a vida está me dando pelo que fiz com meu Miguel. O meu filho, morto no meu ventre com quatro meses. Minha barriga já estava grande quando eu descobri a deformidade dele. Fui fraca, muito fraca. Não consegui suportar a dor de trazer ao mundo um ser incompleto, deformado. Logo eu, que sempre fui tão vaidosa com meu corpo… não conseguiria assumir que era mãe demonstro! Sinto-me tão suja! Por que não o deixei viver do jeito que ele era? Por que deixei o Jota decidir sobre o nosso filho?

Olho para baixo e o pó branco parece reluzir neste momento, convidando-me para a festa e oferecendo-se para ser meu melhor amigo. Coloco-me de quatro e, como uma cadela devassa, começo a cheirar todo o pó branco que não foi engolido pelas frestas de madeira do chão de tábuas corridas.

Próxima leitura -> Capítulo 13

***

Trilha Sonora: Thinking Out Loud – Ed Sheeran

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