Décimo Primeiro Capítulo

…de repente tenho medo. Tenho medo de tudo o que a vida tem para me oferecer. Tenho medo da vida.

 

Segunda-feira, dia 04 de setembro de 2006

Chega o dia de voltar ao trabalho. Depois de mais de um mês afastada, não tenho coragem para voltar a trabalhar, para enfrentar a cara de reprovação do pessoal da agência… todos me viram grávida, minha barriga já estava grande. Eles vão saber que eu tirei o bebê! Essa história de que sofri um aborto espontâneo não vai colar… de repente tenho medo. Tenho medo de tudo o que a vida tem para me oferecer. Tenho medo da vida.

Na agência, todos me olham com um olhar de pena, acham que eu perdi o bebê e evitam falar sobre o assunto. Meu chefe, o Rômulo, e a Maria Amélia, minha melhor amiga, sabem que o bebê tinha problemas, por isso o choque psicológico e o tempo que eu precisei ficar afastada… Maria Amélia deve estar chateada comigo porque sumi por todo esse tempo. Ela não sabe do coma e de todo o resto. Um dia eu explico, por ora, tenho somente que voltar.

– Larinha!!! Que saudades! Como você está??? – Ela vem correndo ao meu encontro. Sou executiva de contas e Maria Amélia trabalha na parte da criação das artes publicitárias. Com 1,60 metro, cabelos curtos castanhos e olhos também castanhos, Maria Amélia aparentemente não possui nenhum atributo físico que a destaque na arte deseduzir. Embora não seja dotada de grande beleza, ela consegue usar toda a sua criatividade como arma para suas conquistas amorosas.

Minha “Meli” é uma menina tímida e meiga. Ela trabalha sempre comigo para os meus clientes. Formamos uma bela dupla. E o fato de ela ser gay jamais me incomodou, pelo contrário, sabendo da preferência dela por mulheres e, sofrendo a discriminação que sempre teve por parte de sua família, até me senti aliviada por saber que ela não me julgaria pelo meu sórdido relacionamento…

– Oi, Meli. Melhor, eu acho.

– Você teve alguma complicação? Por que não atendeu às minhas chamadas? Você está chateada comigo?

– Calma, Meli, calma. Não é nada com você, eu juro. Só estou mesmo chateada pelo que aconteceu…

– É. Muito triste mesmo. Conversei muito com a sua mãe, ela falou?

– Falou sim, Meli. Ela me contou que você ligou para saber de mim. Obrigada pelo carinho!

– Amiga, não precisa agradecer, a única coisa que você precisa é ficar bem!

Tentando melhorar o clima, Maria Amélia refaz o rumo da nossa conversa:

– Bom, ganhamos umas novas contas, a da Digital Books e a da Zeedy. E… temos uma nova secretária, uma loura de tirar o fôlego!

Humm, sei. E você já ficou amiga dela? Já a convidou para sair?

Não. Mas não vai demorar muito!!!

Imagino!!! Quero conhecer essa sua nova amiga, hein?

Vamos almoçar com ela hoje, que tal?

Não sei, Meli. Não estou muito no clima para sociais. Prefiro almoçar só com você, se não se importar. Queria ficar mais quietinha.

Entendo, amiga! Vamos almoçar só nós duas! E quero que saiba que você pode contar comigo para tudo o que você precisar, tá?

Respondo sim com uma leve balançada de cabeça e seguimos para as nossas baias. Quando eu chego à minha baia, encontro um buquê de flores azuis com um cartão:

“Anna Lara, nosso amor é como essas rosas azuis, lindo, delicado, cheio de espinhos e diferente… Jota Jr.”

Um mar de saliva desce difícil pela minha garganta e chega até a boca do meu estômago. Minha gastrite começa a gritar e meu corpo todo se estremece. Ele sabe. Sabe que estou infeliz e que penso em reconstruir minha vida de uma forma diferente e, por isso, está jogando todo o seu poder de sedução para me prender. Ele sabe o que me emociona e usa isso.

Não penso em me separar dele nunca, mas quero recomeçar meu casamento de outra maneira. Quero que ele agora seja só meu e eu dele. Quero pureza de almas e de vida. Não quero mais entrar nessa roda-viva de emoções loucas, de tesão explícito e gozo mágico à custa de muita sacanagem. Não quero mais “sacanagem”… quero uma vida normal, com altos e baixos de qualquer casamento, mas com uma realidade possível para criarmos nosso filho, quando ele finalmente chegar. Hoje estou mais convencida de que as palavras da minha mãe fazem sentido. Não vou virar uma evangélica fervorosa, mas vou “tentar”. Tenho que fazer alguma coisa para salvar a minha alma de pecadora…

Resolvo ligar para minha mãe e contar a novidade. Ela pula de alegria do outro lado da linha. Diz que o Marco Aurélio vai fazer um culto amanhã para mais de quinhentos fiéis, mas amanhã não é um bom dia. Tenho que focar no meu trabalho, acabei de voltar e faltar já no segundo dia pega muito mal. Combino de ir no sábado seguinte. Na verdade, já estou um pouco arrependida de ter dado essa notícia assim, sem nem pensar melhor. E o Jota, o que vai dizer quando souber? Será que vai achar que eu estou virando puritana? Ele detesta evangélicos. Considera-os fanáticos. Mas fanatismos não é algo de que o Jota possa mesmo reclamar, já que ele, mais do que ninguém, é super extremista. O dia termina bem. Pela primeira vez desde o hospital, estou dirigindo meu carro. É uma Land Rover preta com o interior bege. Carro para mim tem que ser preto. Preto, preto e preto. Sempre preto!!! Minha cor preferida… reparo que eu também estou toda de preto, incluindo bolsa e sapato. Coloco um dos meus cds de piano. Não há música mais relaxante que as notas de um piano. Uma sintonia em especial insiste em ecoar em minha mente, mas, simplesmente, não consigo encontrá-la em nenhum disco meu, ou mesmo na internet. Já a busquei em todos os lados, mas parece que ela não existe, que eu a inventei. Já me disseram várias vezesque ela não existe, mas eu não acredito. Sei que um dia vou encontrá-la. Chego em casa, Jota já está me esperando. Disse que a  Dra. Kauffmann havia ligado e marcado uma consulta com ele também.

Parece que ela quer escutar o que ele tem a dizer sobre mim para ajudar no tratamento. Fico um pouco constrangida por saber que estarão falando de mim sem a minha presença… pergunto se ele quer que eu o deixe na consulta, já que o meu horário é sempre pela manhã bem cedo, e ele me diz que não, que ela reservara os dois últimos horários para o atendimento.

Entro na ducha, enquanto Jota prepara um risoto de camarão para nós. Saio e, ainda molhada, ele me oferece uma taça de vinho rosé. Tomo o primeiro gole e espero sua ordem para que eu me vire. Feito! Manda que eu me vire e entorna o vinho na parte de trás do meu pescoço. O líquido escorre pelas minhas costas chegando até a região da minha lombar, onde para e escorre para a divisão da minha bunda. E é ali, no meio do meu rabo, que ele começa a me lamber toda. A lambida passa para a frente e termina na nossa cama, ao som das partituras perdidas que insistem em tocar no fundo da minha mente…

***

Trilha Sonora: It Must Have Been Love – Roxette

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s