Décimo Capítulo

Nesse momento, Ricardo apoia sua mão na minha, que está repousando sobre a mesa. Sinto o suor escorrer pela pele de dentro da palma da sua mão e tocar na pele superior da minha. Remeto-me ao nosso contato sexual, carne com carne, suor, gozo e saliva. Lembro-me do olhar do Jota me devorando devagar, aproveitando cada movimento do Ricardo para me tocar e percebo seu sorriso de satisfação ao me ver gozar de prazer…

Três semanas depois…

De repente o telefone toca: é minha mãe, alertando-me sobre aconsulta com o meu ginecologista.

– Alô…

– Anna Lara!

– Mãe?

– Você sabe que horas são? São 9:15 h da manhã! Você se esqueceu da sua consulta com o Dr. Pires?! Estou aqui embaixo no carro para levá-la, conforme tínhamos combinado ontem!

– Mãe, chega. Eu já entendi… realmente me esqueci. Esses remédios me deixam com muito sono… vou me arrumar e já desço. Você quer subir?

– Você sabe que não. Prefiro esperar aqui no carro. Desça logo!

Desço. Percebo que algo não está bem. Minha mãe está visivelmente irritada.

– Mãe, o que foi?

– O que foi? Não sei. Você me diz, Anna Lara. Você está bem agora, depois da sua incursão espiritual no mundo das oferendas?

– Do que você está falando?

– Soube que a Amélia a levou naquele Centro Espírita dela! Que Deus tenha piedade da alma da Amélia, mas eu não vou deixar você se perder com ela! Tenho que livrar você desses obsessores!

– Para, mãe! Para com isso! Por favor. Eu não aguento mais. Você me encheu de remédios quando eu era pequena, me tratou como uma doente mental por causa das minhas “visões” e chegou até a me internar, mãe! — Lágrimas saltam dos meus olhos e não consigo controlá-las.

– Minha filha, quando você era pequena, você teve uma espécie de amnésia. Uma espécie de surto psicótico que a tirou do ar por duas semanas. Pensamos que você poderia ter algum problema neurológico e a levamos no melhor especialista nessa área, o psiquiatra infantil, Dr. Ulisses, muito conceituado até hoje, inclusive. Nunca fiz nada que não fosse para o seu próprio bem!

– “Para o meu próprio bem”? Mãe?? Você me colocou naquele inferno…

– Minha filha, depois desse episódio horroroso, você começou a ver aquela mulher. Você entrou em um quadro de alucinação. Precisava tirar você desse lugar. Tirar você de onde quer que você estivesse. Eu e o Marco Aurélio sempre estivemos do seu lado, mesmo que você não acredite nisso.

– Eu só sei que, se não fosse pelo meu pai, que me tirou daquele inferno, eu ainda estaria lá! Meu pai acreditou em mim! Ele sabia que não era alucinação!

– Ah! Anna Lara! De novo essa história da sua tia Amélia? Essa coisa de espírito não é de “Deus”, Anna Lara! Esses obsessores só existem porque saem do inferno para nos atacar! Seu pai preferiu seguir esses diabos e olha só onde ele está. Olha só o que aconteceu com a nossa Caroline! Vamos parar com essa história! O que a livrou dessas “alucinações do Demônio” foram os remédios que lhe demos e as orações fortes do Marco Aurélio!

– Mãe, não desacredito no poder das orações do Marco Aurélio, mas foi a tia Amélia que me fez parar de ver a moça. E também não foram os remédios…

– Chega! Vamos parar por aqui, Anna Lara. Não quero mais ouvir essa história! Você só está assim, nesse estado, porque foi nesse lugar imundo!

– Meu filho estava deformado, mãe! Ele não iria ter uma vida normal. Você sabe disso!

– E o que é uma vida normal para você, Anna Lara? A sua vida? Ele era um ser de Deus! Um ser que merecia ter vindo ao mundo! Meu neto. — Nesse momento, uma pausa amarga o rosto sofrido da minha mãe e percebo que ela está sufocada de tanta dor… — E esse neto ia me trazer a alegria que eu perdi com a partida da Caroline…Estarreço-me com tanta tristeza. Não sabia que Miguel seria tão importante assim para a vida da minha mãe. Não fazia ideia de que existia tanta expectativa em torno da chegada dele. Não queria carregar mais essa culpa…

Ficamos em silêncio até chegarmos ao consultório. Depois da consulta, havíamos combinado de almoçar pela Barra mesmo, mas peço a minha mãe que me deixe em casa. Ela percebe que se excedeu e resolve fazer as pazes, como sempre.

– Me desculpe, minha filha. Não podia ter falado assim com você. Eu me excedi.

– Como sempre.

– Anna Lara, não seja rancorosa com sua pobre mãe. Sei que exagerei. Às vezes, erro como qualquer ser humano, minha filha.

– Está bem, mãe. Vamos esquecer essa história. Mas me deixe em casa, por favor. Estou exausta e com sono por conta desses remédios que ando tomando…

Nos abraçamos caladas por muito tempo. Não me lembro de ter recebido um abraço desses desde que minha mãe se casou com Marco Aurélio. Ele é um homem super dominador e ciumento. Não deixava minha mãe fazer nada sozinha, nem com as filhas. Também queria que nós o amássemos como se fosse um segundo pai, mas a verdade é que ele nunca nos conquistou para isso. Não sei explicar por que sinto tanta raiva do Marco Aurélio, mas a verdade é que o odeio com todas as minhas forças! Desde o começo, quando entrou em nossas vidas, até hoje.

À tarde, resolvo sair para tomar um ar. Já passou quase um mês que saí do hospital e ainda me sinto estranha. Não sei se as sessões com a Dra. Kauffmann têm me ajudado tanto quanto eu esperava. Na verdade, eu me sinto cada vez mais deprimida. Pensando na Dra. Kauffmann, percebo que a única coisa que falo durante a terapia é no meu relacionamento com o Jota. E por que isso importa tanto para ela? Se o Jota é apenas uma parte — torta — da minha vida? Ele não é o centro do meu universo como ela tem colocado nas análises, ele só faz parte dele. Não entendo por que tanto interesse na nossa vida sexual…

Resolvo ligar para o Ricardo durante minha caminhada na praia e pergunto se ele pode me encontrar no café do shopping Rio Design do Leblon. Ele pode, claro. Vou caminhando e chego em cinco minutos. Quase meia hora depois, ele, sempre atrasado, chega correndo e suado. Seu suor me dá asco. Lembro-me da vez em que tive que chupá-lo até que gozasse. Gozo ralo, com cheiro de óleo de amêndoas. Acho que ele usa esse óleo. Não sei, mas, quando o vejo, percebo-o sempre um pouco ensebado, um tanto gorduroso.

– Oi Lari! Tudo bem com você? — E me olha com esse olhar de ternura… olhar de amor. Acho que é desse amor que tenho nojo. Esse amor de “irmão”, amor de quem pensa em fazer amor como no filme “Love Story”. Essa forma de amar me cansa, me tira a vontade de fazer sexo. Por isso jamais conseguiria me envolver com Ricardo (se Jota não existisse é claro!), porque ele tem uma forma terna de amar. Uma forma que me remete à forma do Marco Aurélio com minha mãe. E não sei por que, mas essa forma é algo que jamais consegui suportar! Passei minha vida tentando entender por que preciso tanto de um amor sacana, por que me encontrei tão plenamente feliz em meu relacionamento com o Jota e, finalmente, porque preciso tanto desse amor sujo e pervertido.

– Oi, Ricardo! Tudo mais ou menos. Muitas questões, muita dor ainda. Tenho pensado em te ligar já faz um tempo. Hoje tomei coragem.

– Fala, minha querida, pode falar tudo comigo. — Nesse momento, Ricardo apoia sua mão na minha, que está repousando sobre a mesa. Sinto o suor escorrer pela pele de dentro da palma da sua mão e tocar na pele superior da minha. Remeto-me ao nosso contato sexual, carne com carne, suor, gozo e saliva. Lembro-me do olhar do Jota me devorando devagar, aproveitando cada movimento do Ricardo para me tocar e percebo seu sorriso de satisfação ao me ver gozar de prazer…

– Ricardo, tenho frequentado as sessões da Dra. Mariana, mas confesso que acho essa mulher muito estranha. Não sei se é normal e por isso te pergunto, já que você é o profissional aqui, a psiquiatra se interessar tanto pelos detalhes mais sórdidos e íntimos de um casal. Às vezes me sinto como se estivesse fazendo um ménage à trois.

– Ciúmes, Lari? — E sorri de forma irônica esse homem com cara de veterano de guerra!

– Não propriamente, Ricardo. É mais um incômodo. Não quero ser manipulada.

Mas manipulados somos todos, conscientes ou inconscientes, Lari.

Como assim?

Ora, eu mesmo. Estou aqui, não estou? Você sabe, sempre soube que eu te amo, Anna Lara. Te amo desde sempre, antes mesmo de transarmos. Eu te amo e te desejo demais. Não consigo parar de pensar em você.

– Ricardo, eu sou casada. Casada com seu amigo! Para com isso…

– Eu sei, Lari… o meu amigo, seu marido. O mesmo que te ofereceu para mim por uma aposta idiota! E que ficou nos vendo transar, excitado. Você acha que eu não sei? O que o Jota tem para te entregar? E não me diga que é amor porque isso não é amor! Isso é excitação, é tesão. É tudo, menos amor. Amor é o que eu sinto por você. Vontade de cuidar de você, de ter você por inteira… para mim.

– Ricardo, realmente eu…

– Anna Lara, minha “Lari”, o que eu quero te dizer é que eu sei que você está ligada ao Jota de uma forma muito profunda e emocionalmente muito mesclada, confusa. E o fato de te amar assim, tão profundamente, só me deixa mais confortável na posição de submisso a esse amor, ou, digamos, “manipulado conscientemente”.

– Mas você não está sendo manipulado, Ricardo!

– Não. Estou me deixando ser manipulado. O que é diferente, mas no fundo nem tanto assim. Eu estou aqui, não estou? Estou aqui te esperando para te valorizar realmente, da forma que você merece. E, mesmo sabendo que esse dia provavelmente nunca chegará, continuo aqui.

– Ricardo. Não sei nem o que dizer…

– Não diga nada, Lari. Só não tente entender tudo o tempo todo. Nem nós, psiquiatras formados, conseguimos entender tudo, que dirá você, uma pessoa que está passando por esse tipo de situação.

– Você quer dizer ainda mais eu, uma pessoa “maluca”?

– Meio… – E nós dois rimos e mudamos de assunto. Passamos pela minha mãe e pela Caroline até chegar a meu trabalho, de como eu faria para enfrentar todos que me conheciam tão bem e que me viram feliz com minha barriga gigante de quatro meses. O que dizer? Que tipo de “acidente” eu teria sofrido para perder meu tão esperado bebê? Na segunda-feira seguinte, eu teria de enfrentar essa situação e estava realmente preocupada com a reação das pessoas…

Saímos do café e, como bons amigos, fomos até uma livraria próxima para escolher alguns livros. Uma paixão que compartilhamos são os livros de história. Trocamos sempre vários exemplares e chegamos a colecionar edições mais antigas…

Próxima leitura -> Capítulo 11

***

Trilha Sonora: Wild World – Cat Stevens

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