Capítulo 9

Gosto dessa promiscuidade toda. E é por isso que até hoje não consigo me desligar do Jota… porque com ele eu não me sinto somente uma “mulher”; sinto-me mais do que isso… sinto-me uma “puta”.

Uma semana depois…

Mais uma consulta com a Dra. Kauffmann.

Chegando à consulta, vejo a minha psiquiatra com uma saia curta demais para uma profissional. Seu jaleco passa da altura da saia, que é levemente rodada. Está com uma blusa de renda cor off-white, fazendo um jogo de múltiplas tonalidades claras no visual “chic e sexy”… ela é bonita, muito bonita para uma ruiva natural. Eu nunca achei mulher ruiva bonita, mas essa tem uma beleza suave, serena. Ela se parece com aquelas bonecas de porcelana de antigamente: cabelos de cor bem laranja, pele claríssima, sardas marcantes e olhos de tom azul cristalino, que se complementam perfeitamente com seu rosto triangular, esticado. Não havia reparado, mas ela é realmente linda!

– Então, Anna Lara… vamos recomeçar de onde paramos. Não quero que você meça palavras nem se sinta constrangida comigo. Você pode se abrir e eu não estou aqui para julgar nenhum tipo de comportamento seu, seja ele qual for. Sou sua médica e estou aqui para ajudá-la, ok?

– Ok…

– Então, como você descreveria sua relação com o Jota?

– Promíscua.

– E por quê?

– Porque fazemos coisas que os casais normais não fazem. Somos um casal liberal demais para os padrões certinhos. Transamos com outras pessoas, fazemos coisas baixas na cama. Também gostamos de falar baixarias.

– E a promiscuidade se resume somente aos momentos sexuais de vocês ou está presente em todos os momentos da relação?

– Acho que está relacionada somente à parte sexual mesmo. Nos outros momentos, sinto que somos um casal igual a outros. Temos nossos momentos no cotidiano, vemos filmes na cama comendo pipoca, fazemos compras no supermercado, treinamos juntos, jantamos em restaurantes… estamos sempre viajando para lugares interessantes.

– Então vocês possuem um diálogo que ultrapassa essa esfera sexual?

– Claro! E mesmo na questão sexual não falamos somente com uma abordagem, digamos, “pesada”. Também tem muita poesia na nossa vida sexual. O Jota, ao mesmo tempo em que coloca as palavras de uma forma muito vulgar em alguns momentos, também me escreve uma série de poesias…

– Poesias? Que interessante… um homem tão másculo, esportista, bem-sucedido, jovem e… poeta? O tesão dele deve estar associado às palavras.

– É… ele escreve poesias eróticas. Adora poesia; vê poesia nas palavras, nos gestos e nas circunstâncias.  Ele é um poeta sexual, com uma dinâmica própria…

– E de todas as poesias que ele fez para você, qual foi a que você mais gostou?

– A poesia que eu mais gosto foi a que ele me recitou na noite em que fizemos sexo, “Organicamente Sua”. Essa é a poesia que mais traduz a nossa relação…

– E como é essa poesia? Você pode recitá-la para mim?- A doutora fica desconfortável, como se tivesse sido descoberta em sua própria curiosidade… percebo seus olhos azuis cristalinos ávidos, esperando para ver as imagens que sua mente produziria a partir dessas palavras. Não ligo e resolvo recitá-la:

À sua espera minhas mãos se molham de prazer e meus músculos se contorcem de aflição. Cada espaço e cada contorno do meu corpo se destacam para te dar o que há de melhor nele. Não existe nenhum toque que eu deseje mais do que o seu. Meu corpo se tornou sua morada desde que você o invadiu e o conquistou por completo. Cada profundidade do meu corpo se tornou rasa para satisfazer sua fúria e, cada espaço vazio, se alargou para acomodar sua ansiedade viril. Você se apossou de mim e me transformou. Hoje sou seu, organicamente seu…”

– Nossa! Que linda essa poesia! Seu marido é mesmo um poeta!Tamanho entusiasmo não poderia ser menor. Ele é mesmo um poeta. E um poeta sacana, sedutor e viril. Um poeta e um homem que gosta de transar com perversão. Perversidade e poesia: essa é a arma secreta do Jota. – E ele gosta de usar as palavras durante o sexo?

– Como assim? — Sinto-me um tanto constrangida…

Ele a seduz com palavras antes ou depois do ato sexual? Pergunto isso para entender até que ponto você é a parte mais frágil ou a que exerce maior liderança na relação.- Explica um pouco sem graça sua curiosidade porcamente embasada em uma teoria psicanalítica.

– Bom, ele realmente gosta das palavras… mas digamos que ele usa as poesias antes do sexo. Ou depois. Durante o ato ele também utiliza palavras, mas palavras mais baixas. – Começo a me lembrar de algumas baixarias que ele costuma falar quando estamos transando só nós dois… “Fala, Anna Lara! Fala! Fala que você quer leitinho no seu rabo, sua vadia. Fala que você adora leitinho no seu rabo, puta…” – Mas essas palavras são íntimas demais para partilhar com qualquer pessoa, mais ainda com minha psiquiatra. Já estive envolvida em vários atos de sexo grupal e nunca me senti tão invadida sexualmente quanto agora. É muito mais fácil fazer sexo promíscuo do que falar sobre ele…

Já estive envolvida em vários atos de sexo grupal e nunca me senti tão invadida sexualmente quanto agora. É muito mais fácil fazer sexo promíscuo do que falar sobre ele…

– Entendo. Ele gosta de certas “perversões”, digamos… e essas perversões lhe agradam?

– Sim. Agradam. Muito.

E imagino que sejam essenciais para a atividade sexual do casal, certo?

Ele não se excita com filmes pornôs ou com sexo com desconhecidos. Ele não consegue manter uma ereção com qualquer mulher, mesmo que essa mulher seja linda. Ele precisa de uma conexão, de um elo.

– Entendo. E você é o gatilho da sua ereção?

Mais ou menos. Ele gosta de mim em uma situação de subserviência, como um objeto ou uma prostituta. É tudo uma fantasia da cabeça dele, submeter a mulher dele, que é sagrada pelas leis do “Alcorão”, a uma situação de depravação moral. Isso é o que ele gosta de fazer. De quebrar os limites sociais. Na cabeça dele, funciona assim. Muitas vezes ele gosta de me ver transando com seus amigos, com pessoas do seu relacionamento. Também gosta de transar com mulheres que conhece, mas sempre com o meu consentimento.

– Então, se ele precisa do seu consentimento para tais atos “libidinosos”, você acredita que ele nunca a tenha traído?

Nunca. Ele não precisa. Na verdade, ele simplesmente não consegue fazer nada escondido de mim. Ele precisa da minha aprovação.

Vocês encontram juntos um “equilíbrio sexual”, chegam a um mesmo ponto comum. São parceiros e cúmplices de sexo promíscuo.

Sim. Nós gostamos de promiscuidade, juntos. Eu o satisfaço em todos os seus desejos mais sórdidos… transo com todos com quem ele escolhe. Estou sempre disponível.

E isso não a incomoda?

Sim, me incomoda. Eu vivo em um conflito. Por um lado, amo transar com o Jota dessa forma; gozo muito e me sinto “livre”. Mas, por outro lado, eu me sinto suja, depravada. Me sinto uma pecadora! Imagino se minha mãe soubesse de metade das coisas que faço na cama com o Jota. Ela nunca mais iria querer saber de mim. E acho que muito do que eu estou sofrendo agora é por causa dessa minha depravação. Acho que Deus está me castigando por eu ter cedido ao pecado.

– Anna Lara, não existe sensação “suja ou limpa”, assim como não existe “certo e errado” na cama. Existe desejo. E desejo não possui limites. A vida é uma paráfrase de paradigmas, Anna Lara. Tudo se resume a paradigmas. Somos expostos a paradigmas desde o nosso nascimento: são paradigmas sociais, paradigmas sexuais, paradigmas religiosos e vários outros. Acredito que você viva hoje entre dois paradigmas: o paradigma familiar-religioso, ao qual você foi exposta desde pequena e o paradigma sociossexual, no qual você está inserida atualmente.

Hoje em dia, é muito comum casais ultrapassarem certas barreiras em busca de “conhecimento sexual”. Essa quebra de barreiras está ligada à questão da autoafirmação feminina, em busca do seu lugar em uma sociedade tradicionalmente machista, em que somente os homens podem “provar o fruto proibido” sem receber o julgamento dos homens. E a religião embasa toda essa questão. Somos pecadoras porque ousamos desobedecer. E desobedecer tem punição severa em outro plano. Bem providencial, você não acha? Ser punido em um purgatório que não se pode ver, somente imaginar.

– É verdade, Mariana… E esse purgatório pode nem mesmo existir, não é?

Isso nunca vamos saber. Só mesmo depois que morrermos.

Acho que depois que eu morrer, na verdade! — E não contenho uma gargalhada cruelmente embasada.

Anna Lara. Olhe bem os seus paradigmas… você não é uma pecadora . Você é uma mulher com desejos sexuais plenamente consentidos por seu marido.

Saio da consulta mais aliviada… sinto-me menos culpada pelo que sou e sinto. Se sou puta ou ninfomaníaca, a Dra. Kauffmann acabou de me dizer que não é necessariamente um problema ser assim. E na verdade eu sou assim. Gosto dessa promiscuidade toda. E é por isso que até hoje não consigo me desligar do Jota… porque com ele eu não me sinto somente uma “mulher”; sinto-me mais do que isso… sinto-me uma “puta”. E eu gosto dessa sensação, mesmo sendo uma sensação depravada.

Próxima leitura -> Capítulo 10

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Trilha Sonora: Eletricidade – Fernanda Porto

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