Oitavo Capítulo

Porque o que veio a esse mundo de um jeito, minha filha, a esse retornará; da mesma forma seus frutos, e os frutos dos seus frutos. Somos todos frutos de uma mesma árvore e dela não escapamos

Depois de penetrarem a vergonha de Maria Eugênia com toda a força possível, os rapazes viris não se contentaram simplesmente com gozo alentador, preferiram algo mais visceral. A dor em Maria Eugênia a faria mais atrativa para o cortejo de imprestáveis criaturas que não se importavam com a fartura de um banquete, se este não viesse acompanhado do deleite da aflição. Sentiram desejo de machucá-la. E machucaram. Penetraram-na por trás inúmeras vezes, tantas quanto conseguiram. Beijaram seu rabo com vontade, ao mesmo tempo em que insistiam em feri-lo com impetuosidade. Foram cruéis ao colocá-la sobre o mar de lama fétida que esvaía dos porcos. Mais cruéis ainda se tornaram quando ofereceram seu banquete ao animal de quatro patas que ali assistia ao espetáculo bárbaro, contorcendo-se com igual avidez que os exemplares da raça humana.

Foi ela, banquete de monstros e de animais. Não contentes com tamanha libidinagem, acabaram com o ato escravizando Maria Eugênia a uma vida de miséria. Retiraram-lhe o vintém que lhe restara ao cortarem com uma lâmina afiada seu precioso rosto aveludado. Deram-lhe um golpe certeiro que lhe sacou parte de tão preciosa beleza, e também toda a sua virtuosa comoção ao ato sexual. Tornou-se pervertida puta de braços frios e pernas quentes. Não servia mais para amar, somente para odiar aqueles que, com satisfação, ofereciam o gozo amargo para guardar em seu corpo sujo. Nunca cicatrizou a ferida que lhe machucara a alma. Mais do que qualquer ardor, aquele foi o que devastou Maria Eugênia.

Nunca cicatrizou a ferida que lhe machucara a alma. Mais do que qualquer ardor, aquele foi o que devastou Maria Eugênia.

Com seus olhos marejados pelo horror recém-vivenciado implorou pela morte. A morte mais lhe serviria do que uma vida sem beleza. Estar presa a esse mundo com a aparência de uma serva explorada parecia-lhe a pior forma de escravidão possível. Os jovens perversos se contentaram em deixá-la com os estrumes fétidos e as sobras das vestes rasgadas e seguiram seu caminho para a vila mais próxima. Entre sangue, excrementos e gozo, Maria Eugênia arrastou-se para fora do celeiro até a margem de um rio. Lá chegando, abaixou-se e verificou o estrago de seu rosto. Quando olhou para o seu reflexo no rio, não conseguiu ver sua face descomposta, mas viu a sombra de uma outra mulher. Viu a imagem de sua avó cigana. Viu as cartas da sua vida girando em cima das águas cristalinas desse rio. As cartas passavam por si com a mesma sequência que sua avó retirara no dia em que lhe abriu o tabuleiro sagrado. A primeira foi a carta da morte, que envolveria toda a vida de Maria Eugênia. A morte para a vida e o renascimento, representado pela carta seguinte. Finalmente reconheceu a carta da Imperatriz escura, que governa pela dor. Viu-se forte o suficiente para continuar a seguir sua estrada…

***

Acordo suando. Fico apavorada com o que sonhei, ou vivenciei. Já não sei. Parece que sou eu nesse sonho, mas sei que não sou. É a história de outra mulher, a história dela, da moça. Fico intrigada com as cartas que ela viu e penso nisso. Talvez minha vida também esteja escrita nas cartas. Talvez elas possam me explicar um pouco o que aconteceu comigo ou o que está por vir. Imediatamente busco meu celular para ligar para tia Amélia.

Hoje é segunda-feira, dia das obrigações no Centro Espírita. O dia de jogo é na quarta-feira e já está com todos os horários lotados. Insisto muito e acabo conseguindo que a Mãe Dalva me atenda hoje.Quase três horas depois do planejado, conseguimos chegar ao Centro. Tia Amélia segue em direção ao pátio de terra para iniciar os trabalhos das “obrigações”. São oferendas feitas pelos filhos de santo do terreiro para ofertar aos deuses da Umbanda, em troca de favores terrenos. Essa é a lógica da religião espírita: você tem um contato direto com os deuses, que lhe fazem favores em troca de oferendas materiais. Essas oferendas são comidas preparadas, muitas vezes, com animais mortos, sacrificados para saciar a fome dos Orixás. Um “cordeiro” entrega seu sangue por meio da sua morte para dar vida aos desejos dosmortais. A relação de vida e morte é a linha tênue que divide os lados dos mortais e dos imortais. Os imortais são divididos em várias categorias: os que têm menos luz são os menos poderosos; aqueles com mais luz são os Orixás, deuses que têm poderes ilimitados.

Vó Lia, assim como a tia Amélia, era devota dos Orixás e praticava uma religião muito parecida com a religião da Umbanda, porém trata-se uma religião mais perigosa de se praticar. Não é a  Umbanda, mas sim, uma dissidência mais radical desta, chamada de “Quimbanda”. A “Quimbanda” diferencia-se da “Umbanda” por ser uma religião que ataca o feitiço de magia feito e também o feiticeiro que o fez. Já a Umbanda só desfaz o feitiço feito, sem nenhum ritual de morte envolvido…

Minha avó era uma bruxa, uma médium poderosíssima. Ela me ensinou muitas coisas sobre o mundo espiritual, mas muitas questões ainda permanecem sem resposta para mim. Antes de morrer, lembro-me das suas palavras sobre os “segredos de família”. Ela me disse que toda família possui segredos escondidos no plano inferior, que são passados de geração em geração. Esses segredos são os “carmas familiares”. Esses carmas não podem ser quebrados nunca em vida, e nem a morte é capaz de rompê-los: “Porque o que veio a esse mundo de um jeito, minha filha, a esse retornará; da mesma forma seus frutos, e os frutos dos seus frutos. Somos todos frutos de uma mesma árvore e dela não escapamos”. E assim seguiu sua caminhada. Fechou seus olhos e deixou esse mundo.

Entro no quartinho de tarot da Mãe Dalva. Esta me olha com um olhar que me dá medo. Senta-se com seus mais de cem quilos em sua poltrona de veludo vermelho gasto, retira seus vários colares de contas e os coloca no canto da mesa, circundando um copo de vidro com água, que contém uma enorme pedra preta dentro. Eu lhe pergunto o porquê da água e da pedra e ela me explica que a água é um conector de mundos, que permite a passagem das informações do mundo dos mortos para nós. A água, o espelho e a fumaça são poderosos portais que permitem a conexão com o astral. Existem outros meios, vários. Mas a conexão mais cristalina é por meio da água, a fonte primária de vida, pela qual nos formamos e que nos sustenta nesse plano.

Seguindo o jogo, Mãe Dalva embaralha com maestria o bolo de cartas velhas, fazendo verdadeiros malabarismos com suas mãos gordas e longas unhas vermelhas descascadas. Ela me pede que eu separe o monte embaralhado em três montes menores, sempre com minha mão esquerda. Assim o faço. E, do monte menor, ela começa a abrir o meu jogo em cima da mesa.Várias cartas apresentam-se, demonstrando o caminho que minha vida vai seguir daí em diante. Dentre elas, a Mãe Dalva chama a atenção para cinco cartas específicas:

Carta da Morte:

– Esta carta mostra o senhor da morte acompanhando você por essa vida. Há uma energia de morte que te acompanha. – Fico paralisada com o que ouço.

– Será que é o meu filho morto? O Miguel está me acompanhando ou é a “moça” que me segue?

Com uma risada contida, Mãe Dalva diz:

– Muitos mortos te acompanham, Anna Lara. Você vai descobrir isso. Na hora certa. Mas não tenha medo. O orixá que governa sua cabeça é Iansã, a mãe dos ventos e tempestades. E a qualidade da sua Iansã se chama Iansã- Gbale ou Iansã-Balé (aquela que retorna à Terra). Ela é a Deusa dos mortos, a dona do Portal que liga os dois Mundos, ajudando os moribundos a passar para o outro lado, por isso é a senhora dos cemitérios. Tem pleno domínio sobre os mortos, trazendo consigo uma falange de Egun que ela controla, pois todos temem seu poder. Ela vive na ponte, e você é mensageira dela. Mas cuidado! Quando andamos muito perto do precipício, às vezes nos seduzimos por ele.

Carta da Traição:

– Vejo uma mulher saída do fogo que vai traí-la. Vejo-a enfiando uma estaca em seu coração. Essa mulher vai vir de mansinho e vai conquistar tudo o que é seu, Anna Lara. Cuidado com ela! – Pergunto-lhe o nome, mas a Mãe Dalva diz que não consegue ver o nome dela com perfeição, aparece borrado para ela. Só consegue ver que é um nome estrangeiro, difícil de conseguir ler…

Carta da Sacerdotisa:

– Aqui eu vejo clemência, misericórdia. Eu vejo o plano astral abençoando você e trazendo de novo a felicidade para a sua vida. Tudo o que for tirado de você retornará de outra forma, mais leve e mais evoluído. Você vai ter amor na sua vida e a luz brilhará na sua estrada.

– Não entendi muito bem… já tenho amor do Jota, da minha família…

– Você vai entender na hora certa, minha criança…

Carta da Carruagem:

– A chave para as suas respostas está em uma outra terra, distante daqui. Você vai para muito longe para encontrar a si própria. Vai ser uma longa viagem até chegar ao seu destino. Está distante, mas você vai encontrar.

– E onde é esse lugar? É no exterior?

– É, sim. E é um lugar onde os antigos habitavam, um lugar com história. Eu vejo um castelo. E vejo que você só vai alcançar a sua paz depois que percorrer o caminho em direção a esse castelo.

– Um castelo?

– Só vejo isso, Anna Lara. Minha visão sobre essa carta termina aqui.

Carta do Caixão:

– Aqui eu vejo a morte e o renascimento. Vejo seu carma de vida sendo quebrado pelo trabalho de homens de branco. Vejo uma criança saudável nos seus braços. Eu te vejo mãe, Anna Lara. – Lágrimas escorrem pelo meu rosto nesse momento. Simplesmente não consigo me controlar. Será que Deus, Todo Misericordioso, vai me deixar tentar de novo?

– Mãe Dalva! O que eu mais quero na vida é ser mãe de um filho do Jota! Quero muito ter esse bebê, nosso filho…

– Minha menina, você ainda não sabe o que você quer. Você ainda não sabe de muita coisa. Vai ter que caminhar muito sobre muitas pedras para entender o que você realmente quer e qual é a sua missão nessa vida. Mas fique tranquila. O que está reservado para você é bom, só está um pouco mais adiante.

***

Saí do jogo de tarot com mais dúvidas do que entrei. Não sei se fiz certo em ter vindo aqui. Lembro-me de que, da última vez que piseinesse terreiro, só me aconteceram coisas ruins. Mas não posso culpar a Mãe Dalva. A escolha pelo aborto foi minha, só minha…

Chego em casa e resolvo acender uma “guimba” de maconha para relaxar. Coloco meus três dedos de Blue Label e sento-me na nossa varanda para escutar minhas notas preferidas de piano. Sempre quis aprender piano, mas jamais consegui fazer aulas. Minha mãe nunca me levou. Achava que eu precisava de aulas de balé para aperfeiçoar minha postura, não aulas de piano que, na concepção dela, de nada serviam. Meu pai foi casado com minha mãe até os meus oito anos, e lembro-me de ele sempre me apoiar nas minhas escolhas. Mas, apesar de tentar, e mesmo sendo policial, acabava optando por não a enfrentar…

Jota chega em casa. Está suado e com cheiro de cigarro. Estranho… Meu Jota não fuma e, ao contrário, detesta cigarro!Prefiro não perguntar sobre o cheiro da fumaça. O cheiro de nicotina logo se mistura com o perfume da maconha, e acabamos ficando muito doidos, sem que eu consiga me lembrar mais disso… transamos muito, por horas (essa é a sensação que eu tive…).

Próxima leitura -> Capítulo 9

***

Trilha Sonora: Carnavália – Tribalistas

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