Sétimo Capítulo

Na vida temos tanto medo de perder quem amamos que esse medo acaba fazendo com que nós, de uma forma ou de outra, nos percamos dessas pessoas. E é por isso que eu não te aprisiono em uma redoma… quero que sejamos livres para vivermos a vida sem medo.

Acordo cedo com um vazio no meu estômago. Deve ser porque não consegui comer nada ontem… sempre comi muito, mas, de uns tempos para cá, não consigo mais colocar nada na minha boca. Acho que comi demais na minha gravidez e agora me sinto culpada por não alimentar mais o ser que estava dentro de mim…

– Anna Lara, fiz uma omelete pra você! — Omelete… sempre amei omelete, aliás, sempre amei tudo que vem do ovo. Amo “ovo”. Morávamos no mesmo prédio da vovó, e eu passava mais tempo com a vó Lia do que com meus pais. Toda vez que chegava do colégio, eu guardada um ovo no avental do meu uniforme. Vó Lia me chamava de “galinhazinha” porque ficava com esse ovo dentro do avental todos os dias, até o coitado apodrecer… só uma vez o ovo quebrou dentro do avental. Lembro-me de ter chorado demais e de ter achado que o meu “pintinho” tinha morrido. Depois desse acidente, nunca mais deixei quebrar nenhum ovo que ficasse alojado na minha barriga. — Até a semana passada.

A omelete está maravilhosa. Como sempre! Um dos vários dotes do meu marido “quase perfeito” é saber cozinhar. Ele consegue colocar sabor até mesmo nos pratos mais simples. Ensinou-me a trocar o excesso de manteiga e óleo de cozinha por umas gotas de azeite e temperos diversos. A omelete dele leva 4 claras para uma única gema. É recheada com peito de peru e ricota e temperada com pestode hortelã, o que faz com que ela fique levemente esverdeada. É um         

dos meus pratos preferidos.

O interfone toca. Quem será a essa hora da manhã? Jota me disse que não havia comentado com ninguém sobre o meu caso. Minha mãe me disse que só havia comentado com o Ricardo e com o meu p… pai! Merda!

– Anna Lara, seu pai está subindo.

– Não! Eu não quero falar com ele agora!

– Muito tarde, Anna… E já está na hora de você enfrentar os seus fantasmas e falar com o seu pai.

– Não, Jota… não quero!

– Porra, Anna Lara! Para de ser essa menininha mimada e vira gente! Chega dessa história de papai-mau que abandonou a mamãe-boa! Chega! Chega! — Pronto, agora quem enlouqueceu de vez foi ele, e mais rápido do que eu. Tenho medo de que ele comece a gritar mais alto e meu pai escute… tenho que disfarçar antes que a campainha toque. Meu pai não vai perdoar o Jota se souber que ele grita desse jeito comigo… prefiro, então, me calar.

A campainha toca. Abro a porta sem muito entusiasmo e cumprimento meu pai com minha habitual saudação seca e educada…

– Oi, pai. Tudo bem?

– Pelo visto não, Anna Lara!- Pronto, tudo o que eu precisava agora…

– Pai, por favor, não vamos começar uma briga agora…

– Não vim brigar com você, Anna Lara! Vim saber como está a minha filha, depois de descobrir que ela é, além de minha filha, uma assassina!!!

– Maneco, podemos conversar? – Pergunta Jota já tenso.

– Com certeza, meu rapaz. Nós vamos conversar muito, muito mesmo. Mas não vai ser aqui e agora. Vai ser no meu “escritório”. E, acredite, não vai ser uma conversa fácil…

– Vou te desculpar porque imagino que você está fora de si, Maneco…

– Não preciso das suas desculpas! Saia da minha frente!

– Isso não vai ajudar a sua filha, se é que isso importa pra você…

– Vou te mostrar o que importa pra mim… — E um soco atinge o Jota em cheio. Meu Deus!!! Jota é faixa preta em Jiu-jitsu, mas meu pai… meu pai é “meu pai”. A cena poderia estar em algum filme de suspense porque parecia ter acontecido em câmera lenta e com todos os requintes de drama possíveis. O soco atingiu em cheio o nariz do Jota que, ainda com a cabeça girando, jorrou sangue para todos os lados.

Ele caiu em cima do aparador da sala, deixando cair o meu cavalinho de porcelana. Meu desespero foi muito maior quando vi meu cavalo quebrado. O nariz perfeito do meu marido viril e másculo sempre me importou, mas o meu cavalinho realmente me importava bem mais nesse momento.

– Te ver quebrado é o que me importa, Jota! Você, seu filho da puta! Por que deixou que a Anna Lara abortasse um filho seu? Um filho seu, Jota???

– Para, pai! Para agora! Você não viu o que você fez? Jota, por favor, não revida!

– Maneco, não vou revidar. Pela Anna Lara e, especialmente, por tudo o que ela passou. E, só para seu governo, esse filho estava “doente”. Estava todo deformado! Você, que é um pai tão dedicado, ia gostar de ver a sua “menininha” cuidando de um deformado? Você ia gostar de ter um neto deformado? Eu vou para o nosso quarto, Anna Lara.

Ele entra no corredor que leva aos quartos e bate a porta com violência. Eu me viro para o meu pai, que está com os olhos marejados, e digo:

– Pai! Vai embora agora! Você não é bem-vindo na minha casa. Aliás, você não é bem-vindo na minha vida!

– Anna Lara, minha filha… eu não sabia. Não sabia que o bebê era totalmente deformado. Sabia que tinha um problema… imaginei que era Down… a sua mãe, como sempre, não me falou a história toda… ela podia ter me falado, mas preferiu o silêncio. Típico dela!

– Com que direito você vem aqui apontar seu dedo sujo para mim e, ainda por cima, colocar a culpa na minha mãe pelas suas atitudes? De novo, pai? Sempre a minha mãe é a culpada, não é? Você não tem jeito! É sempre isso. E os seus erros, você nunca os enxerga!

– Enxergo, sim, Anna Lara. Enxergo todos os meus erros, mas enxergo também meus acertos. E você, sem dúvida, foi meu grande acerto. E eu te amo, filha. Muito. Você era o meu anjo dourado. Minha menininha linda com as “minhas sardinhas”, lembra?

Um choro incontrolável ultrapassa as barreiras naturais do meu corpo e eu não consigo me conter. Meu pai nunca disse tão claramente essas palavras… não de uma forma que eu conseguisse ouvir assim, completa. E meu pranto de felicidade se mistura a toda mágoa que eu guardo dele pelo que fez com a mamãe. E principalmente com a Caroline…

– Pai, por que você fez isso? Por que batia na mamãe? Se você não tivesse sido assim, talvez a mamãe não tivesse se separado de você. E, talvez, a Caroline ainda estivesse entre nós…

– Anna Lara, não fala isso… você está fora de si, não tem o direito de me ofender dessa forma! A minha situação com a sua mãe nada tem a ver com a morte da Caroline. O que aconteceu com ela foi uma fatalidade, um acidente. Não foi minha culpa nem culpa de ninguém. Ela tinha uma propensão para a depressão, estava sempre falando sobre morte e espíritos… aconteceu porque tinha que acontecer! Era o destino dela, e nós temos que seguir em frente. Por favor, Anna Lara, você é a única pessoa que me restou.

– Não, pai! Você deixou a Caroline morrer! Você deixou a sua arma lá! Você devia ter previsto isso! Mas não… foi ver o que estava acontecendo com a sua amante e deixou a arma ali, pronta para matar alguém. E esse alguém foi sua própria filha! – Neste momento, vejo-o apertar os punhos bem forte e levantar os braços. – O que agora? Vai me bater também? Depois de anos batendo na minha mãe e depois de ter matado a minha irmã, agora vai me bater?

E meu pai desaba a chorar como uma criança. Coloca as mãos já calejadas em seu rosto enrugado e começa a soluçar de dor e remorso…

– Anna Lara, eu jamais tive a intenção de machucar você ou a sua irmã. Mesmo a sua mãe, eu também nunca quis machucá-la. Sou policial, convivo em um meio violento. Às vezes nos perdemos de nós mesmos quando nos envolvemos nesse ambiente. Mas eu nunca, jamais, quis prejudicar minhas meninas. Fui ver o que estava acontecendo entre a sua mãe e a Rebeca, para que a sua irmã não se envergonhasse de uma briga de família no meio da sua festa de quinze anos. Esqueci a minha mochila no quarto de vestir. A arma estava dentro da mochila. Caroline estava acabando de se trocar para dançar a valsa. Eu deveria sair do quarto com ela para a dança. Foi tudo muito rápido. De repente ouvimos o tiro…

Com um nó na garganta começo a chorar mais. Parece que uma nuvem negra se apoderou de mim. Todo o meu passado de dor juntando-se ao meu momento de mais dor. Por que não tomei logo o vidro todo de calmantes?

Pai, eu…

– Anna Lara, eu vou embora. Espero que você melhore. Nos falamos um outro dia, um dia que você resolva me escutar de verdade. Adeus. – E ele finalmente se foi levando consigo toda a dor da morte da Caroline somada à morte do neto que ele nem chegou a conhecer…

***

Volto para o quarto e Jota está sentado na poltrona de couro, com a nossa toalha de rosto secando o sangue que insiste em jorrar do seu nariz. Olho para ele com olhar de culpa por ter sido o meu pai a machucá-lo. E sei o quanto ele odeia sentir dor. Ele gosta de provocar a dor, mas senti-la nunca.

– Olha, Jota, eu sinto muito. Sei que o meu pai não deveria ter feito isso…

– Anna Lara, tudo bem. — E com um forte suspiro e uma passada de mão nos seus cabelos, ele continua a falar. — Eu nunca te contei por que que eu tenho tanta adoração por esta poltrona, né?

– Me falou, sim, porque ela era do seu pai…

– Sim, mas não é só por isso.

– Não?

– Não. Eu tenho um apego a esta poltrona porque, no dia em que meu pai enfartou e morreu na minha frente, ele estava sentado aqui. – Neste momento me arrepio dos pés à cabeça e passo a entender porque que eu jamais gostei dessa poltrona. – E você sabe por que ele enfartou?

– Não…

– Porque eu estava discutindo com ele, Anna Lara! Estava brigando com ele porque ele não queria me deixar usar a minha maldita moto! Ele achava que eu poderia sofrer um acidente e morrer. E o mais irônico é que foi ele quem morreu parado nesta mesma poltrona em que eu estou agora. Você consegue entender o que eu quero te dizer?

– Acho que sim…

– Na vida temos tanto medo de perder quem amamos que esse medo acaba fazendo com que nós, de uma forma ou de outra, nos percamos dessas pessoas. E é por isso que eu não te aprisiono em uma redoma… quero que sejamos livres para vivermos a vida sem medo.

Abraçamo-nos imensamente como há muito tempo não acontecia. Senti o meu amigo de volta, o meu companheiro, o meu querido… ele estava ali, todo entregue, na sua forma mais plena de amar. Era o meu marido que me respeitava, que cuidava de mim. O meu marido que me amava de verdade. Era ele, o amor da minha vida, que estava de volta.

Próxima leitura -> Capítulo 8

***

Trilha Sonora: Father & Son – Yusuf / Cat Stevens

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