Sexto Capítulo

Suas roupas haviam sido retiradas e Maria Eugênia estava nua, somente coberta por uma manta velha, de cor vermelha escura. Um líquido saía de dentro de si em direção às suas coxas. Não lhe importava que tivesse sido usada. Tantas vezes fora usada de forma consciente, que, desta vez, inconsciente, esse fato não lhe causava caso nem revolta.

Hoje é sábado e vamos jantar com o “casal straight”, a Silvia e o Henrique, dois advogados muito bem-conceituados que, além de casal, conseguem ser sócios no escritório do pai do Henrique. Eles são um dos únicos amigos “decentes” que ainda temos, ou seja, que não pactuam da nossa “orgia privada”…

Chegamos ao Ruthy, um dos restaurantes mais “in” de Ipanema. Ele pede um vinho caríssimo e eu escolho o meu prato preferido: ravióli de hadocck com aspargos e açafrão. Sinto-me desconfortável com a roupa da Silvia… ela está bonita, mas com um decote exagerado para um jantar entre “casais amigos”. Percebo que o Jota não consegue desviar o olhar do seu decote.

Chega o carpaccio que o Henrique pedira. Começo a me sentir mal… Esse cheiro de carne crua me enjoa. Quando os pratos principais chegam, deparo-me com a infeliz escolha do Jota, que é um “Steak Tartar”. Para piorar ainda mais a situação, o garçom, que é obviamente novo na casa, se confunde e posiciona o prato de carne crua exatamente na minha frente. Não consigo me conter! Peço licença e corro o mais rápido que posso para o banheiro, mas, para a minha infelicidade, uma mulher de idade e com dificuldade para caminhar está justamente no meu caminho, ainda mais congestionado com a presença de um outro garçom aflito em passar com uma bandeja com dois pratos.

É claro que o estrago é total: a senhora caída entre as mesas, com uma mistura de dois pratos elegantes e um pouco do meu vômito… arghhhh! Sinto tanta, mas tanta vergonha, que não tenho outra opção a não ser ir embora correndo.

Jota vem atrás de mim.

– Anna! Como você está? Tudo bem?

– Claro que não, Jota! Claro que não está nada bem! Ou você acha que eu realmente estou bem? Aliás, há muito tempo que eu não estou bem, que nós não estamos bem!

– Eu sei, Anna Lara, mas é só uma fase… uma fase ruim por tudo o que você passou… em pouco tempo, você vai superar isso tudo e nós vamos voltar a ser o casal que sempre fomos, o casal que é parceiro na vida e na cama, que se entende, que está junto.

– Podemos estar de várias formas, Jota, mas te garanto que juntos já não estamos há muito tempo…

– Anna Lara…

– Fica aí, Jota. Eu quero ir pra casa… Sozinha!

Chego a casa e vou direto para o banho. Não consigo parar de tomar banho desde o aborto… sinto-me mais do que suja, sinto-me imunda! Resolvo ligar a banheira e entro lentamente na água fervendo, sentindo todos os meus músculos relaxarem. Ao mesmo tempo, organicamente entregue, fecho meus olhos e tento me concentrar na valsa de Tchaikovsky — Power and Passion, que é a única música que realmente me relaxa, e que me permite estabelecer um canal direto com o meu eu mais profundo, em um grau único.

De repente um beijo na minha testa tira-me do meu estado de transe e me traz de volta à realidade. É o Jota com uma margarida ordinária nas mãos, igual à que ele me deu no nosso primeiro encontro. Rendo-me por alguns segundos…

– Amor, eu quero fazer amor hoje. Vamos? Um riso solto extravasa da minha boca antes que eu consiga me conter:

– “Fazer amor”, Jota? E desde quando você “faz amor” com alguém?

– Nunca. Eu não faço amor, eu fodo. Mas hoje eu quero fazer amor com você.Não estou te reconhecendo…

– Anna Lara, eu quero fazer amor com você e com seu rabo. Sai dessa banheira e vem me dar… agora.

Meu homem havia voltado do seu estado delirante… Era só mais uma encenação, mais um momento em que consegue provar que jamais vai deixar de ser um cafajeste… E o pior é que eu amo esse cafajeste!

Saio da banheira e, mesmo molhada e cheia de espuma, vou para a nossa cama. Deito-me em cima do nosso travesseiro gigante, posicionando os joelhos na cama em uma posição de agachamento de quatro. Ele tira o “ky” da gaveta e começa a massagear meu rabo em movimentos circulares até conseguir introduzir três dedos nele. De repente, ele tira os três dedos e mete seu pau em mim com muita, muita força. Quando estou quase gozando, ele me diz:

– Eu te amo, Anna Lara. E te amo muito mais do que você imagina. Eu amo seu corpo e amo sua alma. Eu amo sua dor e suas alegrias. Amo tudo o que vem de você… você é minha mulher e minha puta…

Nesse momento, eu gozo com ele. Não consigo ouvi-lo me chamar de puta e não gozar…

Imagino uma cena já cotidiana em meus pensamentos imundos e pervertidos que tenho durante o sexo: dois homens me comendo em um celeiro, em cima de um bando de feno, com porcos ao lado observando a cena. Imagino-me invadida e usada como um objeto sujo e sem valor. Nessa cena, sou comparada à comida dos animais, a um monte de carne com buracos providenciais à fartura de diversão e promiscuidade. Sou uma mulher sem nenhum pudor ou classe… imagino-me nessa cena em vários momentos que antecedem meu gozo. Imagino-me nua e usada. Machucada e molhada de gozo de ambos os homens… imagino-me suja, mesmo que na realidade esteja recostada em lençóis egípcios de 1000 fios…

E, de repente, um sono profundo transporta-me para um lugar do passado. Um lugar onde não estou eu, mas, sim, “ela”, a moça…

Acordou em meio ao feno e às folhas de hortaliças. Estava em um galpão velho, com alguns cavalos em suas baias. O local era sujo e úmido, e era possível escutar alguns pequenos roedores à espreita. Suas roupas haviam sido retiradas e Maria Eugênia estava nua, somente coberta por uma manta velha, de cor vermelha escura. Um líquido saía de dentro de si em direção às suas coxas. Não lhe importava que tivesse sido usada. Tantas vezes fora usada de forma consciente, que, desta vez, inconsciente, esse fato não lhe causava caso nem revolta. Era mais uma prova de sua incompetência moral e desvirtuosa. Um porco teria mais sorte por ser, um dia, devorado com gosto e desejo. Ela, um pedaço de carne já sem gosto algum para os paladares mais exigentes, e sem pudor aparente das suas partes devastadas, não poderia pleitear tamanho deleite de ser degustada, aos poucos, e deliciada em toda a sua profusão. Seu pensamento era um constante ponto de interrogação sobre seu desesperançoso futuro:

– Serei eu, mais uma puta a ser atirada na fogueira do inferno por não ter vergonha?

De repente, ouviu o ranger das ferragens envelhecidas das portas de madeira pesada, que guardavam o grande celeiro. Ouviu o bater das asas dos pássaros, que se refugiavam nas extremidades superiores do galpão, e o ronco dos porcos, que já se desesperavam por temer o corte do próximo escolhido para a ceia. Mas a escolhida desta vez, e de novo, seria ela, Maria Eugênia Vasquez de Bragança, espanhola de dezesseis anos de idade, nascida em uma família de fé católica ortodoxa, expulsa de casa aos catorze anos, depois de abortar seu filho, fruto de um sexo promíscuo com seu próprio tio…

Ela sentiu medo, muito medo. Medo de ser machucada de novo. Encolheu-se em seu rincão esperando pelo pior.  Para  ela,  ser estuprada já não lhe causava ardor, em vista do medo de ficar marcada para sempre, desfalecendo o único bem que ainda lhe restava nesta vida: sua juventude resplandecente em incrível e inexorável beleza delicada. Sua mistura de árabe e austríaca proporcionava-lhe exótica beleza, com traços finos e marcantes, pele excepcionalmente branca, cabelos bem negros fazendo conjunto com seus enormes cílios, que ressaltavam seus enigmáticos olhos amarelos.

O homem aproximou-se e, apesar da pouca luz que emanava das frestas do celeiro, ela pôde observar por alguns segundos que não se tratava de um homem, mas, sim, de dois jovens rapazes, que não deviam ultrapassar a barreira dos seus 14 anos… Ambos os rapazes se aproximaram de Maria Eugênia e abaixaram suas calças já com suficiente “entusiasmo” para, em seguida, começarem a penetrá-la. O rapaz com aparência mais jovial foi o primeiro a penetrá-la, com intensidade desproporcional à sua frágil aparência. Extasiado de tamanho tesão, começou a sufocar Maria Eugênia que, em desespero, começou a gritar com o que restava de sua voz, implorando por sua vida.

Acordo completamente encharcada de gozo, do meu gozo noturno, e totalmente sem ar, em uma crise que dura alguns segundos até a minha bombinha de asma chegar à minha boca. Essa parte do sono é sempre a pior, pois não consigo prosseguir para saber o que de fato aconteceu com ela. Mas, ao mesmo tempo, a cena me excita até o ponto de gozar ininterruptamente…

***

Trilha Sonora: Carry You Home – James Blunt

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