Segundo Capítulo

Sou a prova viva de que não existe o certo se, na verdade, não conhecemos o todo. Somos seguidores de seitas e mandamentos, frutos de deduções simplórias da parte que nos é possível enxergar. Somos todos escravos da vida… dessa vida da qual tentei fugir, mas que não me permitiram…

Passados dois dias desse inferno, finalmente vou receber alta e poder voltar para minha casa. Mas, na verdade, não sei se quero voltar para a minha casa. Essa casa que nunca foi minha, que foi comprada com o dinheiro do Jota. Essa casa que só me fez infeliz desde o dia em que nos mudamos para ela. E eu, que pensava que teria a oportunidade de começar uma linda história ao lado do meu “Jota Jr”, só pude presenciar todo o horror dessa vida promíscua e suja a que me submeti durante anos! E agora não tenho forças para desamarrar os nós que eu mesma atei. Quero sair deste estado de “parasitismo”, como disse a Dra. Kauffmann, mas a verdade é que não sei como nem por onde começar. Só sei que sinto vergonha. Sinto vergonha de quem eu me tornei. Vergonha de toda a promiscuidade a que me dediquei, vergonha da minha relação suja com esse homem que não consigo mais nem olhar nos olhos. É como se eu fosse uma outra pessoa… eu hoje, simplesmente, não consigo olhar direito para o Jota. Não sei o que pensar, só sei que tenho uma repulsa a ele e não consigo evitar.

Esse corpo que já desejei tanto, esse sorriso, esse cheiro… tudo agora me enjoa, me cansa. Ele está deixando que o tempo passe e que eu volte a ser a sua Anna Lara de sempre. Mas acho que isso nunca mais vai acontecer… quanto mais o tempo passa, mais me sinto livre. Livre dele e da obsessão dele…

Estou sozinha, mas, de repente, percebo alguém no canto do quarto me observando… quando olho não há ninguém, mas o copo de plástico cai da mesinha de apoio mesmo sem ter nenhum vento aparente para deslocá-lo. Deve ser “a moça” me vigiando. Mas não consigo vê-la… a Mãe Dalva foi bem clara quando me disse que eu tinha que cortar os elos com toda a energia que me arrastasse para baixo. E eu pensei mesmo que a culpa fosse dela, da “moça”, mas, depois que a vi me segurando no chão do meu quarto, não posso achar que ela é meu câncer, meu mal. Percebo agora que tudo o que ela fez foi para me ajudar, me “salvar”. Não consigo mais vê-la, mas ainda posso senti-la. Sinto-me protegida por essa energia e esse sentimento me conforta. No meio da minha tormenta, tenho um abrigo para resguardar meu corpo sujo e cansado.

Hoje entendo que todos os remédios que tomei durante a minha adolescência foram mesmo um erro do Dr. Ulisses. Ele era um médico cético e nunca acreditou na possibilidade de existirem outras formas de vida, sem necessariamente utilizarem carne e sangue. Ele só acreditava no que está nos livros da ciência, assim como minha mãe, que só coloca verdade nas palavras da bíblia da sua religião. São todos prisioneiros do caminho que escolheram, reféns da própria crença. Não posso fingir que não tenho raiva porque tenho. Tenho raiva de ter sido submetida a todo tipo de tortura física e emocional para acreditar no que eles acreditavam. Sou mais vítima ainda porque sofri as consequências da crença equivocada dos outros. Sou a prova viva de que não existe o certo se, na verdade, não conhecemos o todo. Somos seguidores de seitas e mandamentos, frutos de deduções simplórias da parte que nos é possível enxergar. Somos todos escravos da vida… dessa vida da qual tentei fugir, mas que não me permitiram…

– Ei, “moça”? Eu quero falar com você! Por que você não aparece mais para mim?! O que aconteceu? Moça?!

A porta se abre. Deve ser o Jota, que veio me buscar. Não! É o Ricardo.

– Que bom que é você, Ricardo! – Não consigo me conter ao vê-lo ao meu lado e desabo a chorar… choro muito, sem parar.

– Calma, Lari… calma. O pior já passou. Com quem você estava gritando? O que aconteceu?

– Nada, Ricardo… estava tendo um pesadelo, só isso.

– Entendi… bom, Lari, soube que você está se consultando com a Dra. Mariana Kauffman e posso te dizer que ela é muito competente, conheço bem seu histórico profissional. Pode ficar tranquila que você está em ótimas mãos! Já conversei com ela e pedi para colocar essa última conversa com você para outro dia, para você poder descansar hoje, ok?

– Obrigada, Ricardo. Melhor assim.

– Vai continuar a se consultar com ela daqui em diante?

– Preciso?

– Precisa, Lari… a terapia vai ajudá-la nesse momento.

– Então por que você não pode ser meu psiquiatra?

– Não posso, Lari… temos muita intimidade. – Nesse momento, percebo seu arrependimento por dizer essas palavras e ele, imediatamente, se desculpa com um suspiro forte e uma rápida passada de mãos em seus ralos cabelos loiros… – Quero dizer, não tem como… Você sabe, o médico não pode ser um “amigo”. – Um silêncio sepulcral toma conta do pálido quarto de hospital, e nossa respiração torna-se mais forte que o som de passos e vozes que vêm do corredor. Ele hesita, mas não se contém e resolve quebrar esse estado de ânimo: – Eu preciso lhe dizer uma coisa, Lari… e não sei por que, mas me deu vontade de lhe falar agora…

– O que foi, Ricardo? — Nesse momento Jota entra no quarto.

– Ricardo! Que surpresa! O que você está fazendo aqui? Veio analisar a cabeça ferrada da minha mulher também?!

– Pare com isso, Jota! O Ricardo é meu amigo. – Uma ponta de sarcasmo não me deixa fugir do trocadilho infeliz e acabo falando demais. – Aliás, meu “amigo íntimo”, como você bem sabe!

Ricardo imediatamente interrompe a conversa com seu equilíbrio típico de psiquiatra:

– Vamos parar com isso, gente… somos todos adultos. Vamos tentar relaxar… só vim ajudar. Tudo bem, Jota? – Ele diz estendendo a mão para seu amigo de longa data…

– Tudo, Ricardo, e você? Está trabalhando aqui neste hospital?

– Não, não estou. Só vim mesmo ver a Anna Lara — ele responde com um tom bem mais sério. Nesse momento, os dois parecem dois pitbulls se enfrentando em um ringue de luta de cachorros. Os dois realmente não conseguem mais se entender depois que nós três passamos por essa experiência sexual juntos. Ricardo é amigo de infância do Jota, da parte da sua vida paulista. Estudaram juntos em um colégio judeu até a adolescência, quando Jota se mudou para o Rio. Voltaram a se encontrar após a morte do pai do Jota, quando ele se revoltou contra tudo o que fazia parte da vida pregressa dele e resgatou os antigos amigos judeus, pertencentes à nata da sociedade influente.

– Bom, voltando ao tema da terapia, Lari, sugiro que siga o tratamento à risca. E a Dra. Kauffmann é muito boa mesmo. Conheço a Mariana desde a época de faculdade, nos formamos juntos… me lembro que ela era um gênio, todos a endeusavam na faculdade.

– Por quê? A ruivinha é inteligente? – Pergunta Jota com um ar interessado…

– Também é inteligente, afinal, ela sempre foi a melhor aluna da turma, com cr 9,8. Mas a desejavam porque ela era praticamente “intocável”.

– Como assim? — pergunto já me contorcendo de curiosidade.

– Ela é uma “Kauffmann”, uma das famílias judias mais ricas do Rio. E, além disso, nunca ficou com ninguém na faculdade toda. Todos queriam namorá-la, mas ela nunca quis. Diziam que era homossexual, mas não me parece…

– Bom, podemos descobrir se gosta da fruta… sempre tive curiosidade para ver pentelhos ruivos naturais! – Jota fala em um tom mais debochado ainda.

– Respeite a sua mulher, seu babaca! – retruca Ricardo.

– Parem com isso vocês dois! Ricardo, é o jeito do Jota.. Ele não falou por mal, por favor…

– Ok, Lari. Já entendi. Bom, vou deixar os “pombinhos” a sós e vou embora. Tenho muito trabalho ainda – Fala Ricardo, já se levantando e estendendo a mão em direção ao Jota, que, prontamente, saúda-o com seu mais lindo sorriso de macho alfa vencedor.

Quando Ricardo finalmente vai embora, sinto novamente o cheiro de sálvia. O cheiro dela, envolvendo e perfumando todo o ambiente.

Finalmente, chegamos a casa. A sala está com o mesmo ar de casa em final de obra… o sofá em L de couro preto, no meio da sala, posicionado em frente à televisão de 65 polegadas, e os vários quadros gigantes do Jota espalhados pelo chão da sala… percebo que ele nunca vai realmente pendurar esses quadros. Porque, simplesmente, ele não quer. E agora entendo isso… a dinâmica dele é esta: alguma coisa sempre tem que estar “fora dos eixos”…

Entro no nosso quarto. Temos espelhos em ambas as portas de correr do armário, que está estrategicamente posicionado em frente de nossa cama. A televisão é sustentada por um tubo de aço inoxidável trazido de Milão, em uma perfeita harmonia com a cabeceira da cama, também feita com o mesmo material. No canto do quarto, está a poltrona velha do pai do Jota, com o couro marrom velho e desgastado, já apresentando pequenos rasgos nos braços e no assento. Jota não me deixa remodelá-la, pois diz que é a lembrança mais próxima que tem do seu pai. Não sei por que, mas jamais gostei dessa poltrona… algumas vezes, quando estou distraída, tenho a impressão de que alguém está ali, me olhando. Me dá calafrios sentar nela…

Resolvo abrir a janela. Apesar de lateral, a vista do mar é linda e infinita. Esse mar, que sempre me limpou e que sempre me energizou, agora me deprime… sou eu quem realmente tem que mudar, que quer uma nova chance da vida. Eu quero que esse mar traga de volta meu filho! E quero que o traga inteiro e não por partes… não quero um filho para ser motivo de vergonha, quero um filho para me trazer felicidade. Quero ser feliz.

Jota entra no quarto.

– Anna Lara, vamos comer alguma coisa? Está com fome? Estava pensando em pedir um japa, que tal?

– Pede qualquer coisa, Jota… por mim tanto faz.

Uma hora depois, Jota me chama. Ele pediu comida japonesa, a nossa preferida. Jota é um fanático por alimentação natural e, como quase todo “natureba”, acabou colocando a comida japonesa no patamar de “quitute preferido”, ou “luxo permitido”.

Percebo que ele usou o nosso conjunto de porcelana japonês original, comprado em um brechó japonês em São Paulo, e acendeu todas as velas que temos pela casa. O apartamento, apesar de ser enorme, quase não tem móveis e, além dos quadros apoiados no chão, ainda há várias velas de distintos tamanhos posicionadas estrategicamente entre os quadros, o que, muitas vezes, me dá a im- pressão de estar no meio de uma sessão do Centro Espírita da “Mãe Dalva”… apesar disso, gosto da decoração descolada da nossa casa.

Jota costuma misturar objetos antigos com peças contemporâneas. Um dos seus mimos é a vitrola Jukebox anos 50 de uma lanchonete americana, que ele arrematou em um leilão na Califórnia. Ao lado dela, está o conjunto de bar marroquino com todos os tipos de whisky mais caros existentes na bodega privada de um fanático colecionador. O contraste de todas essas peças valiosas e antigas está na iluminação de led, com desenhos entrelaçados no teto de gesso com diferentes rebaixes, formando uma outra obra de arte acima das nossas cabeças. A tv é outro destaque moderno, que destoa da bancada branca de pedra sabão marroquina de 1760. Na varanda, em vez de móveis de fibra ou madeira, estão as duas poltronas estilo Luiz XV, entalhadas a mão e com tecido espanhol campeão da feira de móveis de Madri. Ali, com a vista eterna do mar, na praia do Leblon, é o local onde ele medita todas as noites em que está em casa. No seu copo da Tiffany, que possui suas iniciais “JFTjr” (José Francischini Tavares Júnior), ele derrama o seu Blue Label e sorri para mim, me esperando… Acende uma “guimba” de maconha e me come. Todo dia, só que em diferentes posições e contextos. Pelo menos uma vez por semana estamos acompanhados de outros casais ou simplesmente de alguma “amiga” do Jota.

Voltando ao nosso jantar, noto que alguma coisa não está bem… não sei se o cheiro das velas aromáticas ou o cheiro do gengibre…

– O que foi, Anna Lara?

– Não sei, Jota… tô meio enjoada… Acho que esse cheiro de…

– De quê? Das velas? Do japonês?

Isso! Do japonês! Ou melhor, da carne crua… do atum cru. A carne crua que me lembra morte, que me lembra aborto. Essa carne crua que nunca mais entrará na minha boca. Saio correndo em direção ao lavabo para vomitar tristeza, desilusão…

***

Trilha Sonora:  The Wya It Is – Bruce Hornsby

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