Primeiro Capítulo

Sinto uma lágrima pingar em meu rosto e fecho os olhos para que ela não veja as outras milhares de lágrimas se formando em uma imensidão de dor.

Chove muito na zona sul do Rio. Há tempos que esse temporal não passa. E, justo agora, no dia mais triste de toda a minha vida, sou brindada com esse dilúvio. Talvez seja mesmo para limpar minha alma suja, cheia de pecados inconfessáveis; cheia de egoísmos sem fim…

Chegamos ao nosso apartamento em silêncio. A casa parece mais fria do que de costume. Sinto cheiro de morte em todos os cantos. Mal consigo andar. A enorme sala, recém-reformada com o piso de madeira envelhecida, trazida do Acre em um esquema de contrabando de madeira proibida, mais bem feito do que a rota usada para abastecer a nossa despensa de todos os tipos de drogas ilícitas, agora parece incompleta diante dos meus olhos. O piso caro embaixo dos meus pés parece inapropriado para o peso que carrego, e a cozinha americana mais parece integrar um ambiente de uma feira de decoração do que uma casa familiar. Deslizo as mãos pela bancada de granito preto absoluto apoiada nos armários de lacca prateada, feitos especialmente para o nosso projeto. Imagino mamadeiras e chupetas sujas na bancada, e todos os apetrechos necessários para alimentar um bebê. Imagino o tempo passando… e, com ele, os “danoninhos”, as frutinhas e os suquinhos que encheriam a nossa geladeira. Imagino quanta vida essa cozinha teria com a chegada do Miguel a esta casa. E, por fim, imagino quanta falta vou sentir dessa vida que não tive…

Jota me abraça por trás. Sinto um vazio enorme dentro de mim…

Anna Lara, vá deitar. O médico disse que você tem que descansar agora.

– Não consigo dormir, Jota. É estranho… depois que fui na “Mãe Dalva”, voltei certa de que o melhor a fazer era esse aborto. Ela me disse que esse filho só ia me trazer sofrimento, que não estava no meu destino ser mãe de um menino com problemas…

– Você sabe que eu não acredito nessas coisas, Anna Lara…

– Eu sei, Jota, mas, por favor, me escuta: Ela me disse que a “missão” dele já estava cumprida, que era passar por nossas vidas para nos ensinar como lidar com a dor, que tínhamos que passar por isso e seguir em frente. Mas… e se não for isso? E se nós erramos? E se era para eu escolher e escolhi a morte dele? E… – Um mar de lágrimas começa a escorrer pelo meu rosto e não consigo me controlar. Tenho a sensação de que todos os pilares que me sustentam se soltaram. E não estou mais conseguindo suportar essa dor…

– Anna Lara, você fez o que tinha que fazer. Aliás, nós fizemos. Estou com você nessa decisão, lembra? Não tínhamos como criar um bebê nessas condições… você não fez nada de errado, ele não iria viver uma vida decente mesmo! Ele ia preferir a morte a viver assim… atrofiado e aleijado!

– Meu Deus! Como você tem coragem de falar assim?

– Acabou, Anna Lara! Acabou. Vamos viver a nossa vida e virar essa página. Vou te dar um comprimido para dormir. Tome um agora e tente dormir um pouco…

– Você vai embora?

– Não, minha gata… vou ficar aqui, cuidando de você. Dorme tranquila… — E com um simples beijo na minha testa, diz: — Amanhã é outro dia. Essa tristeza vai passar logo, você vai ver. Qualquer coisa, estou aqui na sala.

 Nem respondo. Não sei se o que sinto por ele nesse momento ainda pode ser chamado de amor ou se é uma doença. Ele ter insistido para que eu abortasse o nosso filho me deixa com muita raiva… seu toque hoje me enoja. Mais ainda, sinto nojo de mim por tudo que fui capaz de fazer em nome desse amor doentio. Sou fraca, fraca de personalidade, de caráter, de alma… sou um ser pequeno, culpado de tudo o que não se deve fazer em nome do amor. E que amor é esse? Um amor que me arrebata de prazer e que me leva à beira da loucura. Que me torna capaz de fazer coisas horríveis… tão horríveis que não posso nem pensar… não, melhor não pensar mesmo! Vou tomar mais um calmante e dormir… dormir para esquecer…

Dez minutos depois e nada! Não estou conseguindo dormir e minha ansiedade só aumenta… falta-me ar nos pulmões. Tento puxar o mais forte que posso, mas nada. Parece que alguma coisa não foi bem no procedimento de aborto. Ou é a minha mente que está começando a me confundir. Sinto-me gelada e minhas mãos suam sem parar. Resolvo tomar mais um calmante, ou melhor, dois. Vou até a janela e acendo um cigarro de maconha. Fico tão hipnotizada pela imensidão do mar que está à minha frente que penso em me jogar nesse azul profundo. Penso em voar e acabar com esse sofrimento. Tantas coisas nos prendem a esta vida, e tão raras são as vezes em que realmente somos felizes! Somos tão pequenos e insignificantes!

Resolvo buscar meu talismã, minha pequena e ordinária margarida, guardada há anos dentro do meu velho diário. Ela está apodrecendo… apodrecendo como nosso amor. Está suja e despedaçada. Não se notam mais suas pétalas acinzentadas, só a poeira que reveste o centro preto, antes originário da fertilidade, assim como ovários com abundância de óvulos, e hoje um ovário morto… lembro-me de ter estudado a origem das plantas, em um curso de jardinagem que fiz com minha mãe logo depois da morte da Caroline. Interessei-me pela composição da margarida, uma flor um tanto sem graça, cercada por milhões de possibilidades em seu interior. Descobri que a bolinha amarela do centro não é propriamente uma “bolinha”, mas, sim, várias pequenas flores que se chamam “flósculos”, e que dentro de cada um dos flósculos estão os órgãos reprodutivos da margarida: o “pistilo” e os “estames”, onde nasce a vida. As pétalas recebem o nome de “brácteas” e, mesmo sem aparente serventia, são as responsáveis por embelezar a flor. Sem elas, as brácteas, os flósculos não seriam notados e, mesmo com toda a sua capacidade de procriação, seriam apenas um aglomerado de pequeninas flores sem nenhuma importância. Entendi, então, que “flósculos” e “brácteas” se complementam, cada um em sua natureza, com seu propósito individual, mas que, somente juntos, formariam uma unidade, se tornariam uma margarida de verdade…

Penso que a margarida não mais possui serventia e jogo seus restos mortais pela janela. Jogo-os junto com meu filho Miguel, que foi atirado vivo em uma lata de lixo… ensanguentado e indefeso. Vítima de uma assassina…

A imagem das suas costas se movimentando em um frenético movimento em busca de ar não sai da minha mente. Algo não correu bem com a anestesia e eu estava semiconsciente no momento em que o tiraram de mim. Consigo vê-lo ali, jogado na mesa de inox ao lado da minha maca no centro cirúrgico. Estava coberto de sangue, assim como a oferenda que vi no Centro da Mãe Dalva. O corpo do animal usado para aliviar a dor de um desconhecido agora se parecia com o corpo do meu filho, atirado para a morte, para aliviar a minha própria dor e a minha vergonha.

Olho para a cartela de Lexotan e resolvo terminar ali mesmo com minha angústia. Não sou mais um ser digno de viver em um mundo em que escolhi a morte para meu próprio filho. Nunca me senti tão só, tão… só!

Quando acabo de tomar as cápsulas, vejo a “moça” aproximar-se. Ela não está com seu vestido vermelho ofuscante, mas, sim, com um vestido negro rasgado, cheio de pó cinza sobre o tecido. Seus olhos amarelos parecem mais brilhantes que o normal e sua expressão está bem séria. Ela se abaixa e me beija o rosto suavemente. Sinto uma lágrima molhar minha testa e percebo que estou em seus braços, cercada por várias criaturas estranhas, todas com aspecto de indigentes, todas querendo me tocar. Sinto medo e me agarro nela, implorando que me salve… de repente, caio em um sono profundo, de onde não consigo reunir forças para sair.

Acordo em uma cama de hospital no meio de um grande corredor sem luz. Ah, não! Estou dentro daquele sonho de novo! Ergo a cabeça e me reclino um pouco mais para me sentar na cama. Pessoas passam por mim com aventais brancos sujos de sangue. Todos os pacientes estão sujos de sangue! Eles parecem andar em câmera lenta, como se estivessem embaixo d’água.

Saio da cama com dificuldade e consigo ficar em pé. Meu avental está cheio de sangue na região abaixo da minha genitália. Sinto fortes dores abdominais e meu corpo insiste em ficar curvado. Vou andando lentamente pelo corredor até alcançar a última porta. Quando consigo finalmente alcançá-la, vejo um grande berçário fechado com uma divisória de vidro.

Aproximo-me do vidro e vejo ali dois bebês. Um está sorrindo para mim, o outro está todo coberto com uma manta branca. O que está sorrindo é lindo, forte e com olhos bem azuis. Se parece com o Jota, mas com olhos claros… de repente, a enfermeira, que está de costas, se vira e me olha. É ela, a “moça”. Com seus cabelos curtos bem negros e sua enorme cicatriz na bochecha direita, ela se aproxima dos bebês. Imagino que ela vá me entregar o meu bebê, o que está sorrindo para mim. Em vez disso, ela retira do berço o bebê que está enrolado na manta e o segura nos braços.

Vejo uma mulher de costas, completamente nua e com cabelos em chamas se aproximar do outro bebê. Não! Ela o retira do berço e sai em disparada. Não consigo ver seu rosto, somente as brasas do fogo de seu cabelo que continuam a nevoar o berçário. Preocupo-me com o outro bebê, o que está sob a manta, pois deve estar sufocado com essa fumaça, sem conseguir respirar direito… faço gestos para que a “moça” abra a manta e o deixe respirar. Ela faz sinal negativo com a cabeça. Insisto, já enervando-me. Sem alternativa, ela consente e começa lentamente a abrir a manta. Ele está todo ensanguentado, com seu lânguido corpinho malformado, cabeça desproporcional para o conjunto do corpo. Seus membros são bem curtos e faltam-lhe mãos e pés. É uma aberração, um monstro! Eu tento gritar, mas minha voz não sai. Percebo que ele não se mexe, está morto. Sinto uma pontada na minha barriga, algo não está bem… a dor é insuportável, começo a me abaixar e muita água sai por entre as minhas pernas. Vejo pedaços de carne saindo, provavelmente as partes do monstro que ficaram dentro de mim… sinto uma dor mais forte e agora um objeto grande começa a sair… é um pedaço de carne amórfica; parece um “órgão”, parece um… útero! Meu útero! Não! Estou perdendo meu útero!!! Deus!!!

***

Acordo dias depois com muita luz no meu rosto.

– Anna Lara! Graças a Deus! Meu amor… Como você está?

– Jota? O que aconteceu? Onde estamos?

Calma, meu amor… estamos no hospital… você ficou em coma…

– O quê? Coma? Por quanto tempo?

Nesse momento, Jota aperta a campainha vermelha que está pendurada em cima da minha cama e, em exatos cinco segundos, entram dois médicos, seguidos pela minha mãe e a tia Amélia.

– Mãe!

– Minha filha! Graças a Deus! — Recebo um longo abraço com um choro sufocado dentro dele. Seus cabelos crespos tocam meu rosto e sinto novamente aquela sensação boa de ter a minha mãe cuidando de mim. Seus olhos azuis me entregam calma, me resgatam e me trazem de volta… com um grito igualmente sufocado, eu clamo a sua presença, por agora e por todo o tempo em que não a chamei. Eu a quero muito. Muito mais do que jamais imaginei que iria querer a sua presença… eu preciso dela. Preciso que ela me faça renascer. Quero ser a Anna Lara de antes…

– Mãe! Mãe… — E um choro incontrolável sai do fundo da minha alma suja. Sou eu quem entrou nessa espiral e agora não consigo mais sair… onde está o caminho de volta?

Um médico com rosto enrugado, calvo, com olhos bem claros e aparentando ter saído de um seriado de médicos de algum canal de televisão, começa a falar:

– Anna Lara, bom dia. Bem-vinda de volta. Você está em um hospital. Como está se sentindo?

– Meio estranha… tonta. Minha cabeça dói um pouco…

– Certo, é normal que se sinta assim, afinal, você esteve em coma por quatro dias. Encontramos no seu sangue uma alta dosagem de calmantes, somada ao resto de anestesia geral que ainda estava no seu organismo, devido ao procedimento de aborto que você realizou. Podemos dizer que você teve muita sorte, Anna Lara… a propósito, sou o Dr. Plínio Araújo, ginecologista-obstetra, e essa é a Dra. Mariana Kauffmann, psiquiatra. Vamos cuidar de você daqui em diante, ok?

– Sim… doutor, meu útero? Meu útero está bem? — Um pânico envolve minha voz e minhas mãos ficam trêmulas. Não quero ouvir que perdi o meu útero! Que agora não poderei mais ter filhos e que esse é o preço que eu vou ter que pagar por ter assassinado um inocente…

– Anna Lara, sinto dizer que tivemos que remover seu útero. Ele estava necrosando. O procedimento do aborto não foi bem-sucedido e você correu sério risco de morte. Mas tentamos minimizar ao máximo os danos no seu organismo e optamos por uma histerectomia parcial, que significa que removemos o seu útero, mas preservamos seu colo uterino para reduzir as chances de incontinência futura, e também preservamos seus ovários e trompas de falópio.

Uma dor profunda me arrebata e percebo que estou sendo castigada por ter assassinado meu próprio filho, arrancando-o do meu útero maldito. Esse útero apodreceu junto com meu Miguel e nunca, nunca mais vou poder gerar uma vida dentro de mim.

– Então é isso? Não vou poder ser mãe? Nunca mais? — E um pranto sem fim começa a tomar conta de mim…

– Anna Lara, podemos dizer que você não poderá “gerar” uma criança. Mas você poderá ser mãe, sim. Você tem seus óvulos intactos e pode recorrer a uma “barriga de aluguel”. Ou mesmo adotar uma criança… mas, o importante, neste momento, é pensarmos na sua recuperação. Você passou por um problema muito sério de saúde, Anna Lara. Podemos dizer que você teve muita sorte em estar aqui conosco agora.

Um desespero enorme toma meu corpo. Sinto vontade de vomitar. Seguro meu ventre em um gesto de pedido de misericórdia. Não aguento tanto sofrimento. Meu Deus! Deus!

Nesse momento, olho para o lado e vejo o rosto petrificado da minha mãe, revelando todo o horror e angústia que acabara de viver nesses dias em que estive em coma. Sem conseguir dizer palavra alguma, ela se aproxima novamente de mim, agora com lágrimas nos olhos, e coloca suavemente a mão sobre meus ombros. Percebo sua dor e me envergonho como se fosse uma menininha de cinco anos… lembro de uma Anna Lara que gostava de dançar, que sonhava em ser bailarina. Recordo-me da vó Lia, das omeletes que ela fazia para mim, das histórias da fazenda de Minas Gerais, de onde ela veio, das noites em que dormia tranquila na sua cama… lembro-me dos momentos bons… mas lembro-me também do sangue no banheiro. Do sangue sujo, sangue da morte. Lembro-me agora que o Agnaldo estava me chamando pela casa e que eu queria esconder esse sangue dele e da vó… mas não me lembro de mais nada. Como sempre as minhas lembranças vão até esse ponto. E agora elas surgem de novo…

Um grito tira-me das minhas lembranças e do abraço apertado da minha mãe:

– Você podia ter morrido, Anna Lara! E o que eu iria fazer da minha vida sem você? – Pela primeira vez vejo meu marido chorando como uma criança, sem o charme sedutor e olhar seguro. O meu Jota está aqui, no canto da cama, com as mãos pousadas sobre meus pés gelados e a cabeça um pouco baixa, como se suplicasse pelo meu perdão. Ele parece que irá explodir a qualquer momento. Está com enormes olheiras e o cabelo desgrenhado. Parece não dormir há dias… mas não quero pensar nele! Não quero saber dele agora! Estou com ódio, muito ódio!

– Ei, Jota! Calma… a menina acabou de despertar… você tem que cuidar dela, e não o contrário! — diz tia Amélia com seu tom ríspido usual. Ele faz um gesto com a cabeça concordando e aproxima-se de mim. Minha mãe imediatamente se afasta, demonstrando toda a sua ojeriza a ele.

O telefone do Dr. Plínio toca. Ele olha para a chamada e se despede educadamente:

– Bom, vou ter que deixá-los na companhia da Dra. Kauffmann porque tenho que atender a uma chamada urgente. Anna Lara, nos vemos hoje ainda, à noite. Sei que é difícil, mas o importante agora é cuidarmos da sua recuperação. Qualquer problema, minha equipe estará à sua disposição. Bom dia a todos. Com licença.

Jota desliza seu dedo suavemente pelo contorno externo da minha orelha, em um gesto usual que sempre antecede o nosso sexo sujo e pervertido.

– Meu amor, eu estou aqui, ao seu lado. Vou cuidar de você…

Imediatamente viro a cara em sinal de repulsa e digo:

– Fique longe de mim!

Ele, desapontado e constrangido, abaixa a cabeça e afasta-se um pouco. Nesse momento, a Dra. Kauffmann se aproxima, ajeita os cabelos cor de cobre atrás da orelha, me olha com seus olhos azuis transparentes e suas sardas protuberantes e, com toda a calma, diz:

– Anna Lara, posso te chamar de “Anna”? Consinto com a cabeça e ela continua:

– Seu marido esteve aqui todo o tempo. Ele foi incansável em buscá-la, onde quer que você estivesse… sei que você está passando por um momento difícil, e estamos todos aqui para ajudá-la.

Não gosto do que escuto, mas entendo que esta doutora nada tem a ver com meus problemas com o Jota. Ela nem os conhece…

– Eu gostaria de propor algumas sessões de terapia para avaliarmos melhor o seu estado psicológico, se você estiver de acordo… — conclui a doutora.

– Não! Eu não quero… desculpe, mas eu não quero fazer terapia.

– Você é obrigada, Anna Lara! Não tem escolha! Não percebe que está sendo tratada como provável suicida?! Dá para entender?!

Com as mãos levantadas, a Dra. Kauffmann pede calma:

– Não podemos pressioná-la. Vamos fazer o seguinte, Anna: quando você se sentir confortável em conversar, começamos a nossa sessão, ok? Mas até esse momento, teremos que mantê-la em observação e sob os cuidados de um responsável. A decisão é sua…

Entendo as palavras de Jota e rendo-me à situação:

– Está bem, se é para que eu seja “livre”, então, aceito fazer a terapia!

– Muito bem, então podemos começar amanhã mesmo, na parte da tarde. Agora tenho que atender outros pacientes, mas, se precisar de qualquer coisa, por favor, me chame. Vou deixar meu número de celular aqui, ao lado da sua cama. Se você se sentir mal, com dúvidas ou se, simplesmente, sentir vontade de falar, eu peço que me ligue, ok? — Consinto com a cabeça e ela vai embora.

– Minha filha, estou aqui e estarei sempre ao seu lado para ajudá-la nos momentos difíceis. Você quer que eu fique aqui com você?

– Sinto a voz da minha mãe tensa e sua respiração ofegante.

– Mãe, eu sei disso, mas quero ficar com meu marido. Vou ficar bem, não se preocupe. – Jota sorri triunfante e minha mãe, resignada, se abaixa e me beija na testa. Sinto uma lágrima pingar em meu rosto e fecho os olhos para que ela não veja as outras milhares de lágrimas se formando em uma imensidão de dor.

 Tia Amélia também se oferece para ficar ou revezar com o Jota, mas ele recusa. Elas vão embora e ficamos eu e o Jota.

Sinto cheiro de sálvia e imagino que ela deve estar por aí, mas não a vejo, o que de certa forma me agrada…

– Você preferia que sua mãe estivesse aqui, Anna Lara?

– Se eu preferisse, teria pedido a ela que ficasse… não me cansa, Jota!

– Fiquei feliz por você ter optado por ficar comigo.

– Só quero poupá-la. Não posso deixar que ela se estresse, com a saúde do jeito que está. Além disso, ela vai querer conversar, vai querer que eu fale sobre o aborto e eu realmente não quero falar sobre isso. Acho melhor não falar sobre nada a respeito da minha vida, principalmente, sobre nós…

– Por quê? Somos tão ruins assim juntos?

– Somos pervertidos, Jota. Temos uma vida diferente do que minha mãe sonhou para mim. Somos errados em tudo…

– Não somos, não!

– Ok! Então, você acha que ela gostaria de saber que, na época da concepção desse bebê, havia outros homens compartilhando meu corpo?

– Acho que aí a velha ia enfartar de vez! — ele fala em tom irônico de deboche… Estava demorando para aparecer o meu Jota canalha! Mas, mesmo com raiva, não consigo conter um pequeno riso importuno e começo a rir. Jota também ri e, por um segundo, sinto-me confortável de novo com meu marido, meu parceiro de vida e de putaria.

***

Trilha Sonora:  The Blower’s Daughter – Damien Rice

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