Prazer

A expectativa do gozo é sempre a melhor parte do sexo. Não transamos para gozar; transamos para alcançar o grau de excitação máxima que existe entre uma mente suja e um corpo em ascensão erótica. O prazer é sempre mais mental do que carnal. Somos todos pedaços de carne ambulantes com muito mais adrenalina sexual…

Prefácio

Duas vidas entrelaçadas por um mesmo propósito. Um carma que é passado por diferentes gerações unindo duas mulheres em épocas distintas. Maria Scarlet Invocando o arquétipo sexual mais pleno, Maria Scarlet se faz presente como uma prostituta de um passado distante que, após apanhar muito da vida, consegue se estabelecer como dona de um bordel….

Preâmbulo

Acordo gritando. Mais um daqueles sonhos… estou molhada de suor. Minhas mãos trêmulas refletem o meu estado de tensão. Não consigo parar de pensar no sonho, ou melhor, no pesadelo… um hospital com leitos vazios, repletos de sangue. Procuro ajuda. Grito e ninguém me escuta. Serão todos surdos? Por que parecem estar em câmera lenta?…

Capítulo de Abertura

2006 Anna Lara — 26 anos Chove muito. Anna Lara está tomando banho em seu modo contemplativo. Sei que está triste… espero que termine para começarmos a fazer nossa maquiagem. Mas ela não quer se maquiar hoje… há um tempo que não quer! Insisto e ela acaba cedendo… concorda em fazer ao menos o contorno…

Capítulo 1

Sinto uma lágrima pingar em meu rosto e fecho os olhos para que ela não veja as outras milhares de lágrimas se formando em uma imensidão de dor. Chove muito na zona sul do Rio. Há tempos que esse temporal não passa. E, justo agora, no dia mais triste de toda a minha vida, sou…

Capítulo 2

Sou a prova viva de que não existe o certo se, na verdade, não conhecemos o todo. Somos seguidores de seitas e mandamentos, frutos de deduções simplórias da parte que nos é possível enxergar. Somos todos escravos da vida… dessa vida da qual tentei fugir, mas que não me permitiram… Passados dois dias desse inferno,…

Capítulo 3

O medo que existe não é de você ou de mim. É do amanhã que nos espera na esquina, que torna efêmero todo gesto de conquista e prazer… No dia seguinte, Jota me acorda com café na cama. Ele tinha uma reunião importante, mas desmarcou para ficar comigo. Ele nunca tinha feito isso antes. É…

Capítulo 4

Penso se vou amargar o meu gosto pela vida, se vou quebrando em todas as esquinas e transformando-me na metade do que fui um dia. Tenho medo de enlouquecer. No dia seguinte, mamãe resolve me fazer uma visita; ela vai passar o dia comigo e me ajudar a desfazer das coisas do Miguel. Percebo sua…

Capítulo 5

No final dessa poesia, ele entrou em mim e gozou ao mesmo tempo em que recitou a última palavra. Eu me apaixonei completamente nesse instante e me viciei nesse sexo, despudorado e poético. Fico encharcada só de pensar nessa cena. Acordo atrasada para a consulta com a Dra. Kauffmann. Chego correndo, toda suada. Percebo que…

Capítulo 6

Suas roupas haviam sido retiradas e Maria Eugênia estava nua, somente coberta por uma manta velha, de cor vermelha escura. Um líquido saía de dentro de si em direção às suas coxas. Não lhe importava que tivesse sido usada. Tantas vezes fora usada de forma consciente, que, desta vez, inconsciente, esse fato não lhe causava…

Capítulo 7

Na vida temos tanto medo de perder quem amamos que esse medo acaba fazendo com que nós, de uma forma ou de outra, nos percamos dessas pessoas. E é por isso que eu não te aprisiono em uma redoma… quero que sejamos livres para vivermos a vida sem medo. Acordo cedo com um vazio no…

Capítulo 8

Porque o que veio a esse mundo de um jeito, minha filha, a esse retornará; da mesma forma seus frutos, e os frutos dos seus frutos. Somos todos frutos de uma mesma árvore e dela não escapamos Depois de penetrarem a vergonha de Maria Eugênia com toda a força possível, os rapazes viris não se…

Capítulo 9

Gosto dessa promiscuidade toda. E é por isso que até hoje não consigo me desligar do Jota… porque com ele eu não me sinto somente uma “mulher”; sinto-me mais do que isso… sinto-me uma “puta”. Uma semana depois… Mais uma consulta com a Dra. Kauffmann. Chegando à consulta, vejo a minha psiquiatra com uma saia…

Capítulo 10

Nesse momento, Ricardo apoia sua mão na minha, que está repousando sobre a mesa. Sinto o suor escorrer pela pele de dentro da palma da sua mão e tocar na pele superior da minha. Remeto-me ao nosso contato sexual, carne com carne, suor, gozo e saliva. Lembro-me do olhar do Jota me devorando devagar, aproveitando…

Capítulo 11

…de repente tenho medo. Tenho medo de tudo o que a vida tem para me oferecer. Tenho medo da vida. Segunda-feira, dia 04 de setembro de 2006 Chega o dia de voltar ao trabalho. Depois de mais de um mês afastada, não tenho coragem para voltar a trabalhar, para enfrentar a cara de reprovação do…

Capítulo 12

Ele me seduziu na cama e em todos os momentos em que não estávamos nela. Era nisso que meu corpo havia se viciado: no desejo dele por mim. Não saberia descrever um amor mais profundo do que o que ele me apresentava. No dia seguinte, saio cedo para o trabalho porque tenho uma reunião com…

Capítulo 13

Tudo o que acontece neste plano tem uma razão de ser. O sofrimento é gerado pelo próprio homem. Ele é o senhor do seu destino, é a sua salvação e a sua perdição. A luxúria, a vaidade, o poder. Todos criados pelo homem. Dele extraídos, nele condenados. Adormeço em posição fetal e, depois de alguns…

Capítulo 14

O medo de perdê-lo me fez abrir a porta para uma infinidade de depravações, e o meu egoísmo me trouxe para o fundo do poço da moralidade, de onde minha alma vil não consegue reunir forças para sair. O interfone toca. É o porteiro que me avisa que ali estão mais de dez vasos de…

Capítulo 15

… me conectava com o que havia de melhor em mim: meu vazio. Nele, eu era absoluta e livre de todos os meus vícios. Nele, no meu vazio mais profundo, eu estava protegida de pensar e também de desejar. Domingo, dia 31 de outubro de 2010 Parece que foi ontem. Já se passaram quatro anos…

Capítulo 16

Não podia permitir que nosso passado fosse invadido pelo futuro dele com outras. Toda a promiscuidade de amor que tivemos deveria permanecer ali, intacta. Preservada como a vagina de uma virgem que morre precocemente. Mas nem tudo na nossa trajetória foram flores… no começo da nossa relação, passamos por muitos altos e baixos até eu…

Capítulo 17

Deu-me a comida de todos os Deuses Imorais para saciar a minha fome de outros homens. Abasteceu-me de luxúria e entorpeceu-me de prazer. Ainda no domingo, dia 31 de outubro de 2010. Às 23:42 h Heidi já está dormindo porque amanhã acorda cedo para uma cirurgia. Estou na sala tomando uma taça de Cabernet Sauvignon…

Capítulo 18

…eram os meus pés culpados pelos caminhos tortos que eu havia seguido. E minha alma pouco evoluída não me deixava ver a luz em um local tão sagrado como esse. Durmo e acordo no dia seguinte com a mesma sensação de vingança. Ela vai pagar muito caro por ter entrado na minha vida desse jeito,…

Capítulo 19

Era o meu vício: estar sedenta por mais formas de sexo vulgar. Por conhecer além do que o corpo pede, conectar-me com esse lado promíscuo que havia em mim… Durante as sete semanas que seguem… Nesse período, que corresponde a exatas sete semanas da minha vida, nem mais nem menos, descobri o que me havia…

Capítulo 20

… entre aspas, posso me deliciar com o prazer pecaminoso que é entregar o que minha mente suja arquitetou para o seu prazer, sem pudor em admitir que a minha desonra moral será completamente castigada, na moldura limitante da sua cama sagrada. Sete semanas depois… Ouço um barulho de e-mail chegando. Entro na caixa de…

 “O prazer é sempre mais mental do que carnal…”

Capítulo 21

“Sem falarmos sequer uma palavra nos aproximamos e, como em um filme, nos agarramos violentamente e desorientadamente. Sem o menor pudor nos tocamos com o desespero que pessoas famintas tocam uma comida depois de um longo jejum. Com sede da saliva que cada um compartilha com seus outros pares, nos saciamos e a degustamos. Nos…

Capítulo 22

Mergulho em um abismo conhecido, com rochas e espaços vazios que ecoam no fundo da minha alma solitária, até alcançar a superfície áspera do parquinho da Praça Nosa Senhora da Paz. É ali, no meio de pombos e balanços enferrujados que me distraio com a Vó Lia em meio aos raios de sol que buscam alcançar meus cabelos loiros e ralos. Distraio-me correndo em volta do banco da vovó sem me preocupar com o passar das horas, sentindo a brisa gelada do fim da tarde refrescar as maçãs do meu rosto, em esquálidos flagelos de alegria. É véspera do aniversário da Caroline, mas ela não está aqui. Ela está no Dr Ulisses, porque está doente. A Caroline vive doente… não sei por que ela não toma aquele remédio da mamãe, aquele que ela diz que tem uma coisa que faz melhorar de tudo. Pergunto para a Vó Lia que horas vamos ver a Caroline e ela me dá um sorriso triste, um igual ao que ela dá para a tia Amélia quando elas discutem.

Capítulo 23

Foi ele, meu filho deformado que voltou para me pedir que eu abrace o seu irmão, o Davi. Senti a presença do Miguel ao meu lado, como se ele soprasse lentamente em meus ouvidos… escutei sua voz ao mesmo tempo em que acariciei a testa aveludada do enorme bebê de sete meses.  O tempo que…

Capítulo 24

Abraçamo-nos de forma demorada e carinhosa. Parecemos dois irmãos aliviando a tensão de um dia ruim. Faço o papel de esposa, aquela que alimenta a alma e assopra as feridas. Tomo para mim a responsabilidade de acolhê-lo, em meu melhor lado maternal… 23 de maio de 2011 Por volta de 14 horas, ao entrar em…

Capítulo 25

Ao passar pelo jardim de inverno localizado no fim do corredor que leva aos quartos, eu vejo a imagem da Caroline em pé, encarando-me dentro do jardim. Assusto-me com a cena e fecho meus olhos com toda força. Quando os abro não vejo mais a sua imagem. Agarro a caixa e entro correndo no meu antigo quarto. Coloco a caixa na mesinha lateral e deito-me na cama, cobrindo todo o meu corpo até a ponta do pescoço e agarro com toda força meu novo pingente de coruja.

Capítulo 26

* AVISO: ESTE CAPÍTULO CONTÉM CENAS FORTES DE VIOLÊNCIA CONTRA MENOR -> EXISTE UMA LEMBRANÇA DA PROTAGONISTA NA QUAL ELA FOI ABUSADA QUANDO TINHA 8 ANOS. ESTA LEITURA PODE PERTURBAR QUEM JÁ TENHA SIDO VÍTIMA DE ABUSOS SEXUAIS, PRINCIPALMENTE NA INFÂNCIA. O CONTEXTO É NECESSÁRIO PARA O EMBASAMENTO DA TRAMA E SUAS RAMIFICAÇÕES POSTERIORES NA…

Capítulo 27

Vivo na escuridão da dor e sou sustentada pelo fogo do pecado, aquele fogo que arde em silêncio no inferno gelado das almas que se perderam no caminho de volta para casa. Vivo nesse frio em busca do meu filho, que deve estar sendo cuidado pela minha doce e querida irmã. Vivo aqui, nesse pedaço de terra chamado casa e nesse pedaço de tempo chamado “vida”…

Capítulo 28

É ela quem tento afastar agora: a maldita culpa, que acaba comigo todos os dias em que tento respirar normalmente. Não consigo emergir à superfície porque o rosto dele está sempre à margem, esperando sua mãe voltar do inferno para lhe salvar… No dia seguinte… Acordo com o celular tocando. É a Méli querendo saber…

Capítulo 29

É certo que não gosto de falar do meu passado. Na verdade, não gosto de pensar nele… me traz dor e repúdio. Dor pelos fatos que eu não posso modificar e repúdio pela pessoa que eu era: fraca.

E essa pessoa fraca construiu uma Anna Lara igualmente fraca, manipulada e instável.

Capítulo 30

Lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e percebo todas as verdades que saem da boca da minha mais doce amiga, aquela que sabe ser gentil, mesmo quando está me machucando com tanta sinceridade ácida e cruel…

Capítulo 31

Khairecya se parece com Maria Scarlet, porém seus traços são mais brutos e seus olhos são escuros como a pedra de ônix que carrega presa em seu pescoço, no formato de uma gargantilha. Seus cabelos negros encostam no quadril e formam um desenho de várias ondas quando se unem ao movimento do balanço das suas cadeiras que se deslocam da sua fina cintura.

Capítulo 32

A verdade é que eu mesma já estava plenamente satisfeita. A porção vagabunda que habita dentro da minha alma estava rindo sorrateira da forma como eu havia sido tratada e não existia outra forma mais vil e suja que pudesse me comover e verter meu desejo em lágrimas de prazer. Sou eu, um objeto puto desprovido de adoração e amor-próprio que implora pelo desdém do outro, que precisa apanhar moralmente para manter-se viva, mais viva e mais satisfeita do que quando era adornada pela mulher que me elevou à categoria de esposa sagrada.

Capítulo 33

Os demônios que podem nos fazer mal estão todos dentro de cada um de nós. Os outros são somente sombras que nos ajudam ou atrapalham. Mas o domínio e o comando são nossos.

Capítulo 34

A cigana velha pediu clemência para sua pequena, entendera que o ódio do seu filho era ciúme e raiva por ela tê-lo deixado para trás, mas Khaicerya sabia que o seu primogênito havia herdado o sangue ruim do mercador espanhol e que dela só havia habitado o ventre. Era um monstro que havia parido e não um ser de luz. Pedia bondade onde só havia ódio, chorava pela redenção dos pecados que não havia cometido, usava seus carinhos de mãe para amolecer o coração daquele que viria a ser seu carrasco.

Capítulo 35

Observo as ondas do mar quebrarem fortes na areia fofa que as acomoda com compaixão e presteza. Penso nesse infinito negro que toca a superfície com toda a força que lhe urge e entendo ser mais importante o chão que se forma a partir deste toque extremo. Entendo que para onde quer que eu olhe só vou enxergar desespero e tristeza, porque sou feita disso: de tudo o que é vil e profano.

Capítulo 36

Essa paz eu só encontrei ao lado do meu Jota… meu Jota sujo e vulgar, que me faz as mais absurdas propostas, que acaba com a minha autoestima e que ao mesmo tempo me entorpece de prazer. Ele é quem faz com que eu me sinta livre, mesmo estando tão presa aos seus comandos….

Capítulo 37

Vejo um cortejo fúnebre ao redor de um mausoléu de mármore com imagens de anjos incrustados na pedra fria. O rosto de todos resplandece o terror de uma despedida triste e arrebatadora. Percebo o clima de tensão e resolvo parar para admirar um pouco da tristeza alheia, para saborear o gosto amargo que é degustado pelos que também sentem dor.

Capítulo 38

Escutou as fagulhas do fogo que se aproximava para venerá-la. Os estilhaços da madeira que começavam a queimar atingiram seus pés calejados. Cerrou os olhos e encontrou com a Deusa da Morte com sua roupa mais bonita, era uma longa saia preta e um véu de renda também na cor preta. Seus seios estavam cobertos pelas tatuagens com as flores de Hambal, seus olhos maquiados estavam com a cor amarela e seu sorriso entregava a felicidade que havia recebido ao ser presenteada pelo fogo. Eram as partituras escondidas que ecoavam do fogo, as partituras das Ghawasee, da energia do sexo, do ritual, da redenção.

Capítulo 39

Sabia que encontraria vários corpos esperando pela minha presença, mas o corpo que eu gostaria de tocar era o da minha ex-mulher, da minha Heidi, com sua pele aveludada e seu toque delicado…

Capítulo 40

Termino meu devaneio e volto para o Jota, que continua a justificar sua relação sexual, como se esta relação precisasse ser justificada; como se o tesão fosse propriedade de um alguém específico ou de alguma instituição. Se é algo que flui, que tem vida própria por sua natureza pungente e devastadora, o tesão não pode ser domado ou controlado, nem ao menos explicado. O tesão só pode ser conduzido ao ápice do gozo, que é para ele a sua mais tenra e devota existência: para o orgasmo libertador, seja ele ordinário ou não.

Capítulo 41

Um lágrima cai do meu rosto e observo minha Maria Scarlet aproximar-se de mim com seu vestido negro, e seu olhar amarelo, igual ao da coruja que por vezes me encontra nos arredores da minha solidão, que desprende minha alma para poder fazer-me livre, em um vôo infinito para dentro de mim mesma…

Na Noite

Na noite os pardos viram lobos, os indigentes viram reis e os homens viram objetos de prazer. O magro vira esbelto e o gordo, abastado. O esnobe é gentil e o carente, providencial. Na calada da noite todo sussurro é canção e todo gozo é hino. O hipócrita sorri satisfeito com a própria modéstia e…